Foi quando eu corri os olhos pelo mundo cá fora, na tentativa, mais tola que vã, de capturar algo que me saciasse pelo lado de dentro.
Havia uma mulher daquelas que andam como se clamassem por serem descritas [e eu não soube transformá-la nas palavras corretas - desculpe a incompetência, moça]. Havia ônibus rugindo e cuspindo pessoas que, tão preocupadas com o gerúndio cotidiano, pareciam sequer existir de verdade. Pensei talvez fazerem elas as vezes de figurantes de meu mundo, mas a falta modéstia que eu nutro de mim para comigo mesma mandou-me desvanecer logo esta idéia, que, onde é que já se viu tanto umbiguismo logo cedo, de manhã.
Resolvi então que era hora d´outro parágrafo, que do lado de fora eu não ia me virar bem não - e é sempre assim, há em mim um centro de gravidade interno, que me puxa e me traga sempre prá dentro de mim mesma, fazendo esvair-se em pensamentos meus o mundo aí fora. Pude eu discordar de mim mesma quinhentas vezes, resolver que talvez fosse hora de tomar rumo novo, ou de colocar gosto nas coisas que eu me dou a fazer. Mandei-me à merda continuamente, também, que não haveria porque me perter em tantas divagações e deixar que as coisas que existem - você, eles, fome, acordar e ver gente, sabe? - escorram de minhas mãos para que eu me reecontre comigo e com mim mesma outra vez; era redundância sem sentido.
Eu tinha casado de ser eu, então, devia ser. Contudo não queria desejar - tampouco queria querer - ser outra pessoa. Ranquei, portanto, o Cortázar da bolsa, mas o último conto já tinha me baqueado o suficiente prás horas seguintes. Tentei me concentrar no que diziam as pessoas; olhei prá baixo em fuga irônica quando pressenti meu reflexo a se desenhar torto no vidro dos carros. [Àquela hora eu me agarria a qualquer fio-de-ariadne fajuto que me levasse prá fora daquele labirinto interno.]
Quando despertei - súbita -, de meu comazinho particular, já era um texto findado, já estava eu descarnada em palavras; trocentos ônibus e olhares eu havia perdido; já tinha eu pingado o ponto final.
[Vezenquando a gente cansa de inventar. E isso aqui já foi tão mais 'diário', que eu não vejo problema em, vez ou outra, usar a primeira pessoa.]
terça-feira, maio 09, 2006
domingo, abril 30, 2006
Domingumbigo. [ou considerações bestinhas sobre eu eu eu e eu num feriado.]
Pensando hoje que, se houvesse mesmo um lugar no qual as coisas fossem todas elas e elas todas de acordo, aquelas esfihas de cheddar com peperoni do Habib´s teriam o mesmo valor calórico que uma folha de alface. E eu nunca ia pedir aquela última que eu como mais por dó de deixar sobrar que por fome; aquela que me faz ficar em estado de quase-morbidez por horas após a refeição.
E a programação da tv no domingo não incluíria O Pequeno Stuart Little a ser reprisado pela quinquagésima vez - lixo cultural seriam os programas da Rede Minas, se é necessário um parâmetro.
O ócio não traria a inquietação de ter de se fazer alguma coisa quando há folga, e a vida toda seria calma e confusa como o acordar no campo da Lux em As Virgens Suicidas. No sábado precedendo chuva, o rapaz do salão não me trataria por vocativos irônicos como "florzinha", "neném" ou "lindinha", e o esmalte vermelho recém passado não descascaria momentos após o pincel tocar as unhas.
Eu diria prá você as letras das músicas que ouço durante o dia inteiro sem vergonha de te mirar os olhos, e também não teria que dissimular meu encanto com aquilo que, em você, os outros tomam como casual.
Sobretudo, você saberia exatamente o que é que se passa na minha cabeça e não teria a menor vontade de dizer 'não'.
E a programação da tv no domingo não incluíria O Pequeno Stuart Little a ser reprisado pela quinquagésima vez - lixo cultural seriam os programas da Rede Minas, se é necessário um parâmetro.
O ócio não traria a inquietação de ter de se fazer alguma coisa quando há folga, e a vida toda seria calma e confusa como o acordar no campo da Lux em As Virgens Suicidas. No sábado precedendo chuva, o rapaz do salão não me trataria por vocativos irônicos como "florzinha", "neném" ou "lindinha", e o esmalte vermelho recém passado não descascaria momentos após o pincel tocar as unhas.
Eu diria prá você as letras das músicas que ouço durante o dia inteiro sem vergonha de te mirar os olhos, e também não teria que dissimular meu encanto com aquilo que, em você, os outros tomam como casual.
Sobretudo, você saberia exatamente o que é que se passa na minha cabeça e não teria a menor vontade de dizer 'não'.
domingo, abril 16, 2006
Por encomenda.
De longe era só aquela capa de frio azul que cobria até o joelho saltando duma esquina não menos sórdida que as outras esquinas daquela cidade. Vinha com o rosto enterrado na gola alta do agasalho, e olhava de solsaio para os neons coloridos das placas que faziam a noite urbana parecer uma puta, caricatamente pintada pro seu próximo parceiro qualquer.
Acho que ele teria um gingado bonito no andar, não desconfiasse serem seus passos alvo dos olhares de alguém. Andava então pesadamente, como se quisesse deixar o bico quadrado dos sapatos gravado no cimento das calçadas. A certo momento, contudo, estacou. Tateou os bolsos à procura de algo que lhe parecia imprescidível, e retorceu o rosto ao achar só algumas moedas. Os olhos meio fundos iam semicerrados pelo franzir das sobrancelhas, e a boca fina contraía-se para a esquerda como se quisesse mostrar que, hey, ele realmente estava fodido com aquele monte de frio e aquela falta de dinheiro.
Lançou-se então ao redemunho de carros que cortavam a avenida na tentativa de ganhar a outra esquina - contudo, parece-me que do lado de lá também faria ele só vagar com aquele semblante casmurro [atraente, porém]. Deixou que alguns automóveis desviassem de seu corpo enquanto fitava um horizonte banal, até alcançar a calçada. E de lá, agora dava as costas a mim. Pude ver o puído da barra de suas calças e o gasto dos sapatos pretos que iam e iam e iam e iam.
Eu esperei pelo momento em que ele fosse, de supetão, virar o corpo e me encarar cá em cima, mostrando a mim só o dedo do meio, ou pegando no saco e segurando-o com rispidez, como quando fazem os garotos irritados que querem dizer "chupa!" gestualmente. [É que eu percebia pela artificialidade nervosa dos trejeitos que ele odiava ser despido por minha mira.] Mas que nada. Continuou a se afastar cada vez mais, como quem pune um pintor recusando-se a servir de modelo já pelo meio da obra.
Fechei a cortina, então, cansada da brincadeira e resolvi que talvez tivesse eu algo melhor a fazer. Foi quando, com a elegância ácida de quem vence, ele voltou-se sutilmente prá minha janela e bufou um sorriso de cantinho de boca.
- Tola.
Acho que ele teria um gingado bonito no andar, não desconfiasse serem seus passos alvo dos olhares de alguém. Andava então pesadamente, como se quisesse deixar o bico quadrado dos sapatos gravado no cimento das calçadas. A certo momento, contudo, estacou. Tateou os bolsos à procura de algo que lhe parecia imprescidível, e retorceu o rosto ao achar só algumas moedas. Os olhos meio fundos iam semicerrados pelo franzir das sobrancelhas, e a boca fina contraía-se para a esquerda como se quisesse mostrar que, hey, ele realmente estava fodido com aquele monte de frio e aquela falta de dinheiro.
Lançou-se então ao redemunho de carros que cortavam a avenida na tentativa de ganhar a outra esquina - contudo, parece-me que do lado de lá também faria ele só vagar com aquele semblante casmurro [atraente, porém]. Deixou que alguns automóveis desviassem de seu corpo enquanto fitava um horizonte banal, até alcançar a calçada. E de lá, agora dava as costas a mim. Pude ver o puído da barra de suas calças e o gasto dos sapatos pretos que iam e iam e iam e iam.
Eu esperei pelo momento em que ele fosse, de supetão, virar o corpo e me encarar cá em cima, mostrando a mim só o dedo do meio, ou pegando no saco e segurando-o com rispidez, como quando fazem os garotos irritados que querem dizer "chupa!" gestualmente. [É que eu percebia pela artificialidade nervosa dos trejeitos que ele odiava ser despido por minha mira.] Mas que nada. Continuou a se afastar cada vez mais, como quem pune um pintor recusando-se a servir de modelo já pelo meio da obra.
Fechei a cortina, então, cansada da brincadeira e resolvi que talvez tivesse eu algo melhor a fazer. Foi quando, com a elegância ácida de quem vence, ele voltou-se sutilmente prá minha janela e bufou um sorriso de cantinho de boca.
- Tola.
sábado, abril 08, 2006
Semibreve.
Era noite daquelas em que a janela jazia aberta com o único propósito de trazer frio - ainda que uma brisa; talvez até um sopro.
Os olhos percorriam as letras dum livro, buscando ora esquecer-se da vida, ora tomá-la escancarada na cara. Começara até a simpatizar-se com a personagem que ameaçava brotar do espaço entre as linhas, quando entrou mais que pouco frio pela janela.
A sinfonia urbana de carros e alarmes e choros e freios e berros e ódios, mortes e, - sobretudo - cinzas, pareceu se calar por alguns instantes prá ouvir e fazer ouvir o som do piano que emergia sabe-se lá da onde.
Como se sentisse gelada a alma toda, ela se desfez do livro e, em menos de duas colcheias, já postava-se à janela. [tudo à sua maneira: a perna direita cruzando atrás da esquerda; o queixo apoiado nas mãos; o rosto a lavar-se na noite.]
As notas entravam por seus ouvidos e faziam-se reconhecer (ré-ré-ré-mi-ré-dó...) e aumentavam nela aquela aflição (lá-mi-ré-dó) que sempre era sentida quando dessas coisas triviais que assustam de tão bonitas.
Era Lua Branca, e era Chiquinha Gonzaga.
Olhos agora perdiam a razão de ser, que os outros prédios e a rua e a noite davam lugar àquelas lembranças doces. O piano de armário da professora, a partitura a ser vencida, tantos erros - os dedos se atrapalhavam em demasia - a música finalmente enchendo a sala, o peito se inflando com a harmonia daquilo tudo, a perca do raciocínio, o mundo a resumir-se à Lua Branca que escorria de suas mãos.
O piano continuava a ressoar o seu passado (lá-mi-do-ré...), como se tocado para ela e só. As pálpebras recusavam-se a se desgrudar, clamando por não se desvencilharem da ebriedade daquelas memórias.
Foi que, numa sintonia inconsciente, os ré-lá-ré´s supostamente finais da música emendaram-se noutros ré-ré-ré´s, musicando ad infinitum aquele sonho de garota que faz da alma reduto de lembranças, de melodias, daquelas coisas boas e semibreves que cheiram a naftalina.
Os olhos percorriam as letras dum livro, buscando ora esquecer-se da vida, ora tomá-la escancarada na cara. Começara até a simpatizar-se com a personagem que ameaçava brotar do espaço entre as linhas, quando entrou mais que pouco frio pela janela.
A sinfonia urbana de carros e alarmes e choros e freios e berros e ódios, mortes e, - sobretudo - cinzas, pareceu se calar por alguns instantes prá ouvir e fazer ouvir o som do piano que emergia sabe-se lá da onde.
Como se sentisse gelada a alma toda, ela se desfez do livro e, em menos de duas colcheias, já postava-se à janela. [tudo à sua maneira: a perna direita cruzando atrás da esquerda; o queixo apoiado nas mãos; o rosto a lavar-se na noite.]
As notas entravam por seus ouvidos e faziam-se reconhecer (ré-ré-ré-mi-ré-dó...) e aumentavam nela aquela aflição (lá-mi-ré-dó) que sempre era sentida quando dessas coisas triviais que assustam de tão bonitas.
Era Lua Branca, e era Chiquinha Gonzaga.
Olhos agora perdiam a razão de ser, que os outros prédios e a rua e a noite davam lugar àquelas lembranças doces. O piano de armário da professora, a partitura a ser vencida, tantos erros - os dedos se atrapalhavam em demasia - a música finalmente enchendo a sala, o peito se inflando com a harmonia daquilo tudo, a perca do raciocínio, o mundo a resumir-se à Lua Branca que escorria de suas mãos.
O piano continuava a ressoar o seu passado (lá-mi-do-ré...), como se tocado para ela e só. As pálpebras recusavam-se a se desgrudar, clamando por não se desvencilharem da ebriedade daquelas memórias.
Foi que, numa sintonia inconsciente, os ré-lá-ré´s supostamente finais da música emendaram-se noutros ré-ré-ré´s, musicando ad infinitum aquele sonho de garota que faz da alma reduto de lembranças, de melodias, daquelas coisas boas e semibreves que cheiram a naftalina.
domingo, abril 02, 2006
segunda-feira, março 27, 2006
Desgraças a postos?
"Eu morava num barracão de lona na beirada do rio, pescava peixe prá comer e fui chifrada em rede nacional. Mas não vou ganhar 1 milhão porque a baiana, além de feia e véia, já passou fome. snif. :~"
Eis que no domingo à noite, ao invés de ler os textos das aulas de segunda de manhã, eu tava lá, largada no sofá vendo Big Brother. Em tempo: tenho noção da ridicularidade de minha condição - pintassem-me de amarelo e postassem sob minha barriga uma Duff, eu passaria bem como Homer Simpson.]
Contudo, não vamos entrar no mérito da minha falta de dignidade. Eu dizia sobre o BBB. Pois bem.
Passa que, a certo momento, Pedro Bial [mais tarde trataremos da superestimação desse, hunf, JORNALISTA.] convocou os três finalistas a resumirem em um segundo toda a história de suas vidas. O que se seguiu ao pedido foi algo semelhante a um desfile de desgraças: a baiana já passou fome; a modelo morou em barracão de lona e o professor passou por "momentos muito difíceis" em sua vida - o pobrezinho não conseguiu relatar tragédias que competissem com as de suas companheiras.
Todo esse freak show desperta minha curiosidade para o fato de que o brasileiro parece ter uma atração quase que, eu sei lá, sádica, por desgraças. Bom sujeito é sempre aquele que passou pelos piores perrengues e ainda assim, *arrem* venceu na vida. Aquele que, coitado, teve o azar de nascer em berço rico não é digno de admiração porque não foi "guerreiro", não "ralou", sabe como?
E esse fetiche por mártir não se reflete só em biguis bróderes ou filas do pão. Experimente você, seu classe média sem calos na mão, reclamar com teu pai que pegar ônibus às 7 da manhã é participar de uma suruba tão involuntária quanta indesejada. Ha-ha. Provavelmente ouvirá um sermão já conhecido, de longa duração, envolvendo milhas e milhas a separar residência de escola, pés descalços, sóis escaldantes e falta de dinheiro prá merenda no recreio. Raríssimo ser diferente.
Eu não digo aqui que o esforço das pessoas não deve ser reconhecido - pelo contrário, até invejo a paixão de alguns sujeitos. O que eu acho é que gente possui outros valores importantes além da garra e, sobretudo, ninguém precisa necessariamente ter comido o pão no qual o demo sapateou para ser bom, ou digno. Caráter tá ligado é a outra coisa.
Por outro lado, eu compreendo que essa característica comum a muitos brasileiros tem justificativa menos simplista [e menos mal humorada, né, Dona Lara?] que o sadismo: Louva-se o sofredor por esperar-se que sua própria sofreguidão seja um dia louvada. Mas isso aí, até eu, burguesinha-classemédia-unhafeita-internet, sei que não se resolve tão cedo.
Que vão adotando seus mártis, então. Quando se cansarem daquele da cruz, vai o mais chorão do Big Brother, mesmo.
[Em tempo: depois do comentário, preciso nem dizer que aposto em Mara como ganhadora do 1 milhão, néam?]
[De novo: Eu assisto BBB sim. E, ó, nem vem... quero saber de vida ruim sua não, rapá.]
segunda-feira, março 20, 2006
A reason for living.
[Para o 20º Concurso Maldito.]
Com a doce impaciência infantil, ele posa para a câmera do pai. Os bracinhos arqueados e o quase-sorriso já indicam a meia volta iminente que o corpo fará para, em seguida, correr com passinhos desajeitados a jogar areia nos cabelos nas pernas nos rostos - alheios - até chegar logo ao mar.
Aquele milésimo de segundo em que a luz mancha o papel com a pequena figura inquieta, circunscreve coisas que a vivência de toda uma vida não explicaria. A obra mais prima de todas a se eternizar numa foto.
Os olhos negros se contraindo, talvez em dúvida, por não saberem quanta vida ainda lhes fará molhar - tristeza cortando a alma ou felicidade descabida. A etérea pequenez que exige cuidados, mas que é sobretudo efêmera - tal qual éter.
A segurar a câmera, mãos que certamente serão refúgio quando o moinho do mundo reduzir as ilusões a pó. Tenra autoridade paterna, tão forte e tão sóbria, mas que, frente a um garotinho ansioso por correr pela praia, se faz apenas um bobo, um apaixonado, um pai, a ver nos cabelos molhados e nas bochechas rosas uma razão prá viver..
Com a doce impaciência infantil, ele posa para a câmera do pai. Os bracinhos arqueados e o quase-sorriso já indicam a meia volta iminente que o corpo fará para, em seguida, correr com passinhos desajeitados a jogar areia nos cabelos nas pernas nos rostos - alheios - até chegar logo ao mar.
Aquele milésimo de segundo em que a luz mancha o papel com a pequena figura inquieta, circunscreve coisas que a vivência de toda uma vida não explicaria. A obra mais prima de todas a se eternizar numa foto.
Os olhos negros se contraindo, talvez em dúvida, por não saberem quanta vida ainda lhes fará molhar - tristeza cortando a alma ou felicidade descabida. A etérea pequenez que exige cuidados, mas que é sobretudo efêmera - tal qual éter.
A segurar a câmera, mãos que certamente serão refúgio quando o moinho do mundo reduzir as ilusões a pó. Tenra autoridade paterna, tão forte e tão sóbria, mas que, frente a um garotinho ansioso por correr pela praia, se faz apenas um bobo, um apaixonado, um pai, a ver nos cabelos molhados e nas bochechas rosas uma razão prá viver..
segunda-feira, março 13, 2006
Ohnos <<
Passos em regressão a ecoar na bela rua fria. Um fechar-contrário do portão da frente, a porta enfim e as chaves ainda recusando-se a vencer a fechadura - porém não seria agora que até as coisas inanimadas diminuiriam-na.
Atrás da porta não era lugar mais quente que a rua. Havia ali tensão que de tão densa se fazia palpável, tão grande que a comprimia. O lado de dentro e ela prestes a livrar-se do lar que ganhou sem pedir.
Pela sala minúscula as costas adentravam, a cada passo contrário mais pesadas, mais curvas, mais velhas. Os olhos já miravam o chão quando chegaram ao quarto de lençóis rotos e cama pequena demais praquele corpo, franzino contudo mais forte que os músculos de quem costumava deitar-se a seu lado, roncando a preguiça de todo um dia, de toda uma vida. Em sua última olhada àquele corpo gordo a sorver prá dentro de si os ruídos que abafavam o quarto, não conseguiu ser dona de sensação alguma.
Ponta do pé e então o calcanhar; ponta do pé e então o calcanhar, arrastou seu corpo de menina até a cabeceira da cama e lá deixou sua bolsa. De dentro dela, com dedos desajeitados, puxou o pequeno canivete e postou-o sobre o criado-mudo. O Guarda-Roupas a seguir recebia o já puído casaco de grandes botões beges, que deixava ver agora só a camisola de algodão a tapar a pequena silhueta.
De súbito o colchão respondeu ao pouco peso que ali se postava, afundando-se sutilmente, bem como o travesseiro que se amassara com o pesar da cabeça. Antes de cerrarem-se, os olhos fitaram por breves segundos o teto, antecipando o reverso do despertar.
Acontece que ela sonhara que podia ser mulher, que era maior que o teto de seu casebre, que suas mãos não estavam atadas, e ela poderia, sim, ter vontades e idéias. Sonhara que seus olhos eram dum preto vivo, que nunca haviam sido opacados pelas lágrimas. No rosto a pele se livrara daqueles talhos de unhas de dentes de palavras e a boca sabia se abrir em sorrisos.
Acontece que ela sonhara que podia ser gente e finalmente acordou disposta a viver.
[Idéia antiga, que eu não consegui fazer funcionar satisfatoriamente. Ainda assim, taí.]
Atrás da porta não era lugar mais quente que a rua. Havia ali tensão que de tão densa se fazia palpável, tão grande que a comprimia. O lado de dentro e ela prestes a livrar-se do lar que ganhou sem pedir.
Pela sala minúscula as costas adentravam, a cada passo contrário mais pesadas, mais curvas, mais velhas. Os olhos já miravam o chão quando chegaram ao quarto de lençóis rotos e cama pequena demais praquele corpo, franzino contudo mais forte que os músculos de quem costumava deitar-se a seu lado, roncando a preguiça de todo um dia, de toda uma vida. Em sua última olhada àquele corpo gordo a sorver prá dentro de si os ruídos que abafavam o quarto, não conseguiu ser dona de sensação alguma.
Ponta do pé e então o calcanhar; ponta do pé e então o calcanhar, arrastou seu corpo de menina até a cabeceira da cama e lá deixou sua bolsa. De dentro dela, com dedos desajeitados, puxou o pequeno canivete e postou-o sobre o criado-mudo. O Guarda-Roupas a seguir recebia o já puído casaco de grandes botões beges, que deixava ver agora só a camisola de algodão a tapar a pequena silhueta.
De súbito o colchão respondeu ao pouco peso que ali se postava, afundando-se sutilmente, bem como o travesseiro que se amassara com o pesar da cabeça. Antes de cerrarem-se, os olhos fitaram por breves segundos o teto, antecipando o reverso do despertar.
Acontece que ela sonhara que podia ser mulher, que era maior que o teto de seu casebre, que suas mãos não estavam atadas, e ela poderia, sim, ter vontades e idéias. Sonhara que seus olhos eram dum preto vivo, que nunca haviam sido opacados pelas lágrimas. No rosto a pele se livrara daqueles talhos de unhas de dentes de palavras e a boca sabia se abrir em sorrisos.
Acontece que ela sonhara que podia ser gente e finalmente acordou disposta a viver.
[Idéia antiga, que eu não consegui fazer funcionar satisfatoriamente. Ainda assim, taí.]
quarta-feira, março 08, 2006
Brokeback Mountain.
[chorante. :~]
Assisti O Segredo de Brokeback Mountain hoje e não vi um filme gay. Durante as duas horas e mais um pouco que passei no cinema, o que eu contemplei foi a história de um amor proibido, que, justamente por isso, impede aqueles que o consumam de seguirem em frente com suas vidas.
Muitos são os filmes que utilizam esta fórmula como tema principal, contudo, não é o fato de os protagonistas de Brokeback Mountain serem do mesmo sexo que faz deste um filme diferente, e sim o tratamento ao mesmo tempo realista e sutil dispensado ao relacionamento das personagens principais, a belíssima fotografia, as notáveis atuações, a boa direção de Ang Lee, enfim.
O preconceito relacionado a O Segredo de Brokeback Mountain não está dentro das salas de cinema, ou nas torcidas de nariz para as cenas mais explícitas de sexo homossexual; o preconceito encontra-se nos comentários que reduzem esse filme apenas ao relacionamento entre dois cowboys gays, quando este é apenas um detalhe entre tantas outras questões abordadas por um belo filme.
Assistir Brokeback Mountain e rotulá-lo como um filme de temática gay é comprovar a posse de uma mente medíocre, incapaz, tanto de desfazer-se de conceitos ultrapassados, quanto de se enxergar numa história que trata de algo com o qual qualquer ser vivo respirante já se deparou: um amor puro, contudo impossível.
sábado, março 04, 2006
cinco e trintêquatro.
Quando eu olho distraída pela janela e encho os olhos com um céu desses, eu penso que dormir antes do dia ficar claro é besteira.
É besteira, que esse azul claro a se misturar com o laranja dumas nuvens fracas - prestes a tomar corpo com o passar das horas - é presente até pra mais amarga das almas.
É besteira, que sentir o frio de dia novo entrando pela janela e ouvir o silêncio de ruas ainda virgens, é o suficiente pra despertar em mim a vontade de me esvair pela greta das grades desse quarto, e ir tocar o chão fresco do lá-fora.
Talvez eu toparia comigo mesma subindo distraída morros, fazendo sinais prá ônibus, deixando cair as modedinhas da passagem. Talvez esbarrasse com uma Lara a voltar cambaleante prá casa, as sandálias na mão e o cabelo desgrenhado, um sorriso antecedendo a ressaca do dia seguinte. Talvez eu andasse errante por entre caminhos que desconheço, o dedo procurando uma campainha pra tocar, "é cedo, ainda" a martelar a consciência, pés refazendo o caminho prá casa.
Na verdade, só um texto, um dia já azul, a cama aqui do lado.
Boa noite.
É besteira, que esse azul claro a se misturar com o laranja dumas nuvens fracas - prestes a tomar corpo com o passar das horas - é presente até pra mais amarga das almas.
É besteira, que sentir o frio de dia novo entrando pela janela e ouvir o silêncio de ruas ainda virgens, é o suficiente pra despertar em mim a vontade de me esvair pela greta das grades desse quarto, e ir tocar o chão fresco do lá-fora.
Talvez eu toparia comigo mesma subindo distraída morros, fazendo sinais prá ônibus, deixando cair as modedinhas da passagem. Talvez esbarrasse com uma Lara a voltar cambaleante prá casa, as sandálias na mão e o cabelo desgrenhado, um sorriso antecedendo a ressaca do dia seguinte. Talvez eu andasse errante por entre caminhos que desconheço, o dedo procurando uma campainha pra tocar, "é cedo, ainda" a martelar a consciência, pés refazendo o caminho prá casa.
Na verdade, só um texto, um dia já azul, a cama aqui do lado.
Boa noite.
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