Agora eu já quase não saio de casa. Fico andando pelos poucos metros quadrados, pisando o chão simples de cerâmica fria com umas meias de pé trocado, se houver uma branca ela sempre vai estar encardida, mais ou menos da cor das paredes. O sofá fica cheio de farelos de pão e carocinhos de pipoca, e em cima da mesa eu deixo uns pacotes de papel pardo com a caixa de algum lanche que eu comi há dois dias. Nunca tem garrafas, eu tenho bebido pouco porque não tem adiantado muito, o efeito demora a aparecer, a espera me deixa entediada e, quando eu finalmente fico bêbada, a euforia já foi embora no último táxi. O cinzeiro sempre tem bitucas do cigarro de outras pessoas, eu acho que elas aparecem prá nos sentirmos sozinhas em par, eu não tenho mais gostado de fumar, acho que a fumaça na casa vazia traz um ar dramático e artificial prá coisas que já estão saturadas desse espírito.
De madrugada, quando todas as luzes do bloco em frente ao meu estão apagadas, eu entro em sites que vendem passagens aéreas e fico pesquisando vôos com partida do aeroporto da Pampulha para qualquer cidade que eu sorteie no dia (existe um método: abrir um livro, descobrir o número que identifica a página, somar seus algarismos, caso seja um dos grandes, e, na barrinha de rolagem do destino, achar a cidade cuja ordenação corresponde à do sorteio), e imaginando uma viagem que tome contornos de vida em outro lugar. Ir voando parece ser a melhor escolha pois evita o problema das pegadas no chão, e assim, sem rastros, nada poderia me perseguir ou me acompanhar no meu recomeço. Crio cartografias sonhadas prá mim mesma, adivinho lugares que eu não vou estragar sedimentando esperança entre as paredes, ou fazendo as lembranças de rejunte dos azulejos.
Quando eu saio de casa, de tarde ou de noite, gosto de ficar observando as pessoas sentadas com a cabeça encostada nas janelas dos ônibus, e imaginar qual a rota que elas vão percorrer dali em diante, tentando traçar uma cartografia agora das pessoas que não conheço, prevendo até qual ponto os caminhos dos passageiros coincidem entre si, e com que força eles se dispersam em pontos específicos. Todas as estradas me parecem muito mais interessantes que a minha própria, que eu já conheço muito mais do que eu mesma gostaria. Quando me vejo no reflexo do vidro da janela em movimento, às vezes me pergunto: será que alguém imagina os meus caminhos e, num golpe de azar, chega até a invejá-los?
Outro dia, correndo rápido, copo após copo atrás da euforia, eu percebi que não quero ser aquela pessoa que fica, dentre todas as outras que vão embora. Essas pessoas tem no fundo do olho a história de quem resistiu ao fracasso dos planos iniciais, como quem diz aos que partem: vocês todos traíram o nosso tratado, mas eu fiquei, eu, guardião da dignidade das promessas. Tive medo de viver com esse brilho amargo no olho, quis ser uma entre todas as outras pessoas que quebram o combinado, aquelas que dizem: mas a nossa promessa envelheceu muito, ficou feia e pesada demais prá que nós aguentássemos carregá-la até o fim. Mas parece que, de tanto ir e voltar pelas mesmas vias, o peso do meu corpo esculpiu valas fundas no calçamento das ruas, e eu, sem perceber, fui me afundando dentro desses buracos, confundindo as minhas histórias com as histórias sedimentadas nesses subssolos, eu e os fósseis que existem por debaixo da cidade, agora eu acho que nós somos feitos da mesma matéria, talvez nós sejamos a mesma coisa, e talvez agora a vala já seja funda demais prá eu conseguir escalá-la de volta ao topo.
quinta-feira, julho 09, 2015
segunda-feira, março 16, 2015
Vigília
Vamos conversar na minha noite de insônia, como se a gente ainda se falasse. Tá tudo bem, eu não tô triste, eu só quero saber o que você anda ouvindo, o que você acabou de ouvir? Você vai pesquisar em algum lugar da sua memória uma música que diga algo que caiba entre a sutileza de um recado e de um descaso. Eu gosto dessa banda, mas essa música eu nunca ouvi, vou te dizer. A música provavelmente será qualquer coisa, mas antes mesmo de dar o play vou procurar a letra no google, e inventar prá ela um segredo que mora entre um recado e um descaso.
Você na verdade nunca prestou atenção no que é que eles cantavam, mas gosta da distorção que rola na guitarra antes do refrão, você achou que eu pudesse gostar também, talvez eu dançasse um pouco sozinha no meu quarto, se não estivesse deitada na mesma posição há quatro horas esperando entrar a primeira fresta de luz pela cortina prá que, aos poucos, meu coração recobre seu ritmo, minha cabeça desacelere e eu consiga dormir.
Ontem a gente comprou umas garrafas e foi prá uma festa estranha, no fim da noite eu me deitei no chão e você se deitou também, a gente ficou tonto o suficiente prá esvaziar a cabeça e passar alguns minutos que pareceram horas observando um ponto na parede enquanto uma música parecida com essa flutuava em volta da gente. Acho que semana passada gastamos o dinheiro que não tínhamos numa festa horrível mas no set do dj tinha uma música e o timbre do vocalista soava idêntico à voz da mulher que tá cantando agora, eu tirei meus sapatos e dancei bastante, derrubei a minha gin-tônica na sua blusa, você sorriu de olhos fechados, as luzes verdes cortavam sua camisa branca na vertical ou na horizontal. Depois a gente desceu as escadas e topou com a brisa de quando o dia tá amanhecendo e o céu ainda tá branco, quase se confundindo com o cinza do alto dos prédios, o último segundo da fresca da madrugada. A gente andou até uma praça e deitou num quadrado de grama, eu pus a cabeça no seu ombro e pensei que tudo bem dormir ali, se só por alguns segundos.
Acordei alguns anos depois.
Se eu dormir, amanhã vou acordar cantarolando o refrão da música que ouvi na insônia passada. Parece que foi ontem, eu sinto as costas molhadas e coçando da mistura de orvalho e grama, eu acho que foi ontem, a minha cabeça dói um pouco, eu não sei se é culpa do gin-tônica dos anos passados ou se é só a luz forte do computador dentro dum quarto escuro, meus pés também estão cansados, houve dias em que eu dancei, mas eu não sei mais se em sonho ou em bebedeira, é que a insônia você sabe como é, é como se você estivesse sempre consciente de que está dormindo, quando na verdade está acordado, não existe um limite visível entre o sonho e a vigília, porque talvez seja apenas a eterna vigília que aos poucos dá seus sinais de delírio, é que com ela é assim, com a privação do sono.
Dormi e sonhei que dormia.
Você na verdade nunca prestou atenção no que é que eles cantavam, mas gosta da distorção que rola na guitarra antes do refrão, você achou que eu pudesse gostar também, talvez eu dançasse um pouco sozinha no meu quarto, se não estivesse deitada na mesma posição há quatro horas esperando entrar a primeira fresta de luz pela cortina prá que, aos poucos, meu coração recobre seu ritmo, minha cabeça desacelere e eu consiga dormir.
Ontem a gente comprou umas garrafas e foi prá uma festa estranha, no fim da noite eu me deitei no chão e você se deitou também, a gente ficou tonto o suficiente prá esvaziar a cabeça e passar alguns minutos que pareceram horas observando um ponto na parede enquanto uma música parecida com essa flutuava em volta da gente. Acho que semana passada gastamos o dinheiro que não tínhamos numa festa horrível mas no set do dj tinha uma música e o timbre do vocalista soava idêntico à voz da mulher que tá cantando agora, eu tirei meus sapatos e dancei bastante, derrubei a minha gin-tônica na sua blusa, você sorriu de olhos fechados, as luzes verdes cortavam sua camisa branca na vertical ou na horizontal. Depois a gente desceu as escadas e topou com a brisa de quando o dia tá amanhecendo e o céu ainda tá branco, quase se confundindo com o cinza do alto dos prédios, o último segundo da fresca da madrugada. A gente andou até uma praça e deitou num quadrado de grama, eu pus a cabeça no seu ombro e pensei que tudo bem dormir ali, se só por alguns segundos.
Acordei alguns anos depois.
Se eu dormir, amanhã vou acordar cantarolando o refrão da música que ouvi na insônia passada. Parece que foi ontem, eu sinto as costas molhadas e coçando da mistura de orvalho e grama, eu acho que foi ontem, a minha cabeça dói um pouco, eu não sei se é culpa do gin-tônica dos anos passados ou se é só a luz forte do computador dentro dum quarto escuro, meus pés também estão cansados, houve dias em que eu dancei, mas eu não sei mais se em sonho ou em bebedeira, é que a insônia você sabe como é, é como se você estivesse sempre consciente de que está dormindo, quando na verdade está acordado, não existe um limite visível entre o sonho e a vigília, porque talvez seja apenas a eterna vigília que aos poucos dá seus sinais de delírio, é que com ela é assim, com a privação do sono.
Dormi e sonhei que dormia.
quarta-feira, janeiro 28, 2015
quiromancia dos bêbados
Ontem, na quiromancia dos bêbados, me disseram que vou ser rica, viver muito e ter dois filhos. Mas na mão dos outros dava prá ler isso tudo e umas coisas sobre relacionamentos, casamentos, namoros, e eu achei estranho a minha predição não ir até essa parte.
É que na sua palma, Lara, as linhas tão todas bonitas, claras e bem explicadinhas, mas tem uma coisa estranha: você não tem a linha do amor na mão.
Não que o leitor de mãos fosse um respeitável místico das previsões, e nem que eu não seja cética, não que a gente acredite em destino, ou no poder não científico que os riscos da nossa mão teriam de ditar o que seríamos, não que a gente acredite que esses talhos possam ter poder superior às nossas relações sociais e ao conjunto de causas e consequências que fazem as coisas darem certo ou errado, não que a gente se fie na sorte do acaso, mas também não é como se a gente só acreditasse naquilo que pode provar, não é como se nunca tivéssemos desconfiados das coincidências, não é como se passássemos de peito aberto debaixo das escadas da rua e viajássemos tranquilos quando só sobra a poltrona 13, não é como se nunca tivéssemos atribuído àqueles acontecimentos importantes uma aura de magia, prá ver se, ao menos às vezes, as coisas extrapolam o despropósito do cotidiano e pareçam, ainda que de longe, a sombra das nossas ficções preferidas, quero dizer, não é como se a gente não se afetasse nunca.
Por coincidência ou não, ontem, depois da quiromancia dos bêbados, nós tomamos 30 garrafas de cerveja, e talvez lá pela décima nona eu tenha pensado: se em alguns anos continuar não dando certo eu vou comprar um canivete e abrir eu mesma a linha do amor mais bonita de todas na palma da minha mão direita que é prá não dar ousadia pro destino.
É que na sua palma, Lara, as linhas tão todas bonitas, claras e bem explicadinhas, mas tem uma coisa estranha: você não tem a linha do amor na mão.
Não que o leitor de mãos fosse um respeitável místico das previsões, e nem que eu não seja cética, não que a gente acredite em destino, ou no poder não científico que os riscos da nossa mão teriam de ditar o que seríamos, não que a gente acredite que esses talhos possam ter poder superior às nossas relações sociais e ao conjunto de causas e consequências que fazem as coisas darem certo ou errado, não que a gente se fie na sorte do acaso, mas também não é como se a gente só acreditasse naquilo que pode provar, não é como se nunca tivéssemos desconfiados das coincidências, não é como se passássemos de peito aberto debaixo das escadas da rua e viajássemos tranquilos quando só sobra a poltrona 13, não é como se nunca tivéssemos atribuído àqueles acontecimentos importantes uma aura de magia, prá ver se, ao menos às vezes, as coisas extrapolam o despropósito do cotidiano e pareçam, ainda que de longe, a sombra das nossas ficções preferidas, quero dizer, não é como se a gente não se afetasse nunca.
Por coincidência ou não, ontem, depois da quiromancia dos bêbados, nós tomamos 30 garrafas de cerveja, e talvez lá pela décima nona eu tenha pensado: se em alguns anos continuar não dando certo eu vou comprar um canivete e abrir eu mesma a linha do amor mais bonita de todas na palma da minha mão direita que é prá não dar ousadia pro destino.
segunda-feira, julho 21, 2014
Sujeito de sorte
Ontem, quando entrei no meu quarto prá dormir e tive que afastar com o pé uma mala duas sacolas de roupas aleatórias uma saia amarela de filó três garrafinhas de água pela metade uma pasta de textos alguns livros e sei lá mais o que do caminho de dois passos que leva da porta até a cama, eu suspirei e falei que queria tanto melhorar. Será que um dia a gente vai conseguir, você me perguntou. Eu falei que sim porque ano passado eu morri mas esse ano eu não morro.
Ano passado é sempre o dia anterior, calcado nas promessas de melhora assim que eu desperto e sinto que uma lança atravessou a minha cabeça pela altura do olho - o corpo tremendo um pouco, às vezes, a boca meio seca, os lábios se rasgando um pouco prá rir do absurdo e do excesso, se abrindo como as comportas que de vez em quando se abrem prá gente não ser inundado pela nossa reserva de frustrações.
Ontem eu morri mas hoje eu não morro, é tudo o que penso quando driblo as expectativas e levanto da cama, a parede ainda levemente móvel - sou grande mas não sou duas, gasta um pouco prá metabolizar toda essa confusão - vou até a segunda gaveta do armário da cozinha e quase que no automático tomo dois remédios com água e muita esperança de que esse não será um dia perdido, é o que penso quando entro no chuveiro e encaro a água fria, as ensaboadas meio desesperadas, quando ponho a roupa mais limpa do guarda roupa e tento recompor a integridade física, quando lembro de algum flash que tinha ficado escondido num canto da minha memória e coro de vergonha - mas só de leve -, lembro que até ando com minhas contas em dia, que não faltei a nenhum compromisso profissional, que não feri ninguém, que só quebrei objetos materiais e dei um roxo no meu cotovelo, não é tão grave assim, eu tenho sangrado demais, tenho chorado prá cachorro, tenho saúde e os exames de sangue tão em dia, é só diversão, prá quê se culpar tanto, o ano tem 365 dias prá eu morrer e acordar no dia seguinte com a certeza de que dessa vez eu não morro, até esmorecer e fraquejar no próximo convite, porque sempre é hora de adiar a limpeza do quarto, o enfrentamento dos próprios problemas, a habilidade de andar com as próprias pernas com a cara limpa.
Mas ainda restam as manhãs em que eu só acordo ao invés de ressuscitar, e vejo nas manchas da parede do meu quarto um futuro alguma coisa próspero, no qual se desenha meu ano de sobrevivência: a rédea da vida nas mãos, o relógio despertando às 7 e 30, um café da manhã equilibrado e saudável, a pontualidade nos compromissos, as olheiras suavizadas, a cabeça boa, as roupas passadas, limpas, brancas e alvejadas, eu como aquele sujeito de sorte da música, são e salvo e forte - a minha maior alucinação sóbria.
Ano passado é sempre o dia anterior, calcado nas promessas de melhora assim que eu desperto e sinto que uma lança atravessou a minha cabeça pela altura do olho - o corpo tremendo um pouco, às vezes, a boca meio seca, os lábios se rasgando um pouco prá rir do absurdo e do excesso, se abrindo como as comportas que de vez em quando se abrem prá gente não ser inundado pela nossa reserva de frustrações.
Ontem eu morri mas hoje eu não morro, é tudo o que penso quando driblo as expectativas e levanto da cama, a parede ainda levemente móvel - sou grande mas não sou duas, gasta um pouco prá metabolizar toda essa confusão - vou até a segunda gaveta do armário da cozinha e quase que no automático tomo dois remédios com água e muita esperança de que esse não será um dia perdido, é o que penso quando entro no chuveiro e encaro a água fria, as ensaboadas meio desesperadas, quando ponho a roupa mais limpa do guarda roupa e tento recompor a integridade física, quando lembro de algum flash que tinha ficado escondido num canto da minha memória e coro de vergonha - mas só de leve -, lembro que até ando com minhas contas em dia, que não faltei a nenhum compromisso profissional, que não feri ninguém, que só quebrei objetos materiais e dei um roxo no meu cotovelo, não é tão grave assim, eu tenho sangrado demais, tenho chorado prá cachorro, tenho saúde e os exames de sangue tão em dia, é só diversão, prá quê se culpar tanto, o ano tem 365 dias prá eu morrer e acordar no dia seguinte com a certeza de que dessa vez eu não morro, até esmorecer e fraquejar no próximo convite, porque sempre é hora de adiar a limpeza do quarto, o enfrentamento dos próprios problemas, a habilidade de andar com as próprias pernas com a cara limpa.
Mas ainda restam as manhãs em que eu só acordo ao invés de ressuscitar, e vejo nas manchas da parede do meu quarto um futuro alguma coisa próspero, no qual se desenha meu ano de sobrevivência: a rédea da vida nas mãos, o relógio despertando às 7 e 30, um café da manhã equilibrado e saudável, a pontualidade nos compromissos, as olheiras suavizadas, a cabeça boa, as roupas passadas, limpas, brancas e alvejadas, eu como aquele sujeito de sorte da música, são e salvo e forte - a minha maior alucinação sóbria.
domingo, maio 11, 2014
Todo fudido tem direito a um clichê.
Em uma sequência pequena o suficiente prá não configurar tradição, mas grande o suficiente prá ser mais que coincidência, eu tenho danado meu coração nos anos pares. Talvez porque nos anos ímpares reste um, e aí eu tenha alguém prá me escolher por último na queimada e falar: foda-se a queimada, você é legal, vamos sair daqui e ir brincar de, sei lá, tapão.
Em outra sequência, essa já mais explícita, parece que todo término de namoro da nossa geração gira em torno de uma cena, dois personagens de um filme e uma música metade pop, metade triste prá caralho: a cena em que Joel e Clementine vão jantar num restaurante e já não tem mais assunto, mas por pura coação social trocam duas frases: 'How is the chicken?' 'It's good.' (ou algo aproximado); Summer e Tom, de 500 days of Summer; I Know it's Over, dos Smiths. Parece que em todo facebook, em todo quarto vazio, em todos os fazer uma mala com os restos da pessoa porque um dia ela vai aparecer prá buscar, em toda fossa de relacionamento dos jovens adultos, lá estão esses mesmos clichês. Porque eles são universais o suficiente prá abarcar o geral dos relacionamentos que viemos tendo, e dos problemas que viemos enfrentando nesse processo falido de tentar acertar na vida.
Fora dessas sequências, e usando o clichê prá desmontá-lo, acho que o que vai ser mais difícil daqui prá frente vai ser lidar com o efeito Brilho-Eterno reverso que a gente nunca percebeu que rolou com a gente. Lembra quando a gente ficava escalando todos os eventos belorizontinos em que a gente havia estado junto antes de se conhecer? Talvez a gente tenha apenas se apagado um do outro há muito tempo atrás, quando percebemos que o nosso negócio não daria certo, e por isso ficamos tanto tempo nos esbarrando sem saber em cada show e mostra de filme gratuita dessa cidade. Um dia a gente se esbarrou de verdade, falou aquele -ok- do fim do filme um pro outro, tocou everybody gotta learn sometimes em alguma caixa de som de algum lugar do mundo, e lá tava a gente de novo, se enganando.
O problema é que agora nós já mapeamos a cidade (de novo) juntos, e quando nós nos encontrarmos naquelas mesmas filas de shows e mesas de bares (talvez por um tempo não haja mais dispô prá fingir interesse em mostras de filmes independentes suecos) não teremos mais o privilégio de sermos os desconhecidos de antigamente.
Em outra sequência, essa já mais explícita, parece que todo término de namoro da nossa geração gira em torno de uma cena, dois personagens de um filme e uma música metade pop, metade triste prá caralho: a cena em que Joel e Clementine vão jantar num restaurante e já não tem mais assunto, mas por pura coação social trocam duas frases: 'How is the chicken?' 'It's good.' (ou algo aproximado); Summer e Tom, de 500 days of Summer; I Know it's Over, dos Smiths. Parece que em todo facebook, em todo quarto vazio, em todos os fazer uma mala com os restos da pessoa porque um dia ela vai aparecer prá buscar, em toda fossa de relacionamento dos jovens adultos, lá estão esses mesmos clichês. Porque eles são universais o suficiente prá abarcar o geral dos relacionamentos que viemos tendo, e dos problemas que viemos enfrentando nesse processo falido de tentar acertar na vida.
Fora dessas sequências, e usando o clichê prá desmontá-lo, acho que o que vai ser mais difícil daqui prá frente vai ser lidar com o efeito Brilho-Eterno reverso que a gente nunca percebeu que rolou com a gente. Lembra quando a gente ficava escalando todos os eventos belorizontinos em que a gente havia estado junto antes de se conhecer? Talvez a gente tenha apenas se apagado um do outro há muito tempo atrás, quando percebemos que o nosso negócio não daria certo, e por isso ficamos tanto tempo nos esbarrando sem saber em cada show e mostra de filme gratuita dessa cidade. Um dia a gente se esbarrou de verdade, falou aquele -ok- do fim do filme um pro outro, tocou everybody gotta learn sometimes em alguma caixa de som de algum lugar do mundo, e lá tava a gente de novo, se enganando.
O problema é que agora nós já mapeamos a cidade (de novo) juntos, e quando nós nos encontrarmos naquelas mesmas filas de shows e mesas de bares (talvez por um tempo não haja mais dispô prá fingir interesse em mostras de filmes independentes suecos) não teremos mais o privilégio de sermos os desconhecidos de antigamente.
terça-feira, novembro 19, 2013
Fazendo as pazes
Há 9 anos atrás eu conheceria minha melhor amiga não humana, não mãe, não felina. Tem gente que precisa ir prá longe prá se deslumbrar, prá ver como é bom ser atingido pelos tapas de luva do mundo e aprender a responder, mas eu andei só alguns quilômetros na pior estrada do Brasil, e topei com você. Foi o que bastou prá eu nunca mais querer voltar.
Você não é especialmente linda, nem de dia nem de noite, não tem nenhum ângulo incrível que eu morra prá mostrar pros meus amigos a quem te apresento, mas talvez o seu charme apareça mesmo em te conhecer, pegar na sua mão, entrar em lugares estranhos, subir escadas ou rampas, pedir uma cerveja e espreitar do alto de uma sacada seus pedacinhos de beleza - você finge modéstia mas tem muitos deles.
Eu sei que brigamos por um tempo, você me bateu de um jeito escroto e me deu um olho roxo que até ontem tava amarelado. Mas eu te perdôo, mesmo sabendo que você é o tipo de amiga que não aceita desculpas, porque eu sou sempre a boba da história, e me peguei num aperto agora pensando que, na verdade, eu não quero nem nunca quis sair fora de você. Meu humor geminiano combina com as suas contradições climáticas, meu coração besta é tão vasto quanto você, a gente abriga em nós as melhores pessoas desse mundo.
Olhei no espelho agora, e meu roxo no olho sarou, beagá. Dá aqui um abraço, nós somos melhores amigas de novo.
Você não é especialmente linda, nem de dia nem de noite, não tem nenhum ângulo incrível que eu morra prá mostrar pros meus amigos a quem te apresento, mas talvez o seu charme apareça mesmo em te conhecer, pegar na sua mão, entrar em lugares estranhos, subir escadas ou rampas, pedir uma cerveja e espreitar do alto de uma sacada seus pedacinhos de beleza - você finge modéstia mas tem muitos deles.
Eu sei que brigamos por um tempo, você me bateu de um jeito escroto e me deu um olho roxo que até ontem tava amarelado. Mas eu te perdôo, mesmo sabendo que você é o tipo de amiga que não aceita desculpas, porque eu sou sempre a boba da história, e me peguei num aperto agora pensando que, na verdade, eu não quero nem nunca quis sair fora de você. Meu humor geminiano combina com as suas contradições climáticas, meu coração besta é tão vasto quanto você, a gente abriga em nós as melhores pessoas desse mundo.
Olhei no espelho agora, e meu roxo no olho sarou, beagá. Dá aqui um abraço, nós somos melhores amigas de novo.
sábado, outubro 19, 2013
Condomínio Estrada Real
Das muitas mazelas de se morar em apartamentos, talvez o pior seja o medo de compartilhar com o vizinho nossos momentos de descuido. Sempre tem a cortina prá se fechar, mas ela é teimosa e, quando o vento bate naquela persiana desgarrada que se prende num pedaço da cômoda, faz a moldura prá gente ver o lado de fora.
Ninguém fala nada, quase nunca. Ninguém canta músicas desafinadas, treina o violão, discute ao telefone. Esse prédio se quer mudo a cada vez que o interfone toca e o porteiro diz que as pessoas precisam dormir. (Eu também preciso, penso, mas o silêncio de vocês me deixa medrosa.)
Em alguma janela um vizinho se descuida e deixa escapar o som de um garfo batendo na borda do prato, talvez um dos sons mais angustiantes do mundo: o som de quem come sozinho, enquanto vê algum programa na televisão (o volume baixíssimo, os apresentadores quase ventríloquos). Ele engole as garfadas de lasanha congelada, a porção para dois separada em uma parte para ele e outra para a frustração - bons solitários comem todos os gramas e choram depois.
De algum outro lugar vêm os gemidos que uma vizinha não conseguiu conter.
O outro vizinho agora lava os pratos sujos de molho branco artificial e farinhento com muita raiva, porque não é obrigado a participar da vida particular de ninguém, porque as pessoas deviam respeitar umas às outras e saber conviver em sociedade, e também não devem ter muito o que fazer na vida prá estarem fazendo esse tipo de coisa a essa hora da tarde, ou será que ninguém mais trabalha, porque também ele nem consegue se lembrar qual foi a última vez que ouviu um desses ao pé do ouvido, talvez tenha sido naquela época em que ele ainda era vegetariano e cozinhava comida de verdade prá dois, e ligava também um som alto prá que ninguém escutasse a alegria que escapava quando eles jantavam juntos e conversavam sobre qualquer assunto aleatório porque qualquer coisa no mundo é assunto prá duas pessoas que se gostam, mas nem nessa época, nem nessa época quando o interfone tocava todos os dias e o porteiro reclamava com sua gagueira e voz chiada que as pessoas precisam dormir e já é a terceira vez só nessa semana, na quarta será advertência, nem nessa época ele se lembrava de ficar exibindo de propósito aos outros a sua felicidade, porque uma coisa que a gente tem que aprender na vida é respeitar o luto dos solitários, que a gente nunca sabe onde vai parar, numa tarde meio quente, almoçando na frente da tv, ouvindo triste o tilintar dos garfos que sobraram daquele faqueiro batendo nos pratos que faziam parte do jogo que foi presente de casamento.
Ninguém fala nada, quase nunca. Ninguém canta músicas desafinadas, treina o violão, discute ao telefone. Esse prédio se quer mudo a cada vez que o interfone toca e o porteiro diz que as pessoas precisam dormir. (Eu também preciso, penso, mas o silêncio de vocês me deixa medrosa.)
Em alguma janela um vizinho se descuida e deixa escapar o som de um garfo batendo na borda do prato, talvez um dos sons mais angustiantes do mundo: o som de quem come sozinho, enquanto vê algum programa na televisão (o volume baixíssimo, os apresentadores quase ventríloquos). Ele engole as garfadas de lasanha congelada, a porção para dois separada em uma parte para ele e outra para a frustração - bons solitários comem todos os gramas e choram depois.
De algum outro lugar vêm os gemidos que uma vizinha não conseguiu conter.
O outro vizinho agora lava os pratos sujos de molho branco artificial e farinhento com muita raiva, porque não é obrigado a participar da vida particular de ninguém, porque as pessoas deviam respeitar umas às outras e saber conviver em sociedade, e também não devem ter muito o que fazer na vida prá estarem fazendo esse tipo de coisa a essa hora da tarde, ou será que ninguém mais trabalha, porque também ele nem consegue se lembrar qual foi a última vez que ouviu um desses ao pé do ouvido, talvez tenha sido naquela época em que ele ainda era vegetariano e cozinhava comida de verdade prá dois, e ligava também um som alto prá que ninguém escutasse a alegria que escapava quando eles jantavam juntos e conversavam sobre qualquer assunto aleatório porque qualquer coisa no mundo é assunto prá duas pessoas que se gostam, mas nem nessa época, nem nessa época quando o interfone tocava todos os dias e o porteiro reclamava com sua gagueira e voz chiada que as pessoas precisam dormir e já é a terceira vez só nessa semana, na quarta será advertência, nem nessa época ele se lembrava de ficar exibindo de propósito aos outros a sua felicidade, porque uma coisa que a gente tem que aprender na vida é respeitar o luto dos solitários, que a gente nunca sabe onde vai parar, numa tarde meio quente, almoçando na frente da tv, ouvindo triste o tilintar dos garfos que sobraram daquele faqueiro batendo nos pratos que faziam parte do jogo que foi presente de casamento.
quinta-feira, junho 06, 2013
um relógio humano.
Todos os dias em que vou pro trabalho eu encontro um cara no meu caminho.
Ele é magro e comprido, muito bem vestido prás 8 da manhã, e tá sempre carregando um livro de Game of Thrones na mão. Todos os dias a gente se olha com o mesmo olhar de reconhecimento - de quem revê uma constância, apenas, e não um amigo ou um interesse.
Quando o vejo no fim rua sei que estou a tempo. Se nos cruzamos em cima do viaduto sei que vou me atrasar (porque as pessoas normais tem coincidências que eu deveria almejar).
Esse cara é meu relógio humano. Penso que se um dia conversarmos nos sujeitaremos às punições reservadas àqueles que tentam modificar ou adivinhar o próprio destino. Gosto de achar que ele também sabe disso.
Apesar do temor imenso, me agrada essa chance de bulir com o meu tempo.
Talvez um dia eu dê bom dia, prá dar um peteleco no curso das coisas, prá ver se vira a minha sorte.
Ele é magro e comprido, muito bem vestido prás 8 da manhã, e tá sempre carregando um livro de Game of Thrones na mão. Todos os dias a gente se olha com o mesmo olhar de reconhecimento - de quem revê uma constância, apenas, e não um amigo ou um interesse.
Quando o vejo no fim rua sei que estou a tempo. Se nos cruzamos em cima do viaduto sei que vou me atrasar (porque as pessoas normais tem coincidências que eu deveria almejar).
Esse cara é meu relógio humano. Penso que se um dia conversarmos nos sujeitaremos às punições reservadas àqueles que tentam modificar ou adivinhar o próprio destino. Gosto de achar que ele também sabe disso.
Apesar do temor imenso, me agrada essa chance de bulir com o meu tempo.
Talvez um dia eu dê bom dia, prá dar um peteleco no curso das coisas, prá ver se vira a minha sorte.
quinta-feira, abril 11, 2013
Internet, I love you but you're bringing me down.
Em algum canto obscuro da internet nós fomos codificados em sequências binárias e agora isso é tudo o que nós fomos. Num passado resumido a uma setinha que varre a caixa de e-mails em retrocesso a totalidade se partiu em 0 e 1, em sim e não, em presença e ausência, em somos e não somos.
O tempo que nos definia passou agora a ser um arquivo no qual vez ou outra um subject mais ameno bóia em meio à enxurrada de promoções de sushi, depilações a laser e backups de artigos acadêmicos, e é só isso.
Penso que a nossa modernidade ainda é muito desajustada; por sua síndrome de Funes ela quer guardar tudo, mas não sabe reter com o respeito devido os nossos amores passados, as nossas velhas histórias. Em sua arrogância, ela não permite que pintemos o passado com as mágoas e as glórias que nos convém; o que retorna prá nós a cada vez que afundamos no hábito doente de nos vasculharmos são arrobas desajustadas e textos escancarados (ali até os erros de digitação, até a pressa no tom).
Na promessa infalível e certeira dos códigos binários ou se é ou não se é. E a isso eu prefiro a minha memória casmurra, que inquere, manipula, tapeia, finge, e se frustra, no fim, ciente de sua empreitada falha: não vamos nunca recompor o que foi nem o que fui.
O tempo que nos definia passou agora a ser um arquivo no qual vez ou outra um subject mais ameno bóia em meio à enxurrada de promoções de sushi, depilações a laser e backups de artigos acadêmicos, e é só isso.
Penso que a nossa modernidade ainda é muito desajustada; por sua síndrome de Funes ela quer guardar tudo, mas não sabe reter com o respeito devido os nossos amores passados, as nossas velhas histórias. Em sua arrogância, ela não permite que pintemos o passado com as mágoas e as glórias que nos convém; o que retorna prá nós a cada vez que afundamos no hábito doente de nos vasculharmos são arrobas desajustadas e textos escancarados (ali até os erros de digitação, até a pressa no tom).
Na promessa infalível e certeira dos códigos binários ou se é ou não se é. E a isso eu prefiro a minha memória casmurra, que inquere, manipula, tapeia, finge, e se frustra, no fim, ciente de sua empreitada falha: não vamos nunca recompor o que foi nem o que fui.
terça-feira, fevereiro 19, 2013
me mate que eu sou muito vivo.
Tenho defendido a tese de que você pode ser o que quiser nessa vida, desde que seja vivo. Se for rir, ria com todos os seus dentes cariados, tortos e cheios tártaro. Não ponha a mão na frente da boca quando gargalhar, fale de boca cheia de vez em quando porque timing é uma coisa importante na vida, levante a voz, sim, deixe o sangue subir a cabeça, fale atravessado, sente na calçada suja, depois é só bater na bunda na hora que levantar que a poeira sai. De vez em quando fique bêbado, dance achando que é a pessoa mais desenvolta do mundo e depois morra de desgosto vendo como você saiu feio nas fotos. Abrace apertado mesmo que esteja meio suado, as pessoas merecem saber que você gosta delas estando limpo ou sujo. Pegue o garfo que caiu no chão e coma com ele de volta, compartilhe sua colherzinha de sorvete com o mendigo, você é uma porra de um ser humano e não vai morrer por conta de meia dúzia de bactérias, e se passar mal é porque cê já tá meio morto e nem anticorpos tem direito, vai te fazer bem dar umas idas ao banheiro, vai te tornar resistente. Fale o que você pensa mesmo que sua opinião seja ridícula, mesmo que você não tenha certeza, mas não sente na mesa de bar com um meio sorriso na cara que assim até o saleiro tá sendo mais importante que você. Faça valer a dor das entranhas da sua mãe nem que seja de vez em quando, saia da sombra e ponha o dedo na cara dos outros, depois você pode pedir desculpas porque uma parte de você tá sempre errada, mesmo. Gaste os bicos dos sapatos em topadas na calçada, xingue quando bater o dedinho na quina do fogão, mande à merda os carros que jogam água na sua calça nova em dia de chuva, tropece, caia no chão às vezes, dê risada do seu ridículo e chore amargamente suas pequenas derrotas diárias. Faça um brinde a qualquer coisa no bar, não tenha medo de parecer estúpido - porque uma grande parte de você é e sempre será estúpida - defenda seus pensamentos como se fosse uma gata recém-parida, mude de lado quando estiver errado, faça valer a dor das entranhas da sua mãe, de novo, faça valer anos e anos de evolução que culminam na sua forma atual, faça valer a chance de estar vivo e entender o que é isso, pelo amor de deus, seja um pau no cu, seja um imbecil, seja qualquer coisa, mas não seja uma planta nessa vida.
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