domingo, novembro 20, 2005

Presentes de natal, filme, vergonha alheia. Enfim, coisas de domingo. [Não, missa não tem não.]



Velvet Goldmine é o tipo de filme que todo mundo vê e gosta mais pelas referências contidas na história do que pela produção do filme em si. Pelo menos foi essa a impressão que eu tive depois das duas horas e pouquinho de trilha sonora boa e sotaque britânico que eu assisti hoje.
Tá que isso que eu disse pode ficar meio confuso prá quem não sabe bem qual é o contexto do filme. Basicamente, é a história da cena glam rock na inglaterra, lá pelos anos 70, contada, porém, com personagens fictícios escancaradamente inspirados em ícones reais da época. A foto em questão não deixa tão claro, mas, o rapazinho da esquerda, no filme é Brian Slade. Contudo, se você o vir com o cabelo azul e jaqueta prateada, põe sua mãe [é, a mãe mesmo] no fogo se ele não é o David Bowie. E o junkzinho da direita, interpretado pelo Ewan McGregor, é Curt Wild no filme. Mas desde o momento em que ele entra em cena, de calça de couro preta agarradinha, lápis nos olhos e as costas encurvadas prá frente, você percebe que ele é Iggy Pop.
Basicamente os dois tem um caso, se drogam, fazem sucesso e protagonizam cenas absurdamente constrangedoras. Eu não minto se digo que enfiei a cara no travesseiro quando vi os dois rodando, cantando Sattelite of Love do Lou Reed com o olhar apaixonado um no outro, entre luzes coloridinhas.
Enfim. Velvet Goldmine é um filme interessante na medida em que traduz para o cinema a cena musical de algumas décadas atrás. [Por sinal, a década que abre o livro Mate-me por favor, se não me engano.] Mas, como produção artística mesmo, eu acho que deixa muito a desejar.


Ah, sim. O presente de natal.

[Eu sei, papai noel, que eu não fui lá a melhor garota do mundo durante esse ano. Eu sei até que cometi umas burradas que, poxa vida, né. Acontece que, por elas, eu mesma fiz questão de me punir. E você sabe que eu sou minha melhor carrasca né?
Pois então. Tenho as minhas dívidas sanadas. Não custa atender o meu pedido.
Traz prá mim, o Ewan McGregor vestido de Iggy Pop [sem as viadagens, óbvio.] no dia 24 que eu prometo, juro, que ano que vem vou ser boa menina.
Fechou?
]

quarta-feira, novembro 16, 2005

[Para o sétimo Concurso Maldito. O tema era algo como "ganhar na loteria".]

Prá [não] ver a vida passar

Prá ela não fazia muita diferença se era dia dos claros ou dos cinzas. E se era feriado ou segunda feira, ela também não tinha urgência de saber. É que ali da janela as coisas não se modificavam muito não...
Todo o dia, depois da sesta, ela deixava o marido a dormir na cama e caminhava até o parapeito. E naquele horário em que tudo já ia fresco e definido, a rua deixava ver passarem os carros, as mocinhas, os homens, as bicicletas, as crianças correndo com os chinelos na mão.
Não, não ficava ali a observar realmente tudo o que sucedia. Era mais como um descanso pros olhos, uma forma de dar vazão a seus pensamentos, agora já mais ou menos gastos, que os anos que ela carregava nas costas não caberiam nas mãos de sete pessoas.
E foi num dia desses, de janela, coisas passando e horas da tarde, que ela percebeu voltar lá do outro lado da esquina o seu marido, correndo como deixava a idade, sorrindo como não se via há muito tempo. Tinha um bilhetinho na mão, que sacudia pro ar, como se quissesse mostrar ao mundo [que, prá ele, bem verdade, não passava muito daquela rua] que aquele papel era seu e que agora ninguém o tiraria de suas garras.
Com névoa de devaneios pelo rosto, ela foi até a porta ver o que é que ocorria com o seu velho e quase que não entendeu o que ele explicava com gestos, gritos e uns beijos desajeitados que dava em seu rosto esporadicamente. Então era isso... haviam ganhado na loteria, e estavam ricos, e aquela casa chique, dois pavimentos, bairro bom, viria já já. E as dívidas do filho mais novo seriam sanadas, iam ver o Roberto Carlos naquela viagem de navio que passava pela tv, e, por falar em tv, iam trocar. Uma nova, grandona, parede quase inteira, ia encher a sala.
E com todo aquele excesso de informação, de novidade, de mudanças, ela só soube se confundir. Deixou que o marido resolvesse tudo, até que as coisas tomassem seu rumo, que aquilo ali ela iria só assitir.
No segundo andar duma casa luxuosa, naquele bairro onde moram os membros da alta sociedade, ela perde o olhar na janela todos os dias, após a sesta. Seu marido dorme e ela pensa, divaga, viaja.
Mas agora [não] vê topos de cabeças e tetos de carro. É que a casa é alta, e em seus pés botaram uns saltos altos.

segunda-feira, novembro 14, 2005

Ha.


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Bah.
Passa que lá é estranho e aqui é esquisito. E no outro lugar então, deus do céu. A vontade única era a de ser tão pequena quanto eu me sentia.
Descobri, depois de horas sem dormir e estrada asfalto sol e banco de carros, que o lugar em que eu caibo é o caminho.
Vestida de ansiedade prá chegada, afogada em "mas dessa vez vai ser bom, vai sim."
Passa que eu caibo nas lembranças. Minhas e alheias.
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"Waiting for the miracle... For the miracle to come."

terça-feira, novembro 08, 2005

[QuintoConcurso Maldito. O tema dessa vez era "Clichê".]

Daqueles papos originais que a gente ouve na fila do pão. (Ou no corredor da faculdade, no ponto de ônibus, na mesa ao lado.)


Daí né, daí o morro era alto prá caramba né, mó subidaça assim né, e o sol bicho, nem te conto daquele sol. Puta sol quente do caralho, arregaçando meus miolo. Coloquei a mão na cabeça e muleque, tu num acredita. Não, tu num leva fé no quanto que tava quente a parada.
Poizintão. Mas aí eu tava subindo aquele trem, e começou a chegar uns malaco muito estranho perto de mim. Também né, eu com essa cara lindona de playboy que eu tenho né, ha-ha fala aí amizade, fala aí se num é, fala sério, pô. Então. Veio chegano mais prá perto os mulequinho assim e eu pensei que ia rodar né, claro né. Porque tava até meio arrumado assim, não fragava dos esquema ainda, daí fui do jeito que achava que dava certo e tal. Os moleque bicho, com trintêoito na mão, tudo assim ó, tudo passando perdimim e eu lá, só na minha. Vô encará não né? Cê besta. Vai que cismam comigo e vem prá cima de mim aí eu tô ferrado né? Ha. Aí fui, fui na minha assim, na moral, suando que nem um porco ou, tu precisava ver.
Com pôco cheguei lá na boca né. Daí mandei chamá aquele cara que o Bunda me deu o nome. (...) O Bunda, porra. Aquele do segundo ano. É, o bundudo, claro né, ô oreia. Então, (...) não, fica quieto! Escuta a parada! Veio o sujeito né. Bicho, mais mal encarado que o capeta, ou. Nessa hora eu, eu nem queria falá não viu, mas confessá procê que é brother. Nessa hora eu tremi nas base. Aí pedi né, passei o dinheiro prá ele e ele veio com a minha trouxinha.
Ah menino, nem acreditei direito na hora que vi o negócio. Dei um jeito discondê assim, coloquei por dentro do tênis, embaixo do amortecedor sacolé? Haha, eu tenho a manha, muleque. Eu tô te falando que tenho. E aí vim descendo prá cá... No caminho bicho, inda cruzei com um puliça, cê acredita? Fiquei até com um medo de rodar, mas aí ele passou por mim de boa assim, nem desconfiou nem nada, nem nada. (...) Aliiii muleque, ali do outro lado da rua. Tá vendo não? Aquela menina gostóóósa que vai lá na loja da mãe vezenquando. Ô, mulher boa viu. Uma dessa comigo num dura nem dois segundo. (...) Ah tá. Mas e aí, vamo? (...) Coééé frango! Vai amarelar agora? Ahhh não me decepciona não sô! (...) Que mané descobrir! Descobrir! É só você num dá bandeira. Vão bora, vão. Anda logo. Vô enrolar prá gente que nós vamo tudo ficar doidão. Ha-ha, loucuuuura bicho, loucuuuura demais.
Chega aí, fei.

sábado, novembro 05, 2005

Prá Justificar um Micro-Conto

Anda não era muito tarde, mas o céu já ia escuro. Findava um daqueles dias cinzas de verão, em que sombinhas escapam das bolsas prevendo chuva. Chuva... tinha disso também. É, por sinal, chovia.
Lá na frente se deixava ver a garota, pisando os paralelepípedos com tanta calma que, não fosse pelo vestido amarelo molhado, poderia-se afirmar, com a certeza da fé d´um crente, que os pingos da chuva não a atingiam.
O tal vestidinho era novo. Comprado no brechó há uma semana. Corte reto. Um palmo aberto acima do joelho e lá estava a barra. Manguinhas no meio do braço e uma golinha simpática. Bonitinho que só ele.
As sapatilhas brancas ela segurava nas mãos, prá sentir com a planta dos pés o frio do chão molhado. Era bom.
Por um instante, parou e mirou o poste aceso. Via as gotas a passar agitadas rente ao medalhão de luz que a lâmpada formava, e se enchia duma inquietação diferente. Sentia que algo subia-lhe pelo estômago e parecia prestes a tomá-la de súbito.
Conseguiria resistir? A rua parecia tão bonita assim, sob luzes de postes, fechada por árvores molhadas, se enchendo de música da chuva. E... havia porque resistir?
Largou os sapatos no chão e abriu os braços. Os olhos bem fechados, a cbeça inclinada prá trás, um sorriso no rosto.
Era ali um sopro amarelo arrombando a sobriedade das janelas que se fechavam para a rua.
Girava feito criança, então não poderia gargalhar de outra forma. Girava e que se dane se ele não a amava, à merda com os estudos atrasados, um foda-se à sua crise existêncial e que vão pro inferno os famintos da Somália.
Girava agora, como se sua alma pesasse menos que uma pena. Girou até arfar de cansaço e se deixar cair no chão, as mãos na barriga que chacoalhava enquanto ela ria.
E assim foi.

Foi feliz e, em seguida, foi prá casa.



[Enquanto eu escrevia isso começou a chover de verdade lá fora. Sopraram felicidade na minha cara também. Eu só não vestia amarelo. :)]

quarta-feira, novembro 02, 2005

Always, The Hours.

Always, The Hours.

[ "Dear Leonard, To look life in the face, always, to look life in the face, and to know it for what it is. At last to know it, to love it, for what it is, and then, to put it away. Leonard, always the years between us, always the years, always the love, always... the hours..." ]


Mrs. Dalloway disse que ela mesma iria comprar as flores hoje.
Virginia Woolf perdida em seus devaneios de escritora, matando e ressucitando sua heroína. Tirando a vida do poeta visionário prá que os outros dêem mais valor ao que têm ao seu redor. Mergulhando em rios com pedras nos bolsos do casaco.
Clarissa reprimindo seu choro rasgado com festas convites comidas cadeiras flores - que ela mesma comprou. Clarissa sucumbindo à sua dor na frente do fogão, limpando as lágrimas com as costas da mão, que a palma já ia suja de comida que ela preparava pro jantar de mais tarde. Clarissa apoiando sua vida em quem, com olhos tristes dum azul bonito, se joga pela janela após um "eu te amo".
A música do piano ficando mais intensa, as teclas da parte esquerda sendo surradas em acordes graves, cortantemente harmonizadas com o som de notas agudas. Réquiem prum corpo que já não mais tem de de encarar as horas.
Laura chorando escondida no banheiro a tristeza de não conseguir ser menos fria. Deixando romperem as lágrimas que a avisam que, daquele jeito ali não dá prá ser. Que felicidade não é prá ela. Laura que faz um bolo prá mostrar ao seu marido que o ama, e deixa seu filho numa creche prá se entupir de pílulas branquinhas que a livrariam do peso de viver.
E eu ainda tenho que encarar as horas. Aquelas que sucedem e antecedem momentos que, ingênua como só cabe a uma moça ser, julgo serem o início da felicidade quando, na verdade, são só um sopro dela.
Sobem os créditos e eu vejo no escuro do fundo da tela uma menina encolhida no sofá com os cabelos despenteados. O travesseiro amassado entre as pernas e o corpo. A boca abafando choros na fronha alva.

[Quando um filme parece ter sido feito com o extrato dos miolos da sua cabeça, ele não acaba com a última cena. Hoje, nesse feriado cinza, eu assisti "As Horas".]

sábado, outubro 29, 2005

[Mais um pro Concurso Maldito. O tema dessa vez era Atos Carnais. Ui.]


Sintético.

O som das chicotadas ressoava pelo eco monstro da igreja. Parecia tão alto que faria enrrugar de pavor o rosto daqueles santos do altar, não fossem eles tão apáticos.
Os caroços rígidos de milho comiam-lhe a pele dos joelhos como se tivessem dentes; agarravam-se a ela como se ostentassem garras; queriam penetrar carne adentro como se estar ali fora fosse erro com urgência de ser sanado.
Concentrava-se na dor prá se esquecer do ambiente a sua volta. Assim não veria os rostos de gesso que o culpavam e não sentiria em seu corpo o cheiro da batina rançosa e puída que afirmava: Era um padre.
Era um padre e era um padre e era o Deus lá da paróquia e era homem e era carne, e desejo, o celibato, as mulheres, e ai há Deus, e era um padre.
O suor lhe escorria pelas costas e ele urrava de dor que provocava a si mesmo. Ainda assim não conseguia se esquivar daquilo a que todo ser de sangue nas veias sucumbe. Porque suava e, sexo. Porque gemia e, sexo. Porque era intenso e, sexo. Os lábios da santa e, sexo.
E parecia até o estalar do chicote em sua pele cantar "sexo!".
Bocas e pernas e o decote da beata, aquela mocinha que outro dia passou assim, sorrindo com os olhos em brasa.
Envolveu-se em pensamentos e devaneios proibidos, numa catarse tão intensa que já não ouvia o som das chicotadas, tampouco sentia os grãos furarem-lhe os joelhos.
Em sua frente agora, só uma silhueta feminina. Um vestido sem cor e sem forma se afrouxava no corpo da mulher à medida em que suas mãos tiravam das casas botões sem textura.
Não tinha rosto, a sua fêmea. Era só sexo e unicamente a isso se dava.
Tinha raiva e pressoa e a queria àquela hora, daquele jeito, em seu pecado perfeito. Então beijava lábios sem gosto e apalpava peles que não lhe acariciavam a mão. Afogou-se no perfume de cabelos sem cheiro e consumou o ato, sem carne.
E aqueles santos de rosto sintético, se fossem reais [ah, se o fossem!], já teriam se quebrado em mil partes diante do êxtase, misto de dor e gozo, daquele padre que era humano demais e agora jazia lânguido, ali nas escadarias que davam pro altar.

quarta-feira, outubro 26, 2005

Sobre Clichês, rios e falta de memória.

Eu já não me lembro muito bem - minha memória nunca foi boa - o nome daquele filósofo que, há um tempinho atrás, escreveu algo sobre nunca se poder entrar duas vezes na mesma corrente dum rio. E o rapaz era até esperto. Justificava-se dizendo que, além de as águas do rio se renovarem a cada instante, você também não continua o mesmo. Pois, veja. No instante em que sai, você já não é mais o Fulano; passa a ser Fulano-pós-entrada-no-rio.
Deu prá entender?
Então. O que quero dizer é que hoje - com o perdão da péssima metáfora - tentei entrar num Rio no qual já estive em outros tempos. Explico, pois não: Voltei pro Cursinho.
E não sei sei bem se é por ter me mantido alheia a esse tipo de ambiente por um certo tempo, ou se o ano que passou [e que tá quase acabando né? Oia bem. O que é a rapidez do tempo, não é mesmo minha gente?] é que fez de mim uma pessoa mais perceptiva. Mas, ocorre que eu tenho a impressão de que os adolescentes se encaixam com maestria e força extraordinária nos clichês humanos. Nas roupas, nos gestos, nas frases, nos papéis, no jeito de falar.
Em um dia apenas, já flagrei os hippies que devem prestar algo na área de humanas; os playboys com blusa do camarote da última festa da redondeza; os "tô nem fudendo, aê." com ar blasè o tempo todo; o apaixonado que senta do lado dela, nem tão apaixonada assim, e a assiste durante todas as aulas; as miguxas numa competição subentendida acerca de quem tem o melhor namorado, a melhor bolsa, o cabelo mais liso, e por aí vai; e mais uma penca de tipos. Flagrei até uma tímida sentada mais ali atrás, rabiscando a contracapa da apostila e dando umas olhadas esporádicas prá toda a sala, botando etiqueta em todos os tipos e tornando a abaixar a cabeça prá riscar qualquer porcaria pretensiosa no papel duro.

Sabe. Não é que eu esteja alheia a toda essa coisa. Eu sei uai, eu tô ali, naquela fase intermediária para qual os publicitários crescem os dentes. ["Ah... esses adolescentes, adoram comprar! *olhinhos de cifrão*]
Mas é que toda essa esterotipação me assusta, quando não me enjoa. Menos pelo fato de serem eles exemplares vivos do que há de mais medíocre numa faixa etária, e mais porque, até onde eu me permito dar opnião, a idade não fará tanta diferença nesses casos.
Serão adultos-classe-média estereoripados. Deixando-se divergir apenas no endereço, profissão, cor de cabelo e número de filhos.

É.
Não vou negar que já nadei nas correntes do tal Rio. Mas minha reentrada nele se faz mais difícil hoje. Sem reprimir a presunção, acho que a água é muito rasa prá mim.

sábado, outubro 22, 2005

Ausência

As folhas brancas riscadas em pontos estratégicos por cinco linhas, bem próximas umas das outras. Um caderno de música mais ou menos completo. Claves de Sol feias, feias, mais ou menos, com a ponta de cima torta e, finalmente, perfeitas.
Ele tinha ambições e ela nunca as conheceu. Agora já não mais adiantaria apertar contra o peito as folhas riscadas pela letra dele, tampouco levar o caderno a altura das narinas e cheirá-lo.
Sentia um aperto estranho no peito, como se toda ela fosse reduzir-se àquele aperto, como se aquela dor fosse torná-la pequena; minúscula ao ponto de poder passear entre as notas que ele havia desenhado nas pautas.
Desviou a visão - agora obviamente embaçada - da partitura amadora, e acalentou o quarto com os olhos. Cada objeto antes sem propósito, cada dobra nos lençóis da cama em que ele havia dormido pela última vez, cada peça de roupa que ele deixara pelo chão talhava-lhe o corpo de um jeito tão denso, que ela temeu sujar o chão com a essência que escapava de sua alma pelos buracos recém abertos.
Não era exatamente a ausência dele ali o que tanto lhe doía. Seu choro tornava-se solto e inconsolável quando ela pensava na ausência dele em todo um mundo.
Quantas tantas coisas maravilhosas aindam existiriam perfeitamente sem a presença de seu filho, e quão admirado ele poderia ficar em contemplá-las, em sentir todo um mundo.
Aqueles olhos escuros e negros que se deixavam estar atrás de óculos grossos, o sorriso que saía como se devesse se esconder, o cabelo caindo sobre a cara de menino tímido. Todo o seu filho agora se reduzia a ossos e vermes e terra e lembranças.
Chorava. E soluçava, e gritava, e esmurrava o travesseiro amassado sobre a cama, e arrancava das janelas a cortina já encardida, e se colocava de joelhos arfando e se culpando mais que qualquer outra pessoa já se culpou, por ter estado ausente quando devia estar próxima, por ter negado tanto, por ter dado tão pouca importância, e por ter saído de casa exatamente naquele dia, naquela hora, e não ter voltado a tempo de vê-lo com a arma na mão e o cano enfiado dentro da boca.


[Sem dúvida esse é um dos textos que mais me machucou prá ser escrito. Que mais demorou prá ser escrito. Se algum dia eu já tive alguma intimidade com as palavras, ao escrever esse texto ela se fez - hê hê hê ¬¬ - ausente. Inventar sentimentos e lidar com eles é uma coisa. Trabalhar com o seu e fazer dele texto, é outra.]


Ps: Não, não há nenhuma mensagem subliminar acerca do Desarmamento nesse post. Vão bater na mesma tecla em outro lugar, que isso aqui não é lugar de punheta retórica.

quarta-feira, outubro 19, 2005

[Opa. É... tá quente mesmo. Poxa vida. E ainda é primavera né? Ah, é mesmo? Então essas chuvas vão refrescar Dezembro um cadim. O referendo? Ah, eu não voto, não tenho título. Poizé. Que coisa não?
Ahhh o Mensalão. Que tristeza, que tristeza. Mas é assim mesmo. Político é tudo safado.
Mas e o Galo hein?]


Já deu prá perceber que o assunto falta, né? Vá lá então.
Comentários [inutéis e preguiçosos] sobre os dois últimos filmes vistos.


A estranha família de Igby [Igby Goes Down]
De Burr Steers



Disseram-me que Igby Goes Down foi baseado no [ótimo, por sinal] livro do J.D Salinger, O Apanhador no Campo de Centeio e que, de quebra, tinha a trilha sonora boa. Então eu vi a capa do filme com Kieran Culkin [O sobrenome te lembra alguém? Pois bem, são irmãos.] fazendo carinha de garoto problema na frente desse fundo azul e não resisti, aluguei.
Não diria que há muito da obra de Salinger no livro; diria que há muito do protagonista literário Holden Caulfield no cinematográfico Igby. Mas essa coincidência é totalmente compreensível, já que as duas obras tratam de adolescentes, esses tipos que não se diferem muito no quesito "problema". Dificuldade em aceitar que se deve crescer, que se deve tomar um rumo na vida, que não há realmente jeito de não se ser sozinho, enfim, uma série de coisas sobre a qual Travis, Dance of Days e B5 [ê-he-he] sabem falar melhor que eu.
Esse mote com o qual a identificação se faz fácil fácil pelas bandas de cá, somado às boas atuações [tem até o Ryan Philippe e a moça bocuda do Will & Grace], à trilha sonora realmente boa, à secura cortante de algumas cenas e a uma sequência chorável deveras, fazem de A estranha família de Igby um filme daqueles assim, sabe?
Simples e foda.



Maus Hábitos [Entre Tinieblas]
De Pedro Almodóvar


[faltou um poster decente, hein seu google?]

Isso é sarcasmo. [Não aquele que qualquer imbecil faz com uma apontada de dedo.]
Isso é ironia. [Não necessariamente a Machadiana.]
Isso é crítica. [Não a óbvia.]
Isso é cuspe na cara da hipocrisia. [Não aquele escarro verde e grosso, adolescente e revoltado.]
Isso é humor. [Não aquele que te faz rir sem sentir uma pontinha de ódio.]

E se o diretor de Mudança de Hábito não sugou todo o "humor de convento" que conseguiu ver nesse filme e o passou por um filtro prá tornar seu filme cabível prá Sessão da Tarde, eu já não sei de mais nada.
Assistam, pessoas. [Tá, só uma recomendação é pouco. Tem freirinha injetando heroína, tem freira tomando ácido e vendo a torta de uva toda laranja e verde, tem cantora de cabaré se apresentando com a indumentária mais brega-anos-80 impossível, tem romance de banca sendo comparado a Gabriel Garcia Marquez... Preciso falar mais?]