Só quem já presenciou a companhia fiel e quieta de um gato sabe porque dói tanto quando eles vão embora. De hoje em diante, ela tem só mais sete dias, e tudo que eu queria era a ignorância calma e linda dela frente aos fatos; dentro dos olhos amarelos e gigantes dela a morte não é uma possibilidade tão recorrente, e esses incômodos passageiros hão de ser só passageiros, hão de parar daqui uns tempos.
Eu queria, mais que tudo agora, que o mundo fosse visto com os olhos espertos dela, e que a fatalidade não fosse possível, nunca. Eu queria que viver fosse macio como pegá-la no colo, e que todos os sons fossem de alegria, como aquele ronronar discreto que ela tinha.
O que dói em perder um animal, além da inocência deles frente ao fato, é saber que não inventaram nada que justifique esta partida. Não existe religião prá animal, nem a perspectiva de uma nova vida depois da morte. Quando eles morrem, a gente tem que se conformar com a saudade, e entrar dentro dela, e abrir mais um talho no corpo da gente, e ver mais uma cicatriz procurar um espacinho prá se instalar.
Eu não sei concluir isso aqui, porque eu ainda não soube me pôr nos eixos direito. Tô cambaleando entre dó, saudade, tristeza, desespero, infantilidade, não-aceitação. Vai passar, como qualquer coisa, e então eu vou poder sentir o toque bom da lembrança e um amor tão calminho quanto dormidas embaixo da mesa da copa.
Mas por enquanto eu só queria, pelo menos por um segundo, a sensação de conforto que ela me passava quando eu chegava em casa, como se dissesse lá do seu cantinho: Não importa o que aconteça, eu ainda estou aqui.
Ah, Pam.
terça-feira, setembro 01, 2009
sexta-feira, junho 26, 2009
quinta-feira, junho 04, 2009
Vôo Coréia-Londres (sem escala)
acordei em Londres no meio da fog que lá se chama fog porque neblina é muito pouco britânico pro frio de lá. acordei em Londres e meu cabelo era milimetricamente bagunçado de um jeito tão cool que a minha banda de rock safado já estava estourada e a minha única preocupação era chegar ao primeiro milhão e depois partir cada um pro seu canto sem ter que pensar em dinheiro nunca mais na vida e podendo nunca mais na vida ter que arrumar a cozinha depois do almoço. acordei em Londres e tudo o que eu falava virava outra fumaça dentro da fumaça e então eu desistia de dizer qualquer coisa e só enfiava a mão dentro dos bolsos do casaco e sentia como é quentinho não ter que pensar nada sobre nada. acordei em londres e ser besta ao invés de fazer mal fazia dinheiro...
quinta-feira, maio 07, 2009
Bon Jovi me entenderia...
... E talvez eu até me permitisse ter uns defeitinhos, umas falinhas, porém só aquelas que, de tão pequenininhas e descabidas dentro da perfeição, acabam por só tornar tudo mais gracioso ainda.
(Uma pinta solitária ou um dentinho de Kirsten Dunst.)
Mas nunca esse turbilhão de desacertos, todos ao mesmo tempo e agora, tornando tudo futilmente mais difícil, fazendo a desconfiança parecer tão confiável, colocando cortinas imaginárias sob os espelhos - é sempre preciso recorrer aos filtros quando se é gauche nos reflexos.
Por mais que não pareça importante e por mais que seja superficial, acontece que eu queria, por um diazinho que só, ser direita.
(Uma pinta solitária ou um dentinho de Kirsten Dunst.)
Mas nunca esse turbilhão de desacertos, todos ao mesmo tempo e agora, tornando tudo futilmente mais difícil, fazendo a desconfiança parecer tão confiável, colocando cortinas imaginárias sob os espelhos - é sempre preciso recorrer aos filtros quando se é gauche nos reflexos.
Por mais que não pareça importante e por mais que seja superficial, acontece que eu queria, por um diazinho que só, ser direita.
terça-feira, março 03, 2009
agora, do carnaval.
Quando chove na terça-feira, justinho na redentora terça-feira, e alguém toca um samba sobre alguém que se foi, a euforia acumulada desde a sexta parece se esvair no contratempo de um acorde. E o tempo cinza, romanticamente perfeito prá se permitir um vazio, agora só não parece mais descabido que o seu desânimo de último dia.
Porque ser triste no carnaval é engolir a angústia com cerveja e sentir na boca o gosto dos confetes de ontem, é ter vergonha de chorar na frente de tantas cores. Ser triste no carnaval é ir contra esta obrigação de se ser feliz, é começar o ano mais cedo, é dar de cara com a ressaca que a verdade traz.
Porque ser triste no carnaval é acreditar que todo samba é de verdade...
"A felicidade do pobre parece
A grande ilusão do carnaval
A gente trabalha o ano inteiro
Por um momento de sonho
Pra fazer a fantasia
De rei ou de pirata ou jardineira
Pra tudo se acabar na quarta-feira
Tristeza não tem fim
Felicidade sim..."
Porque ser triste no carnaval é engolir a angústia com cerveja e sentir na boca o gosto dos confetes de ontem, é ter vergonha de chorar na frente de tantas cores. Ser triste no carnaval é ir contra esta obrigação de se ser feliz, é começar o ano mais cedo, é dar de cara com a ressaca que a verdade traz.
Porque ser triste no carnaval é acreditar que todo samba é de verdade...
"A felicidade do pobre parece
A grande ilusão do carnaval
A gente trabalha o ano inteiro
Por um momento de sonho
Pra fazer a fantasia
De rei ou de pirata ou jardineira
Pra tudo se acabar na quarta-feira
Tristeza não tem fim
Felicidade sim..."
segunda-feira, dezembro 15, 2008
do fim de ano.
Você passa o ano inteiro de um lado para outro, a cabeça afundada em tudo menos no travesseiro, suas pernas inquietando o desconforto de não entender as pessoas e essa vontade estúpida que elas ostentam de ter e ser tudo ao mesmo tempo.
Você passa o ano inteiro frustrado por não compreender a engenharia que movimenta as existências, até perceber que você, inevitavelmente, agora faz parte deste mecanismo estranho e sem sentido.
O tempo todo você cumpre a sua rotina, automatiza suas funções, tem tempo regrado até para os pequenos escapes programados para o fim das semanas, o tempo todo você já não sabe mais qual é a sua função dentro do todo.
Ao fim você pensa que já está desfeito de todos os seus motivos e razões, ao fim de um ano você quer só desistir do próximo.
Mas então, quando você, em algum ponto, se pôs preso dentro de um apartamento vazio e lá fora chove daquele jeito triste como só quando se está sozinho em dezembro, então você lembra que há o fim de ano prá que você não perca o sentimento de ser pequeno e aguardar com esperança pelo que você já conhece, ser pequeno e ter voracidade prá abrir o papel de um presente que em algum tempo irá quebrar, ser pequeno e simplesmente sorrir, porque as coisas devem ter um motivo que você desconhece para serem boas.
...Let the seasons begin - it rolls right on...
Você passa o ano inteiro frustrado por não compreender a engenharia que movimenta as existências, até perceber que você, inevitavelmente, agora faz parte deste mecanismo estranho e sem sentido.
O tempo todo você cumpre a sua rotina, automatiza suas funções, tem tempo regrado até para os pequenos escapes programados para o fim das semanas, o tempo todo você já não sabe mais qual é a sua função dentro do todo.
Ao fim você pensa que já está desfeito de todos os seus motivos e razões, ao fim de um ano você quer só desistir do próximo.
Mas então, quando você, em algum ponto, se pôs preso dentro de um apartamento vazio e lá fora chove daquele jeito triste como só quando se está sozinho em dezembro, então você lembra que há o fim de ano prá que você não perca o sentimento de ser pequeno e aguardar com esperança pelo que você já conhece, ser pequeno e ter voracidade prá abrir o papel de um presente que em algum tempo irá quebrar, ser pequeno e simplesmente sorrir, porque as coisas devem ter um motivo que você desconhece para serem boas.
...Let the seasons begin - it rolls right on...
segunda-feira, novembro 17, 2008
Talvez não seja mesmo do nosso feitio seguir em frente, se tudo parece melhor quando olhado por cima dos ombros, se há essa dor deliciosamente forte nos conduzindo a um passado tão mais bonito, tão mais leve.
E - falo é sem saber, nunca soube mesmo de nada - eu arrisco que não haja no tempo um lugar confortável prá se ser gente, se não há o que valha fora a lembrança...
.
.
.
.
Eu sentirei muita saudade de tudo.
E - falo é sem saber, nunca soube mesmo de nada - eu arrisco que não haja no tempo um lugar confortável prá se ser gente, se não há o que valha fora a lembrança...
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Eu sentirei muita saudade de tudo.
quinta-feira, outubro 30, 2008
arquivos.
... e agora eu só sei falar de dor nos rins, estágio mal sucedido, deixa-prá-lá, raiva contida, potência desperdiçada...
domingo, setembro 21, 2008
sobre a cocada mole e o into the wild - um post de gordinha.
Querido diário,
Hoje eu descobri a cocada mole. E talvez eu realmente necessite falar sobre isso, porque durante toda a minha vida eu subestimei a cocada, já que vivemos em um país no qual o amendoim (ave!) tem aceitação justa na culinária nacional. Contudo, hoje, num surto desenfreado de boicote ao regime, eu me deparei com um pote fechadinho de doce de coco pastoso misturado com doce de maracujá. Cinco minutos e três cortes na mão após a intenção, eu abri a tampa e meti a colher lá dentro.
A minha realidade, inapreensível e torta tal qual eu a conheço, subiu nas pontas dos pés e ficou lá por uns cinco segundos durante os quais eu pensei derreter. Então eu decidi que seria gorda prá sempre mesmo, pois não há problemas tão grandes em reberlar-se contra a ditadura da beleza quando se tem um pote de cocada mole em uma das mãos uma colher na outra. [minutos mais tarde eu passei em frente a um espelho e repensei severamente esta minha decisão.]
E justo hoje, quando eu estava quase decidida a juntar minhas coisinhas numa mochila confortável e ir brincar de "Into the Wild*" ali pelas bandas da USIPA, justo hoje eu me deparo com uma epifaninha dessa importância. Não seria a moral, o dinheiro, o conforto ou a Ana Maria Braga me acordando em manhãs de folga culposa; só a cocada mole me faria ficar. (foi mal, mãe. =/)
Então, querido diário,
Hoje eu descobri a cocada mole. Hoje foi um dia bom.
_____________________________________________________________
*o filme mais criticável que eu nunca vou conseguir criticar. quem já quis ler On The Road, quem já arrumou trouxinha de fronha e falou que ia fugir de casa, quem já coçou a cabeça pensando rapidamente que 'porra, tá tudo errado!', vai gostar. (ou não, e se não gostar enfia no cu que hoje eu to bem quarta série.)
Hoje eu descobri a cocada mole. E talvez eu realmente necessite falar sobre isso, porque durante toda a minha vida eu subestimei a cocada, já que vivemos em um país no qual o amendoim (ave!) tem aceitação justa na culinária nacional. Contudo, hoje, num surto desenfreado de boicote ao regime, eu me deparei com um pote fechadinho de doce de coco pastoso misturado com doce de maracujá. Cinco minutos e três cortes na mão após a intenção, eu abri a tampa e meti a colher lá dentro.
A minha realidade, inapreensível e torta tal qual eu a conheço, subiu nas pontas dos pés e ficou lá por uns cinco segundos durante os quais eu pensei derreter. Então eu decidi que seria gorda prá sempre mesmo, pois não há problemas tão grandes em reberlar-se contra a ditadura da beleza quando se tem um pote de cocada mole em uma das mãos uma colher na outra. [minutos mais tarde eu passei em frente a um espelho e repensei severamente esta minha decisão.]
E justo hoje, quando eu estava quase decidida a juntar minhas coisinhas numa mochila confortável e ir brincar de "Into the Wild*" ali pelas bandas da USIPA, justo hoje eu me deparo com uma epifaninha dessa importância. Não seria a moral, o dinheiro, o conforto ou a Ana Maria Braga me acordando em manhãs de folga culposa; só a cocada mole me faria ficar. (foi mal, mãe. =/)
Então, querido diário,
Hoje eu descobri a cocada mole. Hoje foi um dia bom.
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*o filme mais criticável que eu nunca vou conseguir criticar. quem já quis ler On The Road, quem já arrumou trouxinha de fronha e falou que ia fugir de casa, quem já coçou a cabeça pensando rapidamente que 'porra, tá tudo errado!', vai gostar. (ou não, e se não gostar enfia no cu que hoje eu to bem quarta série.)
quinta-feira, setembro 04, 2008
do que fica.
Eu ainda mato aula de manhã prá ficar em casa assistindo videoclipe ruim. Ainda tenho vontade de ouvir 'without you I'm nothing' ao primeiro sinal de que alguma coisa vai dar errado. Me pego pensando em vontades absurdas de voltar a ter 2 anos de idade quando vejo uma criança sentada no carrinho de supermercado.
Eu ainda não sei a resposta prá pergunta mais chata a se fazer em festas familiares [o que você vai ser quando crescer?], ainda tento escrever, tento tocar alguma coisa, ainda acho que rockstar é a melhor profissão do mundo, e que não há idade que amadureça meus ouvidos o suficiente prá me fazer gostar de Pink Floyd ou de qualquer outra "viaja nesse solo, véi" band.
Eu ainda passo esmalte vermelho nas unhas porque acho que tá em tempo, uso listra horizontal mesmo sabendo que engorda, acho que dessa vez eu acerto no corte de cabelo,eu ainda misturo vinho com vodca e acordo com ressaca.
Eu ainda acho que emprego é coisa de gente grande, não sei como eu vim parar aqui, ainda acho que não tenho nada interessante prá contar - mas continuo contando, ainda mantenho o mesmo blog e o mesmo número de telefone.
Na verdade, lá no fundo, eu ainda tenho vergonha de comprar quebra-queixo, e ainda tenho medo de descobrir quais são as coisas, dentre essas tudas, que continuarão me perseguindo por mais uns dez anos.
Eu ainda não sei a resposta prá pergunta mais chata a se fazer em festas familiares [o que você vai ser quando crescer?], ainda tento escrever, tento tocar alguma coisa, ainda acho que rockstar é a melhor profissão do mundo, e que não há idade que amadureça meus ouvidos o suficiente prá me fazer gostar de Pink Floyd ou de qualquer outra "viaja nesse solo, véi" band.
Eu ainda passo esmalte vermelho nas unhas porque acho que tá em tempo, uso listra horizontal mesmo sabendo que engorda, acho que dessa vez eu acerto no corte de cabelo,eu ainda misturo vinho com vodca e acordo com ressaca.
Eu ainda acho que emprego é coisa de gente grande, não sei como eu vim parar aqui, ainda acho que não tenho nada interessante prá contar - mas continuo contando, ainda mantenho o mesmo blog e o mesmo número de telefone.
Na verdade, lá no fundo, eu ainda tenho vergonha de comprar quebra-queixo, e ainda tenho medo de descobrir quais são as coisas, dentre essas tudas, que continuarão me perseguindo por mais uns dez anos.
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