terça-feira, setembro 18, 2007

Par'A Fonte.

Eu já ia em minha distração, placidamente transtornada com aquele silêncio que ás vezes irrompe as horas da minha felicidade, quando, ao analisar cada milímetro dos meus detalhes prá ver se me entendia como carne antes de idéia, topei com a linha de cor diferente, cosindo com tanta perfeição o botão da minha camisa.
Aqueles traços simétricos, o rigor da pecinha que agora retornava a seu lugar, a firmeza... tudo aquilo não podia ser coisa minha, eu que tenho os traços tortos, eu que, quando ninguém olha, sempre escolho o lado gauche da vida.
Foi quando eu me lembrei d'A Fonte, e senti que, através daquele minúsculo e estúpido objeto, eu podia me sentir inundada por toda a água viva e doce que já minou daquelas mãos, daqueles olhos.
Então eu quis, e como eu quis, arrancar todos os botões das minhas blusas, rasgar com fúria todos os panos das minhas saias e desfazer as pregas dos meus poucos vestidos, só prá entregar os farrapos em seu colo e sentir, outra vez, um após outro, seus cuidados, suas ternuras, sua vontade de remendar os talhos de uma vida.



[É que são os 51 dela hoje, e eu não tô, assim, tão por perto.]

segunda-feira, agosto 27, 2007

hoje é do Raduan.

Eu até procurei assunto prá tirar a poeira e palavras prá dar cabo nas teias de aranha, nas dores físicas e nas faltas menos concretas.
Mas hoje é segunda, um diabo duma segunda quente e bagunçada, sem hora e sem bom humor prá siesta, ou prá qualquer outra loucura providencial.
Hoje é segunda, então fica o Raduan e o lapso de bom humor que sempre me corre após esse conto.


Aí pelas Três da Tarde
Raduan Nassar

'Nesta sala atulhada de mesas, máquinas e papéis, onde invejáveis escreventes dividiram entre si o bom senso do mundo, aplicando-se em idéias claras apesar do ruído e do mormaço, seguros ao se pronunciarem sobre problemas que afligem o homem moderno (espécie da qual você, milenarmente cansado, talvez se sinta um tanto excluído), largue tudo de repente sob os olhares a sua volta, componha uma cara de louco quieto e perigoso, faça os gestos mais calmos quanto os tais escribas mais severos, dê um largo "ciao" ao trabalho do dia, assim como quem se despede da vida, e surpreenda pouco mais tarde, com sua presença em hora tão insólita, os que estiveram em casa ocupados na limpeza dos armários, que você não sabia antes como era conduzida. Convém não responder aos olhares interrogativos, deixando crescer, por instantes, a intensa expectativa que se instala. Mas não exagere na medida e suba sem demora ao quarto, libertando aí os pés das meias e dos sapatos, tirando a roupa do corpo como se retirasse a importância das coisas, pondo-se enfim em vestes mínimas, quem sabe até em pêlo, mas sem ferir o decoro (o seu decoro, está claro), e aceitando ao mesmo tempo, como boa verdade provisória, toda mudança de comportamento. Feito um banhista incerto, assome em seguida no trampolim do patamar e avance dois passos como se fosse beirar um salto, silenciando de vez, embaixo, o surto abafado dos comentários. Nada de grandes lances. Desça, sem pressa, degrau por degrau, sendo tolerante com o espanto (coitados!) dos pobres familiares, que cobrem a boca com a mão enquanto se comprimem ao pé da escada. Passe por eles calado, circule pela casa toda como se andasse numa praia deserta (mas sempre com a mesma cara de louco ainda não precipitado) e se achegue depois, com cuidado e ternura, junto à rede languidamente envergada entre plantas lá no terraço. Largue-se nela como quem se larga na vida, e vá ao fundo nesse mergulho: cerre as abas da rede sobre os olhos e, com um impulso do pé (já não importa em que apoio), goze a fantasia de se sentir embalado pelo mundo.'

segunda-feira, julho 30, 2007

Opa!

Fazer um dinheiro pra ir a um show no fim do ano, acatar a sugestão dum pai, ou simplesmente arranjar desculpa prá faísca de pouca modéstia [talvez de loucura, mesmo] que te acometeu na última semana.
Um desses - ou talvez a soma destes - justifica a exclusão de alguns posts daqui, posts esses que talvez seriam os poucos que eu realmente faria questão de manter [exceto, é claro, aqueles de 2001 - 2002 que me dão horas de diversão em madrugadas insones ou domingos emburrados].
Mas já já eu coloco o que falta por aqui de novo, prá que eu não corra o risco de perder isso por arquivos tê xis tê que eu sempre esqueço em que pasta pus.

No mais, nada. Férias, muito ócio não criativo, muita comida engordativa, saudade, história prá contar... eu acho mesmo é que tenho gastado meu tempo em viver e esquecido de olhar prá fora. Mas passa, deve passar. E se não passa, assim não tá de todo ruim. Ô, não mesmo.

Beijo, brasil.

quarta-feira, junho 13, 2007

20 anos blues...

A lembrança agora me vem mais pálida, um quase esquecimento, mas é claro prá mim que havia um entender mútuo, coletivo, uma quase conformidade galgada em instantes serenos, em horas e copos eufóricos.
Mas nunca, e isto também me é límpido - o que me inicia a dúvida sobre a palidez do meu lembrar - nunca havia em mim a transparência necessária, o entendimento dos "nãos", uma sinceridade em lágrimas. Os anos iam se passando e eu me lembro de não mais achar que eles me atropelavam; havia aprendido a lidar com os entardeceres que podiam se confundir com manhãs, porque percebi que havia, sempre havia aqueles instantes escondidos entre as horas que compensavam meu acordo tácito com o espelho - mais um dia, mais um dia.

Os vinte anos, o falso amadurecer precoce, a vontade mórbida de me amargar antes da hora... Só eu não percebia como isto contrastava pateticamente com a criança que eu ainda era, com a vitalidade dos meus sorrisos, dos meus abraços.
À época me pesavam falsamente; hoje se taturam doce em minha memória, agora concluo, tão certa, tão falha.


[A mudança abstrata de dígitos - não veio a velinha dos 20 mas vieram mais de 20 abraços -, o blues da Elis, as lembranças do Herberto Helder, o formigamento de felicidade em meio a uma estética forçosamente melancólica... parabéns, atrasado, prá mim.]

domingo, maio 06, 2007

home alone.

O que a gente faz com os dias que demoram a passar porque não há quem te impeça de dormir até depois do meio dia? E com a pia que vaza e, se faltar providência, continuará vazando até que fique difícil de atravessar do quarto prá sala sem molhar os pés?
Eu tenho que trocar o papel agora, trocar o ralo que não suga e com pouco vai deixar subir aquele cheiro ruim [cheiro que não vem de mim, no entanto; 'esse cheiro ruim que você tá sentindo aí vem do ralo', sim senhor, do ralo. Eu não sou podre esse tanto].
Mas pode, pode mandar subir sim, moça, que do elevador eu escuto o tilintar das risadas, o encher do copo com espumas de diversão. Eu já levo o dedo no som e aumento as músicas de anos atrás que, impressionante, continuam servindo bem por agora. Fica aí, tem espaço [e é bom que eu não duelo com o sono até tarde prá não pensar no medo antes de dormir] , não vai agora, que a próxima música é muito boa, você vai ver, e a gente ainda nem terminou a rodada, eu ainda tenho cinco milhos prá apostar.
Quase uma hora no relógio, e eu não vou arrumar a cama hoje não, se eu posso enrolar até ficar escuro e parar na janela durante as canções calmas e dançar sozinha e pateticamente feliz ao som de tudo o que me dê vontade de mover os pés, de jogar o corpo.
Eu tenho que trocar a roupa agora, tenho que trocar de olhos quase embriagados e dormir, que amanhã é dia outra vez, e eu devo provar prá mim mesma que eu não sou tão pequena, tão calada assim.

[Acho que merecia um post-diarinho o fato de eu ser sozinha, agora. Mas sempre com gente por perto. Eu mesma já valho por muita companhia, mas não nesse sentido; eu tenho é que dar um jeito de emagrecer mesmo.]

segunda-feira, abril 16, 2007

Shakedown 1979,

e aquela vontade agridoce - porque nostalgia é infalivelmente doceamarga - de fechar os olhos numa gargalhada e fitar a rua do alto dos fios dum poste que se acendia anos atrás.

Aquele desejo frustrado - porque nostalgia fere branda na falta de expectativa - de me agarrar aos ponteiros do relógio até que eles se rendam e eu consiga corrigir todo o tempo que nos faltou prá consolidar nosso passado como o bastante - crianças legais não precisam de futuro.

E essa minha amargura... eu que jamais pensei duas vezes antes de arrancar do corpo os meus conceitos para jogá-los amarrotados no armário, contando que vocês me esperassem na esquina seguinte com garrafas e risos suficientes para todos nós.

Não sabíamos, e por mais que passe tempo, eu ainda não sei o que será dos nossos ossos. Talvez o pó... Hoje o grito das ruas me assusta e eu já não me atrevo a galgar a eletricidade dos fios.
[Eu paro. Por essa hora as lembranças já me cortam demais.]

Abro os olhos e, veja você: não há ninguém por perto.
.
.
.
[Talvez eu devesse me preocupar em fazer algo que se bastasse sozinho. Mas eu não tenho conseguido pensar em passado e nostalgia sem que o 'bom bom borom bom-bom borom bom bom' de 1979 me venha à cabeça. Quase uma ode, então, daquelas que envergonham o objeto de homenagem por serem assim, tão menores. Mas eu costumo não ser pretensiosa, e não me arriscaria jamais em dizer que qualquer coisa que eu cuspa, ou qualquer coisa que eu me esforce em fazer parecer digna, está a altura disso: http://www.youtube.com/watch?v=fZ2osNmKvNc.]

quarta-feira, fevereiro 14, 2007

Le Temps Détruit Tout.


[Para Camilla]

Eu me encontro hoje envolto naquele tormento tão conhecido de tempos anteriores, a riscar o papel com as costas da mão na tentativa de resgatar do sono as melhores palavras, as únicas bonitas e polidas o suficiente prá fazer acender os seus olhos. [É fato que nunca os vi no momento exato em que você lia minhas ridículas cartas de amor, - porque você sabe do clichê máximo, sabe que elas não teriam amor se não fossem ridículas - mas é assim, brilhantes, que eu gostava de imaginá-los enquanto percorriam minha letra esguia e confusa pela folha.]
Hoje, ironicamente, a confusão inicial me parece ser maior. Tenho a impressão de que as palavras das quais necessito agora dormem mais no fundo, e não sinto ter a habilidade de conseguir acordá-las a tempo de não te magoar com a minha falta de talento traduzida em rispidez.
É que me parece tão mais fácil bancar o parnasiano com as coisas que não precisam ser ditas, e é tão mais cômodo fazer das redundâncias [péssimas] metáforas, que eu devo ter me esquecido em algum ponto disso tudo como é que se fala daquilo que não é evidente e que, por isso mesmo, precisa ser dito.
A minha impotência me colocará apoiado em outros agora, e eu imagino que será isso o que mais te fará encher-se de cólera: com a carcaça das aspas a me proteger será difícil acertar em mim os golpes os cuspes os olhares - estes os mais dolorosos - de fúria.
"O tempo destrói tudo", Camilla, e ainda que evocar a luz impossível de teus olhos faça passar por mim um breve redemoinho agridoce [mais doce que amargo, pois trata-se você], o resto, o antes tudo, já não cabe mais, e esse atual desencaixe dói em mim como poucas coisas já doeram.
As lembranças, você saiba que eu as guardarei todas em mim e que cuidarei prá que nenhuma escape. Já quanto ao tempo... bem, quanto a esse eu serei o covarde de sempre, deixando meu corpo e tudo o que haja mais entregue a sua navalha, já que eu não penso haver outro recurso contra senhores deste porte.

Que você não me odeie pela falta [ou pelo excesso, eu nunca me sei.] de ridículo desta carta.

[De Arturo]

.
.
.

{Da Camilla e do Arturo eu não esqueço nem quando fico quase 3 meses sem dar as caras por aqui. Quase uma da manhã, de férias, assistindo mais tv do que deveria e sentindo mais saudades do que o possível. Não dava prá mais que isso... que fique como distração.}

sábado, dezembro 23, 2006

Como não podia deixar de ser.

Talvez piores que os hábitos realmente difíceis de se perder sejam os hábitos que não se quer perder, mas que, com o passar do tempo, parecem não ter mais propósito.

Hum. Faz um pouco de sentido, mas não o tanto necessário prá ilustrar o egocentrismo que segue, calcado na desculpa de quase tradição - e podem existir tradições nascidas há menos de cinco anos? Talvez seja uma questão proporcional. Enfim.
O tal post e fim de ano: comentário ridiculamente auto-avaliativo sobre as coisas que me foram durante o ano que passou.
Dessa vez eu bem podia fazer comparações simplistas e dizer que eu percebi que quanto mais entro nas letras menos contato prático eu tenho com elas; que quanto mais o tempo passa menos eu tenho a necessidade de me levar a sério; que aprender a lidar com distância não é, assim, algo tão terrível; entre tantas outras coisas que agora eu consigo ver através da névoa de todos os dias que ficaram em 2006.

Mas, ouvindo uma das minhas músicas mais bonitas entre tantas outras, e sentindo uma saudade que chega a me dar raiva [eu, que sempre pensei que saudade matava mansa e aos poucos, nunca a imaginei assim, nervosa e convulsa como ela me é agora.], vou repetir um garoto e uns garotos, prá dizer que, sobre o ano que termina, as coisas podem ser resumidas de um jeito simples: "All you need is love."


Prá vocês, um 2007 feito de abraços de verdade, sorrisos e crises de riso, ressacas que valham a pena, desconstrução de velhos conceitos [achei pedante, hein?] e construção de outros, também tão prestes a serem destruídos.
E comam muito e tenham um natal feliz. :)


[Eu volto por aqui em Janeiro, mais nêga e menos brega, quem sabe.]

segunda-feira, dezembro 04, 2006

...prá que rimar amor e dor?

Talvez porque, salvo o caso de você ser um Cortázar, só a tônica do amor não presta, não desenvolve.
Se você escreve prá dar cabo na inquietação que fica após aquele filme que depois de alguns anos ficou tão melhor, se as frases não te tomam prisioneiro e te colocam maluco até que paridas num papel [elas vêm mesmo é na passagem da sala pro quarto; nos olhos que não se fecham só prá dormir; numa inútil abrida de geladeira - e vêm cruas e descabidas como os próprios atos que as fomentam, sem pretensão de se tornarem um dia concisas e bonitas como uma birosca.], se não te sobra intimidade com as letras prá fazer de coisa como amor e só amor algo bonito sem ser piegas, a minha receita é simples:
Daquele senhor, cujas rugas já são tão fundas que parecem dizer de todos os gestos por ele já feitos, ao mesmo tempo em que anunciam os movimentos futuros, cate a dor duma perda imaginária, talvez inexistente. Da moça que caminha displicente, como se ser bonita daquele jeito fosse coisa normal, procure a dor que ela plantou em todos aqueles que presenciaram um 'não' sair dançando de sua boca prá pousar cortante em ouvidos infelizes. E se você não tiver caráter nenhum, vale até catar as desilusões de jardim-de-infância do garotinho que volta cabisbaixo prá casa, as duas paçoquinhas na mão - uma por ela rejeitada, e a outra que ele já não quis depois que o apetite foi dar uma volta.
Desligue Caetano quando ele vier indagar o porque da sua rima, junte as dores alheias com alguma que você já deve ter tido, caia no óbvio, mas mate - não definitivo, óbvio - aquela inquietação que sabe-se lá porque te surgiu.


[O trabalho do Fernando Pessoa não me fez bem, mesmo.]

terça-feira, novembro 21, 2006

prá lembrar.

Depois de sentir na cabeça dolorida e no corpo cansado o resultado da minha - sempre - procrastinação, eu me lembrei daquele tempo em que isso aqui ainda era tão meu que eu quase que nem pensava duas vezes prá escrever qualquer coisa.
Não sei se foi o meu próprio alheiamento de mim mesma, ou se foi o olhar que começaram a lançar pros cantos de cá. Sei que hoje em dia ainda há receio.
Mas, prá lembrar de quando eu ainda tinha coragem de dizer com as minhas músicas [algumas tantas que hoje em dia já nem me agradam. é estranho isso de o tempo passar, né?], e prá esquecer do tanto de coisas que eu tenho que fazer nesse fim de semestre.

All is full of love
Björk


"You'll be given love,
You'll be taken care of.
You'll be given love,
You have to trust it.

Maybe not from the sources
You have poured yours.
Maybe not from the directions
You are staring at...

Twist your head around:
It's all around you.
All is full of love,
All around you.

All is full of love,
[You just aint receiving.]
All is full of love,
[Your phone is off the hook.]
All is full of love,
[Your doors are all shut.]
All is full of love!
All is full of love, all is full of love...
All is full of love, all is full of love..."


[É lindo. E tem vídeo! ;)]