Aqui jaz uma foto de Eddie Vedder, que desalinhou meu template.
[Mr. Eddie Vedder ontem, comprovando aquela história do rei que nunca perde a majestade. E a foto vai enorme mesmo - é merecido.]
__________________________________
[Sobre Sonhos.]
Ah.
Eu poderia chegar aqui e descrever tecnicamente tudo aquilo que eu vi e ouvi ontem, em Curitiba. Mas, acontece que isso não levaria vocês prá lá. Isso não esmagaria as pernas de vocês de dor; não colaria teus estômagos nas costas; não faria vocês esquecerem de fome, de desconforto, de calor, e de que existia um mundo fora daquele espaço ali em que o show acontecia.
E é por isso que eu não vou tentar reproduzir aquilo tudo com palavras. Só me limito a dizer que o Show do Pearl Jam foi a melhor coisa que eu já presenciei. Sem medo algum de estar equivocada.
Não era coisa de se ver, ou de se ouvir; Aquilo ali era prá ser sentido, vivido com a intensidade que se fez a tua espera durante todo o tempo que eles demoraram.
Eu, naquelas duas horas e meia de show, superei todos os meus limites e descobri que sonhos se realizam num misto de dor e prazer, lágrima e suor, felicidade e êxtase.
Ver na minha frente a banda que não sei por quais motivos se tornou a minha preferida, ouvir aqueles cinco rapazes tocando prá mim [e que importa se não era exclusivamente prá mim?], sentir que eu ainda estou viva, que eu não desaprendi a sentir paixão pelas coisas, é coisa que não se explica, porque é coisa que não se entende.
Foi maravilhoso, se interessa a alguém. Foi simplesmente maravilhoso.
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quinta-feira, dezembro 01, 2005
segunda-feira, novembro 28, 2005
Então.
Amanhã é dia de entrar no ônibus com gente que eu ainda nem conheço e adormecer minha bunda com mais de quinze horas de viagem até amanhecer em Curitiba. Mas aí quarta feira não vai ter torcicolo nem bunda doendo nem fome nem qualquer outra menor necessidade fisiológica que me tire daquela Pedreira, que desgrude meus olhinhos do palco.
O Pearl Jam, sô. O Pearl Jam.
E quando eu voltar, conto como é que tudo foi maravilhoso.
Por enquanto mesmo, só uma daquelas besteiras riscadas na horizontal, ó:
[Sem título porque a ansiedade já me come.]
Chegou embriagado em casa. Era a terceira vez naquela semana. Contudo, pessoa para censurá-lo não havia; Morava e vivia sozinho.
Cambaleou da sala até o quarto, onde desfez-se dos sapatos. Sentado na cama, os olhos vermelhos e molhados passeavam pela paisagem urbana que a janela do sétimo andar deixava ver. Outros prédios, e mais cinza, e concreto.
Desistiu de caçar lógicar naquilo ali, também porque começara a sentir-se nauseado. Olhou pros pés e viu a mancha rosa que, na juventudade, durante poucos minutos fora seu câncer. Aquele que foi suspeita e consequente negação dos médicos em menos de uma hora. A lembrança enfureceu-lhe. Mas que desgraça, nem um cancerzinho de merda deixavam-lhe ter. Nada que fizesse-lhe pelo menos um pouco diferente.
Voltou os olhos para seu guarda roupa de mongo, três portas, três calças, três gravadas, duas camisas, um chinelo, três parcelas a serem pagas, que dançava na frente de seus olhos. E aquele quadro "deus-é-fiel" comprado no Um e Noventa e Nove também teimava em não aquietar-se.
O enjôo lhe ia crescendo, que era vileza demais que era sozinhês demais e pequenez nem se fala o futuro promissor onde é que ficara e as boas notas do colegial os amigos que um dia tivera e tudo atacava-lhe o rosto como faces que riem e dedos que apontam sentia faltar-lhe o ar até quando é que aguentaria até que...
De súbito, virou-se pro lado e vomitou a alma.
Amanhã é dia de entrar no ônibus com gente que eu ainda nem conheço e adormecer minha bunda com mais de quinze horas de viagem até amanhecer em Curitiba. Mas aí quarta feira não vai ter torcicolo nem bunda doendo nem fome nem qualquer outra menor necessidade fisiológica que me tire daquela Pedreira, que desgrude meus olhinhos do palco.
O Pearl Jam, sô. O Pearl Jam.
E quando eu voltar, conto como é que tudo foi maravilhoso.
Por enquanto mesmo, só uma daquelas besteiras riscadas na horizontal, ó:
[Sem título porque a ansiedade já me come.]
Chegou embriagado em casa. Era a terceira vez naquela semana. Contudo, pessoa para censurá-lo não havia; Morava e vivia sozinho.
Cambaleou da sala até o quarto, onde desfez-se dos sapatos. Sentado na cama, os olhos vermelhos e molhados passeavam pela paisagem urbana que a janela do sétimo andar deixava ver. Outros prédios, e mais cinza, e concreto.
Desistiu de caçar lógicar naquilo ali, também porque começara a sentir-se nauseado. Olhou pros pés e viu a mancha rosa que, na juventudade, durante poucos minutos fora seu câncer. Aquele que foi suspeita e consequente negação dos médicos em menos de uma hora. A lembrança enfureceu-lhe. Mas que desgraça, nem um cancerzinho de merda deixavam-lhe ter. Nada que fizesse-lhe pelo menos um pouco diferente.
Voltou os olhos para seu guarda roupa de mongo, três portas, três calças, três gravadas, duas camisas, um chinelo, três parcelas a serem pagas, que dançava na frente de seus olhos. E aquele quadro "deus-é-fiel" comprado no Um e Noventa e Nove também teimava em não aquietar-se.
O enjôo lhe ia crescendo, que era vileza demais que era sozinhês demais e pequenez nem se fala o futuro promissor onde é que ficara e as boas notas do colegial os amigos que um dia tivera e tudo atacava-lhe o rosto como faces que riem e dedos que apontam sentia faltar-lhe o ar até quando é que aguentaria até que...
De súbito, virou-se pro lado e vomitou a alma.
sexta-feira, novembro 25, 2005
Há um certo tempo, eu não saberia precisar quanto, eu tento me esconder da minha mediocridade. Ponho nos olhos uma venda feita de orgulho besta e cubro o corpo com ilusões.
Mas ontem, a maldita me encarou. Sentou-se na minha frente na mesa do bar, bebeu cerveja no meu copo, enfiou o dedo na minha cara, apontou as não-saídas dos becos.
Mais cruel que um espelho, ela me refletiu, destituída das mentiras nas quais eu me apoiei prá esquivar-me dela. E aí, todas as desculpas e justificativas não tinham mais serventia alguma prá mim.
Ela me disse que agora, e sempre, seríamos eu e ela e ela e eu, e que eu não tentasse não; escape não haveria nunca.
Eu entendi, entendi sim. E dei uma olhada ao meu redor prá perceber que todos viviam felizes na sua vileza, sorrindo simpatias fingidas, almejando a calça mais cara da vitrine da esquina.
"Pois bem. Se eles podem, porque não eu?", foi o que eu pensei.
Então foi só erguer o copo e brindar com minha amiga de tantos anos [passados e futuros] a felicidade de plástico que eu ainda hei de viver.
[Ouvindo Travis - Love you anyways.]
PS: Estou de férias. U-au.
Mas ontem, a maldita me encarou. Sentou-se na minha frente na mesa do bar, bebeu cerveja no meu copo, enfiou o dedo na minha cara, apontou as não-saídas dos becos.
Mais cruel que um espelho, ela me refletiu, destituída das mentiras nas quais eu me apoiei prá esquivar-me dela. E aí, todas as desculpas e justificativas não tinham mais serventia alguma prá mim.
Ela me disse que agora, e sempre, seríamos eu e ela e ela e eu, e que eu não tentasse não; escape não haveria nunca.
Eu entendi, entendi sim. E dei uma olhada ao meu redor prá perceber que todos viviam felizes na sua vileza, sorrindo simpatias fingidas, almejando a calça mais cara da vitrine da esquina.
"Pois bem. Se eles podem, porque não eu?", foi o que eu pensei.
Então foi só erguer o copo e brindar com minha amiga de tantos anos [passados e futuros] a felicidade de plástico que eu ainda hei de viver.
[Ouvindo Travis - Love you anyways.]
PS: Estou de férias. U-au.
domingo, novembro 20, 2005
Presentes de natal, filme, vergonha alheia. Enfim, coisas de domingo. [Não, missa não tem não.]

Velvet Goldmine é o tipo de filme que todo mundo vê e gosta mais pelas referências contidas na história do que pela produção do filme em si. Pelo menos foi essa a impressão que eu tive depois das duas horas e pouquinho de trilha sonora boa e sotaque britânico que eu assisti hoje.
Tá que isso que eu disse pode ficar meio confuso prá quem não sabe bem qual é o contexto do filme. Basicamente, é a história da cena glam rock na inglaterra, lá pelos anos 70, contada, porém, com personagens fictícios escancaradamente inspirados em ícones reais da época. A foto em questão não deixa tão claro, mas, o rapazinho da esquerda, no filme é Brian Slade. Contudo, se você o vir com o cabelo azul e jaqueta prateada, põe sua mãe [é, a mãe mesmo] no fogo se ele não é o David Bowie. E o junkzinho da direita, interpretado pelo Ewan McGregor, é Curt Wild no filme. Mas desde o momento em que ele entra em cena, de calça de couro preta agarradinha, lápis nos olhos e as costas encurvadas prá frente, você percebe que ele é Iggy Pop.
Basicamente os dois tem um caso, se drogam, fazem sucesso e protagonizam cenas absurdamente constrangedoras. Eu não minto se digo que enfiei a cara no travesseiro quando vi os dois rodando, cantando Sattelite of Love do Lou Reed com o olhar apaixonado um no outro, entre luzes coloridinhas.
Enfim. Velvet Goldmine é um filme interessante na medida em que traduz para o cinema a cena musical de algumas décadas atrás. [Por sinal, a década que abre o livro Mate-me por favor, se não me engano.] Mas, como produção artística mesmo, eu acho que deixa muito a desejar.
Ah, sim. O presente de natal.
[Eu sei, papai noel, que eu não fui lá a melhor garota do mundo durante esse ano. Eu sei até que cometi umas burradas que, poxa vida, né. Acontece que, por elas, eu mesma fiz questão de me punir. E você sabe que eu sou minha melhor carrasca né?
Pois então. Tenho as minhas dívidas sanadas. Não custa atender o meu pedido.
Traz prá mim, o Ewan McGregor vestido de Iggy Pop [sem as viadagens, óbvio.] no dia 24 que eu prometo, juro, que ano que vem vou ser boa menina.
Fechou?]
Velvet Goldmine é o tipo de filme que todo mundo vê e gosta mais pelas referências contidas na história do que pela produção do filme em si. Pelo menos foi essa a impressão que eu tive depois das duas horas e pouquinho de trilha sonora boa e sotaque britânico que eu assisti hoje.
Tá que isso que eu disse pode ficar meio confuso prá quem não sabe bem qual é o contexto do filme. Basicamente, é a história da cena glam rock na inglaterra, lá pelos anos 70, contada, porém, com personagens fictícios escancaradamente inspirados em ícones reais da época. A foto em questão não deixa tão claro, mas, o rapazinho da esquerda, no filme é Brian Slade. Contudo, se você o vir com o cabelo azul e jaqueta prateada, põe sua mãe [é, a mãe mesmo] no fogo se ele não é o David Bowie. E o junkzinho da direita, interpretado pelo Ewan McGregor, é Curt Wild no filme. Mas desde o momento em que ele entra em cena, de calça de couro preta agarradinha, lápis nos olhos e as costas encurvadas prá frente, você percebe que ele é Iggy Pop.
Basicamente os dois tem um caso, se drogam, fazem sucesso e protagonizam cenas absurdamente constrangedoras. Eu não minto se digo que enfiei a cara no travesseiro quando vi os dois rodando, cantando Sattelite of Love do Lou Reed com o olhar apaixonado um no outro, entre luzes coloridinhas.
Enfim. Velvet Goldmine é um filme interessante na medida em que traduz para o cinema a cena musical de algumas décadas atrás. [Por sinal, a década que abre o livro Mate-me por favor, se não me engano.] Mas, como produção artística mesmo, eu acho que deixa muito a desejar.
Ah, sim. O presente de natal.
[Eu sei, papai noel, que eu não fui lá a melhor garota do mundo durante esse ano. Eu sei até que cometi umas burradas que, poxa vida, né. Acontece que, por elas, eu mesma fiz questão de me punir. E você sabe que eu sou minha melhor carrasca né?
Pois então. Tenho as minhas dívidas sanadas. Não custa atender o meu pedido.
Traz prá mim, o Ewan McGregor vestido de Iggy Pop [sem as viadagens, óbvio.] no dia 24 que eu prometo, juro, que ano que vem vou ser boa menina.
Fechou?]
quarta-feira, novembro 16, 2005
[Para o sétimo Concurso Maldito. O tema era algo como "ganhar na loteria".]
Prá [não] ver a vida passar
Prá ela não fazia muita diferença se era dia dos claros ou dos cinzas. E se era feriado ou segunda feira, ela também não tinha urgência de saber. É que ali da janela as coisas não se modificavam muito não...
Todo o dia, depois da sesta, ela deixava o marido a dormir na cama e caminhava até o parapeito. E naquele horário em que tudo já ia fresco e definido, a rua deixava ver passarem os carros, as mocinhas, os homens, as bicicletas, as crianças correndo com os chinelos na mão.
Não, não ficava ali a observar realmente tudo o que sucedia. Era mais como um descanso pros olhos, uma forma de dar vazão a seus pensamentos, agora já mais ou menos gastos, que os anos que ela carregava nas costas não caberiam nas mãos de sete pessoas.
E foi num dia desses, de janela, coisas passando e horas da tarde, que ela percebeu voltar lá do outro lado da esquina o seu marido, correndo como deixava a idade, sorrindo como não se via há muito tempo. Tinha um bilhetinho na mão, que sacudia pro ar, como se quissesse mostrar ao mundo [que, prá ele, bem verdade, não passava muito daquela rua] que aquele papel era seu e que agora ninguém o tiraria de suas garras.
Com névoa de devaneios pelo rosto, ela foi até a porta ver o que é que ocorria com o seu velho e quase que não entendeu o que ele explicava com gestos, gritos e uns beijos desajeitados que dava em seu rosto esporadicamente. Então era isso... haviam ganhado na loteria, e estavam ricos, e aquela casa chique, dois pavimentos, bairro bom, viria já já. E as dívidas do filho mais novo seriam sanadas, iam ver o Roberto Carlos naquela viagem de navio que passava pela tv, e, por falar em tv, iam trocar. Uma nova, grandona, parede quase inteira, ia encher a sala.
E com todo aquele excesso de informação, de novidade, de mudanças, ela só soube se confundir. Deixou que o marido resolvesse tudo, até que as coisas tomassem seu rumo, que aquilo ali ela iria só assitir.
No segundo andar duma casa luxuosa, naquele bairro onde moram os membros da alta sociedade, ela perde o olhar na janela todos os dias, após a sesta. Seu marido dorme e ela pensa, divaga, viaja.
Mas agora [não] vê topos de cabeças e tetos de carro. É que a casa é alta, e em seus pés botaram uns saltos altos.
Prá [não] ver a vida passar
Prá ela não fazia muita diferença se era dia dos claros ou dos cinzas. E se era feriado ou segunda feira, ela também não tinha urgência de saber. É que ali da janela as coisas não se modificavam muito não...
Todo o dia, depois da sesta, ela deixava o marido a dormir na cama e caminhava até o parapeito. E naquele horário em que tudo já ia fresco e definido, a rua deixava ver passarem os carros, as mocinhas, os homens, as bicicletas, as crianças correndo com os chinelos na mão.
Não, não ficava ali a observar realmente tudo o que sucedia. Era mais como um descanso pros olhos, uma forma de dar vazão a seus pensamentos, agora já mais ou menos gastos, que os anos que ela carregava nas costas não caberiam nas mãos de sete pessoas.
E foi num dia desses, de janela, coisas passando e horas da tarde, que ela percebeu voltar lá do outro lado da esquina o seu marido, correndo como deixava a idade, sorrindo como não se via há muito tempo. Tinha um bilhetinho na mão, que sacudia pro ar, como se quissesse mostrar ao mundo [que, prá ele, bem verdade, não passava muito daquela rua] que aquele papel era seu e que agora ninguém o tiraria de suas garras.
Com névoa de devaneios pelo rosto, ela foi até a porta ver o que é que ocorria com o seu velho e quase que não entendeu o que ele explicava com gestos, gritos e uns beijos desajeitados que dava em seu rosto esporadicamente. Então era isso... haviam ganhado na loteria, e estavam ricos, e aquela casa chique, dois pavimentos, bairro bom, viria já já. E as dívidas do filho mais novo seriam sanadas, iam ver o Roberto Carlos naquela viagem de navio que passava pela tv, e, por falar em tv, iam trocar. Uma nova, grandona, parede quase inteira, ia encher a sala.
E com todo aquele excesso de informação, de novidade, de mudanças, ela só soube se confundir. Deixou que o marido resolvesse tudo, até que as coisas tomassem seu rumo, que aquilo ali ela iria só assitir.
No segundo andar duma casa luxuosa, naquele bairro onde moram os membros da alta sociedade, ela perde o olhar na janela todos os dias, após a sesta. Seu marido dorme e ela pensa, divaga, viaja.
Mas agora [não] vê topos de cabeças e tetos de carro. É que a casa é alta, e em seus pés botaram uns saltos altos.
segunda-feira, novembro 14, 2005

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Bah.
Passa que lá é estranho e aqui é esquisito. E no outro lugar então, deus do céu. A vontade única era a de ser tão pequena quanto eu me sentia.
Descobri, depois de horas sem dormir e estrada asfalto sol e banco de carros, que o lugar em que eu caibo é o caminho.
Vestida de ansiedade prá chegada, afogada em "mas dessa vez vai ser bom, vai sim."
Passa que eu caibo nas lembranças. Minhas e alheias.
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"Waiting for the miracle... For the miracle to come."
terça-feira, novembro 08, 2005
[QuintoConcurso Maldito. O tema dessa vez era "Clichê".]
Daqueles papos originais que a gente ouve na fila do pão. (Ou no corredor da faculdade, no ponto de ônibus, na mesa ao lado.)
Daí né, daí o morro era alto prá caramba né, mó subidaça assim né, e o sol bicho, nem te conto daquele sol. Puta sol quente do caralho, arregaçando meus miolo. Coloquei a mão na cabeça e muleque, tu num acredita. Não, tu num leva fé no quanto que tava quente a parada.
Poizintão. Mas aí eu tava subindo aquele trem, e começou a chegar uns malaco muito estranho perto de mim. Também né, eu com essa cara lindona de playboy que eu tenho né, ha-ha fala aí amizade, fala aí se num é, fala sério, pô. Então. Veio chegano mais prá perto os mulequinho assim e eu pensei que ia rodar né, claro né. Porque tava até meio arrumado assim, não fragava dos esquema ainda, daí fui do jeito que achava que dava certo e tal. Os moleque bicho, com trintêoito na mão, tudo assim ó, tudo passando perdimim e eu lá, só na minha. Vô encará não né? Cê besta. Vai que cismam comigo e vem prá cima de mim aí eu tô ferrado né? Ha. Aí fui, fui na minha assim, na moral, suando que nem um porco ou, tu precisava ver.
Com pôco cheguei lá na boca né. Daí mandei chamá aquele cara que o Bunda me deu o nome. (...) O Bunda, porra. Aquele do segundo ano. É, o bundudo, claro né, ô oreia. Então, (...) não, fica quieto! Escuta a parada! Veio o sujeito né. Bicho, mais mal encarado que o capeta, ou. Nessa hora eu, eu nem queria falá não viu, mas confessá procê que é brother. Nessa hora eu tremi nas base. Aí pedi né, passei o dinheiro prá ele e ele veio com a minha trouxinha.
Ah menino, nem acreditei direito na hora que vi o negócio. Dei um jeito discondê assim, coloquei por dentro do tênis, embaixo do amortecedor sacolé? Haha, eu tenho a manha, muleque. Eu tô te falando que tenho. E aí vim descendo prá cá... No caminho bicho, inda cruzei com um puliça, cê acredita? Fiquei até com um medo de rodar, mas aí ele passou por mim de boa assim, nem desconfiou nem nada, nem nada. (...) Aliiii muleque, ali do outro lado da rua. Tá vendo não? Aquela menina gostóóósa que vai lá na loja da mãe vezenquando. Ô, mulher boa viu. Uma dessa comigo num dura nem dois segundo. (...) Ah tá. Mas e aí, vamo? (...) Coééé frango! Vai amarelar agora? Ahhh não me decepciona não sô! (...) Que mané descobrir! Descobrir! É só você num dá bandeira. Vão bora, vão. Anda logo. Vô enrolar prá gente que nós vamo tudo ficar doidão. Ha-ha, loucuuuura bicho, loucuuuura demais.
Chega aí, fei.
Daqueles papos originais que a gente ouve na fila do pão. (Ou no corredor da faculdade, no ponto de ônibus, na mesa ao lado.)
Daí né, daí o morro era alto prá caramba né, mó subidaça assim né, e o sol bicho, nem te conto daquele sol. Puta sol quente do caralho, arregaçando meus miolo. Coloquei a mão na cabeça e muleque, tu num acredita. Não, tu num leva fé no quanto que tava quente a parada.
Poizintão. Mas aí eu tava subindo aquele trem, e começou a chegar uns malaco muito estranho perto de mim. Também né, eu com essa cara lindona de playboy que eu tenho né, ha-ha fala aí amizade, fala aí se num é, fala sério, pô. Então. Veio chegano mais prá perto os mulequinho assim e eu pensei que ia rodar né, claro né. Porque tava até meio arrumado assim, não fragava dos esquema ainda, daí fui do jeito que achava que dava certo e tal. Os moleque bicho, com trintêoito na mão, tudo assim ó, tudo passando perdimim e eu lá, só na minha. Vô encará não né? Cê besta. Vai que cismam comigo e vem prá cima de mim aí eu tô ferrado né? Ha. Aí fui, fui na minha assim, na moral, suando que nem um porco ou, tu precisava ver.
Com pôco cheguei lá na boca né. Daí mandei chamá aquele cara que o Bunda me deu o nome. (...) O Bunda, porra. Aquele do segundo ano. É, o bundudo, claro né, ô oreia. Então, (...) não, fica quieto! Escuta a parada! Veio o sujeito né. Bicho, mais mal encarado que o capeta, ou. Nessa hora eu, eu nem queria falá não viu, mas confessá procê que é brother. Nessa hora eu tremi nas base. Aí pedi né, passei o dinheiro prá ele e ele veio com a minha trouxinha.
Ah menino, nem acreditei direito na hora que vi o negócio. Dei um jeito discondê assim, coloquei por dentro do tênis, embaixo do amortecedor sacolé? Haha, eu tenho a manha, muleque. Eu tô te falando que tenho. E aí vim descendo prá cá... No caminho bicho, inda cruzei com um puliça, cê acredita? Fiquei até com um medo de rodar, mas aí ele passou por mim de boa assim, nem desconfiou nem nada, nem nada. (...) Aliiii muleque, ali do outro lado da rua. Tá vendo não? Aquela menina gostóóósa que vai lá na loja da mãe vezenquando. Ô, mulher boa viu. Uma dessa comigo num dura nem dois segundo. (...) Ah tá. Mas e aí, vamo? (...) Coééé frango! Vai amarelar agora? Ahhh não me decepciona não sô! (...) Que mané descobrir! Descobrir! É só você num dá bandeira. Vão bora, vão. Anda logo. Vô enrolar prá gente que nós vamo tudo ficar doidão. Ha-ha, loucuuuura bicho, loucuuuura demais.
Chega aí, fei.
sábado, novembro 05, 2005
Prá Justificar um Micro-Conto
Anda não era muito tarde, mas o céu já ia escuro. Findava um daqueles dias cinzas de verão, em que sombinhas escapam das bolsas prevendo chuva. Chuva... tinha disso também. É, por sinal, chovia.
Lá na frente se deixava ver a garota, pisando os paralelepípedos com tanta calma que, não fosse pelo vestido amarelo molhado, poderia-se afirmar, com a certeza da fé d´um crente, que os pingos da chuva não a atingiam.
O tal vestidinho era novo. Comprado no brechó há uma semana. Corte reto. Um palmo aberto acima do joelho e lá estava a barra. Manguinhas no meio do braço e uma golinha simpática. Bonitinho que só ele.
As sapatilhas brancas ela segurava nas mãos, prá sentir com a planta dos pés o frio do chão molhado. Era bom.
Por um instante, parou e mirou o poste aceso. Via as gotas a passar agitadas rente ao medalhão de luz que a lâmpada formava, e se enchia duma inquietação diferente. Sentia que algo subia-lhe pelo estômago e parecia prestes a tomá-la de súbito.
Conseguiria resistir? A rua parecia tão bonita assim, sob luzes de postes, fechada por árvores molhadas, se enchendo de música da chuva. E... havia porque resistir?
Largou os sapatos no chão e abriu os braços. Os olhos bem fechados, a cbeça inclinada prá trás, um sorriso no rosto.
Era ali um sopro amarelo arrombando a sobriedade das janelas que se fechavam para a rua.
Girava feito criança, então não poderia gargalhar de outra forma. Girava e que se dane se ele não a amava, à merda com os estudos atrasados, um foda-se à sua crise existêncial e que vão pro inferno os famintos da Somália.
Girava agora, como se sua alma pesasse menos que uma pena. Girou até arfar de cansaço e se deixar cair no chão, as mãos na barriga que chacoalhava enquanto ela ria.
E assim foi.
Foi feliz e, em seguida, foi prá casa.
[Enquanto eu escrevia isso começou a chover de verdade lá fora. Sopraram felicidade na minha cara também. Eu só não vestia amarelo. :)]
Anda não era muito tarde, mas o céu já ia escuro. Findava um daqueles dias cinzas de verão, em que sombinhas escapam das bolsas prevendo chuva. Chuva... tinha disso também. É, por sinal, chovia.
Lá na frente se deixava ver a garota, pisando os paralelepípedos com tanta calma que, não fosse pelo vestido amarelo molhado, poderia-se afirmar, com a certeza da fé d´um crente, que os pingos da chuva não a atingiam.
O tal vestidinho era novo. Comprado no brechó há uma semana. Corte reto. Um palmo aberto acima do joelho e lá estava a barra. Manguinhas no meio do braço e uma golinha simpática. Bonitinho que só ele.
As sapatilhas brancas ela segurava nas mãos, prá sentir com a planta dos pés o frio do chão molhado. Era bom.
Por um instante, parou e mirou o poste aceso. Via as gotas a passar agitadas rente ao medalhão de luz que a lâmpada formava, e se enchia duma inquietação diferente. Sentia que algo subia-lhe pelo estômago e parecia prestes a tomá-la de súbito.
Conseguiria resistir? A rua parecia tão bonita assim, sob luzes de postes, fechada por árvores molhadas, se enchendo de música da chuva. E... havia porque resistir?
Largou os sapatos no chão e abriu os braços. Os olhos bem fechados, a cbeça inclinada prá trás, um sorriso no rosto.
Era ali um sopro amarelo arrombando a sobriedade das janelas que se fechavam para a rua.
Girava feito criança, então não poderia gargalhar de outra forma. Girava e que se dane se ele não a amava, à merda com os estudos atrasados, um foda-se à sua crise existêncial e que vão pro inferno os famintos da Somália.
Girava agora, como se sua alma pesasse menos que uma pena. Girou até arfar de cansaço e se deixar cair no chão, as mãos na barriga que chacoalhava enquanto ela ria.
E assim foi.
Foi feliz e, em seguida, foi prá casa.
[Enquanto eu escrevia isso começou a chover de verdade lá fora. Sopraram felicidade na minha cara também. Eu só não vestia amarelo. :)]
quarta-feira, novembro 02, 2005
Always, The Hours.

[ "Dear Leonard, To look life in the face, always, to look life in the face, and to know it for what it is. At last to know it, to love it, for what it is, and then, to put it away. Leonard, always the years between us, always the years, always the love, always... the hours..." ]
Mrs. Dalloway disse que ela mesma iria comprar as flores hoje.
Virginia Woolf perdida em seus devaneios de escritora, matando e ressucitando sua heroína. Tirando a vida do poeta visionário prá que os outros dêem mais valor ao que têm ao seu redor. Mergulhando em rios com pedras nos bolsos do casaco.
Clarissa reprimindo seu choro rasgado com festas convites comidas cadeiras flores - que ela mesma comprou. Clarissa sucumbindo à sua dor na frente do fogão, limpando as lágrimas com as costas da mão, que a palma já ia suja de comida que ela preparava pro jantar de mais tarde. Clarissa apoiando sua vida em quem, com olhos tristes dum azul bonito, se joga pela janela após um "eu te amo".
A música do piano ficando mais intensa, as teclas da parte esquerda sendo surradas em acordes graves, cortantemente harmonizadas com o som de notas agudas. Réquiem prum corpo que já não mais tem de de encarar as horas.
Laura chorando escondida no banheiro a tristeza de não conseguir ser menos fria. Deixando romperem as lágrimas que a avisam que, daquele jeito ali não dá prá ser. Que felicidade não é prá ela. Laura que faz um bolo prá mostrar ao seu marido que o ama, e deixa seu filho numa creche prá se entupir de pílulas branquinhas que a livrariam do peso de viver.
E eu ainda tenho que encarar as horas. Aquelas que sucedem e antecedem momentos que, ingênua como só cabe a uma moça ser, julgo serem o início da felicidade quando, na verdade, são só um sopro dela.
Sobem os créditos e eu vejo no escuro do fundo da tela uma menina encolhida no sofá com os cabelos despenteados. O travesseiro amassado entre as pernas e o corpo. A boca abafando choros na fronha alva.
[Quando um filme parece ter sido feito com o extrato dos miolos da sua cabeça, ele não acaba com a última cena. Hoje, nesse feriado cinza, eu assisti "As Horas".]
[ "Dear Leonard, To look life in the face, always, to look life in the face, and to know it for what it is. At last to know it, to love it, for what it is, and then, to put it away. Leonard, always the years between us, always the years, always the love, always... the hours..." ]
Mrs. Dalloway disse que ela mesma iria comprar as flores hoje.
Virginia Woolf perdida em seus devaneios de escritora, matando e ressucitando sua heroína. Tirando a vida do poeta visionário prá que os outros dêem mais valor ao que têm ao seu redor. Mergulhando em rios com pedras nos bolsos do casaco.
Clarissa reprimindo seu choro rasgado com festas convites comidas cadeiras flores - que ela mesma comprou. Clarissa sucumbindo à sua dor na frente do fogão, limpando as lágrimas com as costas da mão, que a palma já ia suja de comida que ela preparava pro jantar de mais tarde. Clarissa apoiando sua vida em quem, com olhos tristes dum azul bonito, se joga pela janela após um "eu te amo".
A música do piano ficando mais intensa, as teclas da parte esquerda sendo surradas em acordes graves, cortantemente harmonizadas com o som de notas agudas. Réquiem prum corpo que já não mais tem de de encarar as horas.
Laura chorando escondida no banheiro a tristeza de não conseguir ser menos fria. Deixando romperem as lágrimas que a avisam que, daquele jeito ali não dá prá ser. Que felicidade não é prá ela. Laura que faz um bolo prá mostrar ao seu marido que o ama, e deixa seu filho numa creche prá se entupir de pílulas branquinhas que a livrariam do peso de viver.
E eu ainda tenho que encarar as horas. Aquelas que sucedem e antecedem momentos que, ingênua como só cabe a uma moça ser, julgo serem o início da felicidade quando, na verdade, são só um sopro dela.
Sobem os créditos e eu vejo no escuro do fundo da tela uma menina encolhida no sofá com os cabelos despenteados. O travesseiro amassado entre as pernas e o corpo. A boca abafando choros na fronha alva.
[Quando um filme parece ter sido feito com o extrato dos miolos da sua cabeça, ele não acaba com a última cena. Hoje, nesse feriado cinza, eu assisti "As Horas".]
sábado, outubro 29, 2005
[Mais um pro Concurso Maldito. O tema dessa vez era Atos Carnais. Ui.]
Sintético.
O som das chicotadas ressoava pelo eco monstro da igreja. Parecia tão alto que faria enrrugar de pavor o rosto daqueles santos do altar, não fossem eles tão apáticos.
Os caroços rígidos de milho comiam-lhe a pele dos joelhos como se tivessem dentes; agarravam-se a ela como se ostentassem garras; queriam penetrar carne adentro como se estar ali fora fosse erro com urgência de ser sanado.
Concentrava-se na dor prá se esquecer do ambiente a sua volta. Assim não veria os rostos de gesso que o culpavam e não sentiria em seu corpo o cheiro da batina rançosa e puída que afirmava: Era um padre.
Era um padre e era um padre e era o Deus lá da paróquia e era homem e era carne, e desejo, o celibato, as mulheres, e ai há Deus, e era um padre.
O suor lhe escorria pelas costas e ele urrava de dor que provocava a si mesmo. Ainda assim não conseguia se esquivar daquilo a que todo ser de sangue nas veias sucumbe. Porque suava e, sexo. Porque gemia e, sexo. Porque era intenso e, sexo. Os lábios da santa e, sexo.
E parecia até o estalar do chicote em sua pele cantar "sexo!".
Bocas e pernas e o decote da beata, aquela mocinha que outro dia passou assim, sorrindo com os olhos em brasa.
Envolveu-se em pensamentos e devaneios proibidos, numa catarse tão intensa que já não ouvia o som das chicotadas, tampouco sentia os grãos furarem-lhe os joelhos.
Em sua frente agora, só uma silhueta feminina. Um vestido sem cor e sem forma se afrouxava no corpo da mulher à medida em que suas mãos tiravam das casas botões sem textura.
Não tinha rosto, a sua fêmea. Era só sexo e unicamente a isso se dava.
Tinha raiva e pressoa e a queria àquela hora, daquele jeito, em seu pecado perfeito. Então beijava lábios sem gosto e apalpava peles que não lhe acariciavam a mão. Afogou-se no perfume de cabelos sem cheiro e consumou o ato, sem carne.
E aqueles santos de rosto sintético, se fossem reais [ah, se o fossem!], já teriam se quebrado em mil partes diante do êxtase, misto de dor e gozo, daquele padre que era humano demais e agora jazia lânguido, ali nas escadarias que davam pro altar.
Sintético.
O som das chicotadas ressoava pelo eco monstro da igreja. Parecia tão alto que faria enrrugar de pavor o rosto daqueles santos do altar, não fossem eles tão apáticos.
Os caroços rígidos de milho comiam-lhe a pele dos joelhos como se tivessem dentes; agarravam-se a ela como se ostentassem garras; queriam penetrar carne adentro como se estar ali fora fosse erro com urgência de ser sanado.
Concentrava-se na dor prá se esquecer do ambiente a sua volta. Assim não veria os rostos de gesso que o culpavam e não sentiria em seu corpo o cheiro da batina rançosa e puída que afirmava: Era um padre.
Era um padre e era um padre e era o Deus lá da paróquia e era homem e era carne, e desejo, o celibato, as mulheres, e ai há Deus, e era um padre.
O suor lhe escorria pelas costas e ele urrava de dor que provocava a si mesmo. Ainda assim não conseguia se esquivar daquilo a que todo ser de sangue nas veias sucumbe. Porque suava e, sexo. Porque gemia e, sexo. Porque era intenso e, sexo. Os lábios da santa e, sexo.
E parecia até o estalar do chicote em sua pele cantar "sexo!".
Bocas e pernas e o decote da beata, aquela mocinha que outro dia passou assim, sorrindo com os olhos em brasa.
Envolveu-se em pensamentos e devaneios proibidos, numa catarse tão intensa que já não ouvia o som das chicotadas, tampouco sentia os grãos furarem-lhe os joelhos.
Em sua frente agora, só uma silhueta feminina. Um vestido sem cor e sem forma se afrouxava no corpo da mulher à medida em que suas mãos tiravam das casas botões sem textura.
Não tinha rosto, a sua fêmea. Era só sexo e unicamente a isso se dava.
Tinha raiva e pressoa e a queria àquela hora, daquele jeito, em seu pecado perfeito. Então beijava lábios sem gosto e apalpava peles que não lhe acariciavam a mão. Afogou-se no perfume de cabelos sem cheiro e consumou o ato, sem carne.
E aqueles santos de rosto sintético, se fossem reais [ah, se o fossem!], já teriam se quebrado em mil partes diante do êxtase, misto de dor e gozo, daquele padre que era humano demais e agora jazia lânguido, ali nas escadarias que davam pro altar.
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