quarta-feira, setembro 28, 2005

Sobre ês outra vez.

Isso é FÓ-DÁ..

Sabe. Eu nunca fui do tipo que escuta música devido ao rótulo que é atribuído a cada banda. Nem me interesso exclusivamente por uma época e vasculho aquilo a fundo prá em seguida tomá-la como minha preferida. Meu gosto musical sempre foi uma coisa meio "lista-do-winamp-no-shuffle", sabe como? Outros chamariam de "farofa" mesmo, mas eu ando querendo me esquivar desses auto-insultos, e tudo mais.
Enfim. O fato é que entre mil bandas sem nenhuma conexão aparente entre si que compoem meu *arrem* gosto musical, o Pearl Jam se destaca como a minha preferida. E, os indecisos me entendem nessa parte, prá mim é muito difícil eleger alguma coisa como a melhor.
Eu colocar os meninos aí de cima no topo de qualquer lista minha não é causa nem da frequência com a qual eu ouço a música deles, ou do modo como todas me tocam. A questão é que foi a música do Pearl Jam que abriu em mim maior interesse por música de verdade - só o que tocava na Mtv ou no rádio ou as músicas sorteadas que eu tinha no meu computador já não eram mais suficientes depois de eu ouvir o Live On Two Legs [seleção maldita de tão boa, é o supra sumo do Pearl Jam.].
E a partir daí, eu não sei como e nem por quais meios, eu fui conhecendo outras coisas que hoje em dia eu consideraro indispensáveis.

E isso tudo é prá tentar passar a felicidade que eu senti quando soube que a banda pela qual eu tenho mais admiração viria tocar cá no Brasil. E prá fazer com que vocês percebam o meu desespero de, em seguida, descobrir que os Shows em São Paulo e Rio [as cidades mais próximas da tal Bêagá] coincidiriam com os dias do meu vestibular.
Felizmente, arrumei uma excursão maluca lá prá casa do capeta [sem querer ofender Curitiba, mas é que isso é longe demais da conta.] e já estava me dando como satisfeita. Oba, ver o Pearl Jam, oba.
Mas hoje eu vi que as coisas podem melhorar.

Dizem por aí que, é bem provável que o Show de São Paulo seja cancelado - problemas mais específicos com o local - e que, caso isso se confirme, eles tocarão numa cidade que tem uma Praça chamada Sete e ruas com os nomes dos estados brasileiros, dispostas de forma que corresponde geograficamente à posição do mapa, intercaladas com ruas de nomes de tribos indígenas.
Cidade que sempre esteve nas minhas poucas ambições e que até hoje eu me pego pensando que, peraí-eu-moro-aqui-veja-só!. Cidade que [hoje] tem um céu cinza cutucado por um monte de prediozinhos que eu não me canso de olhar.

É filho. Eu e eles aqui. Nem em sonho eu imaginaria coisa melhor.
=)

sexta-feira, setembro 23, 2005

Retrato
Cecília Meirelles

"Eu não tinha esse rosto de hoje,
Assim calmo, assim triste, assim magro,
Nem estes olhos tão vazios,
Nem o lábio amargo.

(...)

Eu não dei por esta mudança,
Tão simples, tão certa, tão fácil:
-Em que espelho ficou perdida
A minha face?"


......................................................................................... .

Posso chamar de "Retrato" também?

Hoje ela levantou-se da cama e, ao contrário do usual, o sol ainda não deixava distinguir com perfeição as fotos em cima do criado mudo. Mas a diferença nesse caso era pouca. Já sabia que num porta retrato seu filho sorria a conquista dum diploma e que, no outro, era o genro quem sorria a conquista de sua filha - esta que na foto só fazia ser bonita.
Deixou de lado as pantufas que confirmavam os alguns anos que ela já havia visto passar, e caminhou até a janela de seu quarto. Soprava uma brisa fresca, feito assopro de mãe em olho incomodado por cisco.
Parecia conveniente largar-se ali naquele frescor de dia que nasce, e então ela ficou.
As mãos pendiam do peitoril da janela e dançavam pelo vento calmo, enquanto as lembranças lambiam-nas dum jeito tão real que ela podia sentí-las saltar de dedo em dedo e conduzí-la prá um tempo em que a carne ainda era rija e não havia pintinhas no colo nem varizes nas pernas. Tempo em que podia sorrir sem que duas rugas em volta dos lábios denunciassem quantos tantos outros risos forçados ela já havia esboçado.
E essa imagem da garota de olhos brilhantes por sonhos e coração livre de amargura parecia tão diferente da pintura que os anos haviam feito dela.
Incomodava que já não mais se reconhecesse quando posta frente a frente consigo própria.
Estranhar-se a si mesma foi sentimento que a feriu por dentro. Era como se houvese uma fresta minúscula em algum lugar, pela qual sua essência escapasse sutilmente dia após dia após dia após dia.
Sacudiu a cabeça prá se desfazer de seu antigo retrato, e as mãos prá mandar embora as lembranças.
E ao sair de seus devaneios viu que o dia já se clareava, tomando cor e levando a brisa embora. Logo teria seu auge prá em seugida caminhar rumo à vermelhidão de sua morte. Doze efêmeras horas de vida.
Era bonito seu nascer, mas é fato que também enchia os olhos vê-lo desvanescer e carregar consigo tudo o que pôde comportar enquanto existiu.
Então, como era inútil e demasiado amargo lamentar o irreversível, ela afastou-se da janela, foi até a penteadeira e começou a ajeitar os cabelos grisalhos.
Ora essa. Ainda havia muito dia pela frente até a hora do pôr-do-sol.

terça-feira, setembro 20, 2005

"Eu vi quando você me viu.
Seus olhos pousaram nos meus num arrepio sutil.
Eu vi. Pois é, eu reparei.
Você me tirou prá dançar sem nunca sair do lugar
Sem botar os pés no chão, sem música prá acompanhar.
Foi só por um segundo... todo o tempo do mundo.
E o mundo todo se perdeu.
Eu vi quando você me viu.
Seus olhos buscaram nos meus o mesmo pecado febril
Eu vi. Pois é, eu reparei.
Você me tirou todo o ar prá que eu pudesse respirar
Eu sei que ninguém percebeu, foi só você e eu."


E eu que nunca dei bola prá Maria Rita me perdi nessa música. Mais de dez vezes no winamp, com tudo o que ela tem de lenta, arrastada, piegas e, vá lá, até brega.

Eu que sou a inconstância em pessoa. Que posso ser de dia só sorrisos sem causa e à noite a cara da falta de vontade, do desânimo.
Da preocupação ao poucomefodismo é um passo tão curto e sutil que eu nem o vejo. E quando me dou conta já tô lá, perdendo o olhar numa parede branca com o esmalte das unhas arrancado pelos dentes outrora ansiosos.
Puro caos em um metro e setentêtres de ossos e carne e pêlos e pele. É favor ter a boa vontade de não bater com os dedos no vidro, e transportar com cuidado. Parece não, mas é frágil.

sexta-feira, setembro 16, 2005

[Vários] Da série: Bloco de notas é grande amigo em tempos de internet problemática...

Ócio
-Mas tá na cara, ela não vem.
-Eu sei. E é por isso que gosto da espera.


__________________________________________________

Conclua prá mim, caro leitor. [Ou "opa! tá conectado! *clique no botão xis do bloco de notas."]

Ócio, vício. Me diz até onde a ausência me basta.
Ócio vi. Ciúme diz até onde a ausência me basta.
Oh, se o vício me diz até onde a ausência me basta,
(...) <- (é aqui que você entra.)


_____________________________________________________

Só prá usar uma palavra que eu gosto.

E lá se vai, lascivo.
A mexer os quadris com ginga que é só dele, e de mais ninguém.
Não peca pelo exagero da vestimenta, nem pela caricatura dos gestos. Só peca por se ir.
Assim, lascivo.


_________________________________________________________

Perca o Fôlego.

Um "ai" prá mim é um "ai" ou um resto de palavra que não se sustenta sozinha.[E cai]
Mas se dói em você [ai é dor e aí] eu sentia arder do mesmo jeito que arde em ti e como é que pode, ser tão igual assim?
Um ponto pode ser só terminação duma frase. Ou pode ser o dedo na boca prá não deixar saltar mais palavra.
Mas com um ponto meu eu te atinjo n´outros mil pontos teus que, juro eu, nunca soube ou imaginei que sequer existiriam.
Então não venhas tu ler poesia ou prosa ou frase ou rabisco meu e dizer que sabe o que é que eu queria dizer.
O que eu quero dizer eu já sei, vê bem filho, eu já até eternizei.
Leia-me e pense em você e deixe que as palavras te batam e te partam e te repartam e só então se depare com o que há de mim por aí.
[E à merda com isso aqui.]


__________________________________________________

E uma última coisa boa, prá que vocês não pensem que a vieram até aqui em vão.

"Quando acordou, o dinossauro ainda estava lá."
Microconto de Augusto Monterroso, quase que discutido numa aula hoje. Tá que meu professor fez uma análise bacana e tudo mais, mas a melhor interpretação, sem dúvida, veio dum rapaz lá do fundo da sala: "Bem, pode ter sido que o cara foi dormir bêbado com uma mulher bem feia e quando acordou..."
[Ah, tenha bom humor, vai. Foi engraçado. :B]

terça-feira, setembro 13, 2005

Acontece que eu tenho andado realmente sem o que dizer. Andei escrevendo algumas besteiras numas de minhas idas à biblioteca, [poizé, agora eu vou prá lá depois da faculdade fingir que estudo pro vestibular. Fingir com todo o significado da coisa, porque se já tem me faltado concentração prá aulas como "história contemporânea", o que dizer de estudar Física Elétrica.] mas é tudo muito coisa de momento, de fluxo de consciência, talvez, de descrever o que eu vejo a minha volta.
Mas, me incomoda deixar isso aqui às moscas. Então vá aí, um texto de algum tempo atrás.
Bobo. Poderia ser assinado por uma garotinha de 12 anos apaixonada pelo cara bonitinho da escola. O sentimento é o mesmo, eu sei que é. Mas é que, prá algumas coisas eu ainda não cresci não. [Prá muitas outras também não.]
E, admito. Toda essa introdução é prá me livrar um pouquinho do constrangimento de ter escrito coisa tão infantil e platônica.


Para o meu [quase] amor platônico.

Não sei direito, ô menino.
Eu acho que é esse teu jeito de olhar pros teus pés por pura vergonha de encarar aquela gente toda na tua frente. Meio tímido assim, como se se expor daquele jeito fosse coisa que doía.
Mas pode ser também a rapidez esperta de quem tem medo de se deixar errar, essa que você me deixa ver quando, entre um acorde certo e outro triste, tira uma mão da guitarra e a leva até o rosto prá ajustar os óculos que quase caem do nariz.
Penso até que talvez seja a tua voz, essa tua voz que canta o que às vezes eu sinto, o que eu sei entender até quando se faz grito, de dor ou de raiva ou de alívio - eu não sei.
Mas é que nessa sua indiferença imperfeita, você me ganha dum jeito que me confude e só deixa restar a certeza de que, ah garoto. Basta um "oi" seu prá eu me perder de vez.



[Em tempo: É tão infantil o sentimento, que já passou. Dele ficaram só as letras e umas lembranças bonitinhas.]

Ouvindo - Smashing Pumpkins, 1979 (falar neles, não fosse a minha pobreza gigantesca, quase teria comprado aquele cd cuja capa tem porquinhos, deles, hoje. 19 reais. Mas eu só tinha 20, e era pro presente da minha mãe.)

segunda-feira, setembro 12, 2005

Alô.


Lara não está, quem deseja? Sim. Sim, sim. Pode deixar. Qual seu número? Hum. Vinte e dois? Certo. Certo. Então, até... Vem cá. Ela não está, mas... Quer falar comigo?

Meu nome é Rafael, não que isso mude muita coisa. Não muda nada. Sabe, nunca gostei do meu nome. Torcia pra ser algum autor famoso (ou famoso autor) e ter um nome artístico, um que eu mesmo escolhesse. Mas sabe como são as coisas. Vou acabar como médico fazendo plantão em algum hospital por aí. Quem sabe ainda não corto da tua carne. Não, não desligue. Sou normal no sentido mais mediano da normaleza, mais frígido da sutileza.

E, sim, a Lara não tarda. Escritor tem um pouco de masoquista. Todas dores caem para o lado mais chato, o do escritor. Às vezes, já diria Fernando Pessoa, é bom não cumprir um dever, não ler um livro. Lara está dormindo e não quer ser acordada. Quando despertar vai dar a cara, ainda amassada, ao tapa, só para conseguir algumas linhas pra prender tua atenção, leitor sanguinário. Deixo um parágrafo sobre o assunto e um beijo no meio da testa para quem ouviu minha história.

Sentado. Pernas cruzadas hora para a direita, hora para a esquerda. Corpo curvado. Pelas mãos, derretidas, escorria tudo do que era de fraco nesse mundo. Os olhos, secos e turvos, buscavam no vazio algo para se acomodar e disfarçar o silêncio. Nada. Folheou o livro com medo de cruzar um olhar. Drummond não tinha nada para dizer. Nem Veríssimo, nem Rosa, nem ninguém, nem mesmo a senhora descalça que andava a passear pela calçada. Pensou em criar um verso. Pensou. Cinco minutos se enterraram com dois sonetos alexandrinos, versos todos heptossilábicos. Era todo poeta e nada homem. Arquitetara doze romances até a data em questão, e não tinha ao menos verve para encetar o seu. Naquele instante, era o mais pobre dos desafortunados, um escritor sem palavras e com uma puta de uma mancha de suor nas axilas. O nervosismo cerrara a boca, que, seca e estilhaçada, mal esperava pelo beijo que, de fato, não ocorreu. Foi-se a tarde. Beijo no rosto, mão no ombro, o adeus. Na rua fria e solitária, respirava aliviado a anotar os sentimentos.

terça-feira, setembro 06, 2005

[Retrato] (não necessariamente pra Iaiá.)

Que a perna dele, suja e peluda, entrelaçava as coxas dela, não menos sujas, contudo menos peludas, isso eu via. Mas o cheiro de mijo e marginalidade que aquele enlace exalava, isso aí era coisa de se sentir.
Os ossos das costas pareciam querer furar a camisa amarela da mulher e fugir prá outro lugar - eram alvos demais prá suportar tanta imundície - mas uma mão de nós calejados e textura áspera os acariciava, como se dissesse que ficassem por ali mesmo, que era lugar conhecido há tempos, que era onde eles cabiam direito.
Havia olhos - se há contato eles sempre estão lá - e eles se encontravam. Dum brilho meio fosco, não admira que fossem cinza, dum reflexo de insanidade abandonada tempos atrás [ou horas, ou anos.]. E se as pupilas perdidas umas nas outras diziam algo, a cortina de sujeira que os separavam do resto do mundo não permitia distinguir o que era.
Se demoravam e se namoravam ali, em quarto se mquatro paredes, em cama de cobertor roto - e só o cobertor. E era como se calados e perdidos na desgraça um do outro se encontrassem, prá tornar a se perder do mundo que os cospe os rejeita porque eles não são limpos e decentes como convém.

Da sujeira que se encaixava como vingança e contestação involuntária. Do amor ou da conveniência - isso aí não me deixaram perceber. Dum casal abraçado no chão da praça. Disso tudo eu fiz um retrato.

domingo, setembro 04, 2005

Mais com ele, em mais ócio no msn.
Dessa vez a gente se resolveu pelos microcontos, e, manteve o limite de cinquenta caracteres por cada.
[É bem verdade que acho que ultrapassei algumas letrinhas em algum destes. Mas, ninguém morre por isso, né mesmo?]


Na espera
Cheiro bom fugia da cozinha
Fome escorre pelos olhos do tio

Bobalegre
Suor dor fome e... sorriso.
É que eu ando com felicite aguda.

Pedra no espelho
Pedante que é pedante
Disfarça o gosto por isso

Suicida
Corpo no chão e veneno do lado.
Será que não sabia que era pra rato?

Roedor
Vão se as unhas
Ficam os dedos

Fábula de quem não teve infância
U cuelu filiz tlavessava a lua
Veiu calu e fez plófff!
(...)

Some Viagra, Please (ou "Aquele do coelinho")
Vai ser bom, não foi, querida?

Fantasista
Viu o mar pela janela
Mergulhou...
Esqueceu da avenida

O vaso quebrou
É fato
Parnasianos
nunca comeram ninguém

Ah, a maternidade!
Acordou de madrugada com o choro do bebê.
(...)
- Maldita pílula de farinha.

Shit happens
- Enfim o porquê da exist...
Pá!
- Lugar de doutô num é no Rio

Verdade
Pior que explicar piada
É explicar micro-conto

Casas Pernambucanas
- Quem bate?
- É o frio...
E caiu de susto com a voz.

Saudosismo nerd
/compuserv set icq sound mode "on"

Infância anos 90
/msdos
/c:
/jogos
/supermario
/exe

Loser
De pequeno,
nunca peguei a Carmen Sandiego

Zóio prêto
Sangue do naíz
Láguima no zói
- Quem quié cupado?
- O zoto, mãe!

Perú no bum-bum (ou "Palhaço pedófilo")
Tudo começou com a bitoca no nariz.

E saiu pela porta a cantar
I know, it's only tchu-tchu-tchu
But I like it!



[E se eu disser que é a terceira vez que Don´t lie, do Black Eyed Peas roda por aqui, eu mereço uma pedra no meio da testa? Ainda acho que vale especificar que não, eu não me rebaixei ao ponto de baixar a mp3 dessa música. Na questão de manter um pouquinho de minha compostura, a rádio Terra tem me ajudado.]

quinta-feira, setembro 01, 2005

Clarice. Aurélio.



- Prá mim? Pouco me importa. É que nem aquele poema do Pessoa, sabe qual?
- Tá vendo? É isso que me irrita em você! Essa mania de não levar um assunto adiante, esse seu jeito de sempre sair pelas beradas! "Diálogo de referência" e eu aqui, de mala na mão te dizendo que vou embora. Hunf.

(Ele desvia os olhos do livro que estava em suas mãos e leva-os até a mala postada no chão ao lado de um par de pés. Sobe o olhar calmamente até fixá-lo nos outros dois olhos que estavam na sala.)

- Tô saindo pelas beiradas não. É que realmente não me importa. É sua a vontade de ir? Porta e rua, tchau e bença. Coisa chata é estar-se preso por falta de vontade. Porque, se for daquele jeito que o Camões coloca, a história é outra, cê num acha?

(Ela bufa e faz levantar uma mecha de seu cabelo, que sobe até a altura dos olhos prá, em seguida, voltar rapidinho a seu lugar.)

- Sempre bancando o forte, né? Vai dizer que não te dói aí dentro saber que eu vou e não volto, que lá fora eu me arranjo com outro, que aí eu não vou ser mais só sua.

(Ele pensa por um breve segundo e segue com os olhos ainda no livro.)

- Hum... Só me incomodo de ter de dormir sozinho. Tem feito frio por aqui, sabe. Mas, quanto ao que você fará, é teu o corpo, não meu. Além do que, em relação a ciúme você sabe que eu nunca fui nenhum Bentinho, né?

- Ah não, não. Pára Aurélio. Pára logo, antes que você comece a tagarelar sobre esse tal Dom Masmurro outra vez.

- Masmurro não, Clarice; É Casmurro, com cê.

- Bah! Que seja! Isso só faz diferença prá você, que vive esses livros, que vive dentro deles e esquece daquilo que conquistou aqui, fora das páginas. Você não percebe a gravidade das coisas? Eu sou a sua menina, poxa. Eu te amo, você tem um compromisso a zelar comigo! Não é possível que você seja tão frio!

- Ííí... Lá vem você com esse papo de "Pequeno Príncipe" outra vez. "Tu te tornas responsável por aquilo que cativas e blá blá blá..." Já te falei, Clarice. Isso é livro de Miss, isso é sub-literatura. Cê não pode levar essas coisas tão a sério...

(Clarice olha no fundo dos olhos de Aurélio e sente a raiva tornar rubras as suas bochechas. Um fio gelado se escorre por uma linha que vai da nuca às suas costas, e as pernas deixam de se firmar com precisão. Ela Salta no sofá e, depois de puxar os cabelos, socar o estômago, arranhar o rosto e estapear Aurélio - não sem soltar gritos e urros e uivos - , toma o livro que ele tinha em mãos e começa a rasgar as páginas e jogá-las pro alto, pros lados, pro chão, pra si. Ao se cansar, sem dizer mais palavra, apanha a mala do chão, passa da porta e ganha a rua.)

(Aurélio permanece sentado no sofá, contemplando pelo chão da sala os destroços a que se reduziu seu livrinho de bolso. Suspira pesadamente, e apoia a cabeça na mão direita.)


- É, até que eu gostava dela. Tinha alguma coisa, que eu nunca soube bem o que, mas que me lembrava insistentemente a Lispector...

segunda-feira, agosto 29, 2005

Catártico

Parco porco presto e morto
Posto fosco
Escravo fraco
Frágil a voar por entre correntes duplas e compotas de putas frescas e macias e tenras

Por noites escuras a achar que é gente
Por ruas frias a pensar que é potro
A correr a galopar e tropeçar e tropeçar
Sangue misturado ao vômito e suor e ranho e porra e escória escorre pelas pernas
E a sanidade vai como mijo pela cueca

E se é e se não é
E se pode não balança com as patas na'lgibeira
Embriagado de luar a imaginar o mar que nunca viu nem nunca virá enquanto passagem for coisa de burguês

Mergulha
Em feiúra quando diz que é
Duplo
(e)
Mergulha
Em dobro
Mergulha
Mais de uma vez
Mergulha
(aos montes)

Mas volta seco de pó
Secado em feiúra
Pecado
De impuro de incasto de inútil
Flagelo
Na pele tem talho de ato
Falho sempre ao tentar ser errôneo
Um lado de culpa e outro de dedo que aponta
Busca solução e torna a mergulhar na feiúra de

Achar que estava em Drummond em Bandeira em Rodrigues em Lispector e se viu no espelho
Nu como o mais nu dos nus
Cheio de pêlos que pelos peitos escorriam como se quisessem fugir pelos ombros
(que não suportam um mundo, nem ao menos uma farpa de mundo)

E se fosse homem se fosse forte se fosse alguém
(alguém de algum país de alguma cidade de alguma rua de alguma casa)
Se fosse alguém teria dado cabo ao cabo
Enrolado no pescoço e jogado pela janela

Mas não é ninguém é dos fracos não é macho
(e nem sabe onde é que fica e quem paga e quem habita a casa em que dorme todo dia)
Não há cacife para acabar com coisa nenhuma
Quem dirá com esse martírio que chamam de vida e que empurram como se dele fosse

Infecundo feto de um mundo que gira noite e dia
E as horas passam como o trem que passa todo dia às oito horas a acordar os pobres que foderam a noite inteira
E como tratores esmagam qualquer pio de diferença e brilho
E todo moralismo recai sobre o chapéu do sertanejo deslocado no êxodo de sessenta e seis

E não é apatia falta de propósito ou de tentativa
É que o que é se escancara demais e persegue até no canto mais teu em que se busca esconder
O cotidiano não se solta dos olhos, só salta até eles
Do menino que acata às ordens de se segurar dentro do ônibus, do sopapo que a puta levou no pé do ouvido, das mãos sujas e da mente leve do despudorado
Da vida não se escapa

E pelo tempo a escoar as rugas a nascer e esfarelar ossos e prédios
Por esgotos a cair e levar pura merda com pedaços de milho amarelo-ouro
Comendo banana-maçã e laranja-pêra a imaginar quão doce era a p a m o n h a f r e s q u i n h a p a m o n h a da infância no norte
Com o eterno fardo da vida
Deu o tiro e não morreu

Lara Spagnol e Rafael Romero



[Conversas de Msn no domingo à noite às vezes dão frutos.]