quarta-feira, março 14, 2018

Divina Comédia Humana

Eu vi a luz bronzeando o canto do móvel branco da TV e me lembrei de uma frase do Belchior: "...quando você entrou em mim como um Sol no quintal", e enquanto fervia a água pro café (um ano depois, ainda café) pensei em escutar a música por inteiro, para ouvir a frase sair da boca dele.
Eu fui atropelada por um daqueles momentos cada vez mais raros em que a música (mas podem ser as palavras, as imagens, as lembranças) chama a gente de volta prá realidade. Porque a realidade não é o passar dos dias de uma semana, a resolução dos compromissos, as preocupações com dinheiro, as vontades. Isso é o que nos distrai da realidade.

A realidade é a perenidade das coisas, o inevitável fim de tudo, dividido entre términos próximos e términos adiados por tanto quanto possível. 

Só que meu espírito estava preparado para uma música sobre amor, sobre o arrebatamento do amor, a maior das distrações, e eu ganhei uma enxurrada de realidade na cara quando percebi que o Belchior tava me ensinando que, depois de um certo ponto, não é possível mais viver completamente distraído, ainda que se esteja plenamente apaixonado, gozando no céu e no inferno do outro também, deixando a profundidade de lado. 

Então lembrei da única razão que nos leva a escrever: o prenúncio do fim. Imaginei o Belchior morto de amor, sentado num banco, o peito pesado, a voz do amigo berrando em sua orelha, "não vou ser feliz direito", ele pensa, o rosto e o peito corados do sol que lhe invadiu há alguns dias, o cansaço e a inexplicável coragem de fazer tudo de novo, a inexplicável coragem diante da certeza de todos os fins, ele pega o violão prá calar a boca da certeza, prá dizer a ela que ele sabe sim da perenidade da vida, ele já foi muito arrebatado pela realidade, mas ele não desaprendeu a dizer não, ele esmerila o violão, rasga as palavras no papel, essa todo mundo que já foi salvo da angústia da realidade por um sol no quintal, essa quem tem mais de 30 e salvou o fôlego de ser comido pelas traças que se alimentam do guardado, dessa todo mundo vai gostar. 

segunda-feira, maio 15, 2017

No que é que você pensa enquanto a água quente passa por entre o pó e cai lá embaixo preta, exalando o aroma da promessa das melhoras? Eu penso no próximo cigarro da tarde, o nono do dia, na fumaça morna que trago com o malabarismo correto que faz as pontadas nos braços e nas pernas sutilmente se acalmarem, eu olho para trás e vejo o olhar inquisidor do gato, a me perguntar e a me pedir algo que nunca alcançarei e penso o que esse gato quer, esse gato em sua servidão e quietude quer um mínimo de coisas que eu nunca conseguirei oferecer completamente, penso em tragar um pouco mais forte pois as agulhas do dorso da mão e da ponta dos pés subiram agora prá dentro do peito e se juntaram numa grande lâmina fria que aos poucos cava buracos ali dentro, tento arrancá-la com a fumaça mas ela tem a forma de um anzol e só sairá dali quando sua haste for cortada pela tesoura de uma satisfação inexistente.

Eu penso nas páginas que tenho a devassar em livros e nas páginas que preciso possuir de novo, em todas as páginas que é necessário comer prá gestar e parir novas páginas que provavelmente morrerão virgens. Penso se eles ainda me amam, até onde se estica o laço do amor, quanto falta prás suas últimas fibras se romperem e me deixarem do outro lado das coisas, presa pela cintura a uma corda roída pelo tempo que não dá para lugar nenhum. Eu passo a mão pela capa dos livros.

Desfaço a rosca da tampa da garrafa e me sirvo mais um pouco de café, engulo na esperança de que ele esquente o anzol frio do peito, refoleio as páginas e passo meus dedos pelas entranhas do livro, as letras mortas pulam nos meus olhos mas não me seduzem, eu preferia ter com elas uma leve conversa a ter que degluti-las de novo, olho para trás e vejo o olhar semi-cerrado do gato, ele já não quer mais nada e por isso mesmo sei que estava certa, as coisas que tenho para oferecer, delas ele não precisa mais, desligo a máquina de lavar e aprumo os ouvidos, ouço o berro das sirenes na rua e não escuto o canto das sereias nos livros, é preciso força e concentração para levar essa relação comensal adiante, eu penso agora na minha sanidade mental, vigio meu pensamento e tento entender por quais frestas escapam as coisas que penso, olho para as pontas dos dedos e elas estão todas cerradas à exceção dos pequenos vincos circulares existentes na ponta de todos os dedos e sei que é dali que as palavras escapam, depois de forjadas em algum oco dentro de mim que não enxergo e não consigo tocar.

Apalpo o topo ensebado dos meus cabelos e penso que é melhor as palavras voltarem logo para dentro da minha cabeça eu preciso ter toda a razão agora eu preciso andar com calma eu preciso continuar, eu preciso achar o fio condutor eu não aguento mais outra garrafa de tinta preta e amarga outros cinco minutos de administrar fumaça, eu preciso forjar um amor aqui mesmo, em cima dessa mesa, eu preciso, eu preciso, eu preciso, eu devo tanto.

quinta-feira, abril 07, 2016

Existe um ponto muito bem demarcado na minha vida, e ele faz um esforço constante em me sugar prá sua órbita. Às vezes eu me deixo ir, como quando a gente se deita em cima da água cansada de tanto nadar. Sempre tem algo, mesmo quando a água tampa os ouvidos e os olhos não conseguem ver ao redor, apenas em cima, sempre tem algo que nos acorda prá realidade antes de uma fatalidade desconhecida, e nos faz voltar à posição vertical e nadar até encontrar terra debaixo dos pés.

Depois que esse ponto se cravou em mim, eu já visitei os seus limites algumas vezes, sempre me convencendo de que aquela ali não era a borda verdadeira: sempre teria de haver um limite além, eu sempre devia estar mais distante que próxima de cruzar o limiar. Hoje eu percebi que talvez não haja uma fronteira prá adiante das marcações que avisto: a soleira é o próprio ponto, não existe mais o que cruzar.

Agora revisito uma casa inóspita, e preciso me esquivar dos olhos escuros e pedintes dos anfitriões.

quarta-feira, dezembro 16, 2015

Verde-musgo

Sempre que mencionavam a solidão do homem moderno eu desenhava mentalmente a imagem de um sujeito magro, morando em um apartamento minúsculo e antigo (tanto quanto podem ser pequenos os apartamentos antigos, já que as kitnets contemporâneas comprovaram que é possível morar em qualquer lugar onde caiba um ser humano na horizontal), vestindo roupas limpas com a dignidade de quem tem uma muda para cada dia da semana, esparramado em uma poltrona encardida, passando levemente os dedos sobre as espumas que escapam da engenharia das molas que um dia fizeram daquele assento um descanso aprazível.
Imaginava as famílias sorrindo pela luz esverdada da tv ferindo o escuro da sala acarpetada em marrom, os miasmas das risadas dos outros interrompidas pelas garfadas no almoço posto impecavelmente à mesa batendo na fronte do sujeito que contempla a novela sem mover os olhos. É imprescindível que as janelas estejam fechadas há alguns dias, e que um cheiro de sopa misturado com cozido de carne tenha se agarrado nos armários de madeira da cozinha. Tudo nessa casa deve estar mais ou menos limpo, à exceção das desorganizações recentes, a pia abriga 3 dos 4 pratos de cor âmbar que compõem o jogo de jantar.
O riso das crianças, o sino da igreja, as buzinas dos carros, o barulho que as chaves fazem antes do ranger das portas vizinhas, todos estes entram pelas frestas e, ultrapassando o limiar das portas, janelas e ralos do banheiro e da pia, impregnam a cada dia mais os azulejos e as infiltrações do teto com o lodo verde da obrigação. 

Eu durmo e acordo com as cortinas do quarto abertas, assim como as janelas, que são de vidro e correm em ambas as direções pelo trilho prateado que se afixa numa parede branca, assim como todas as paredes do meu apartamento. Quando pude escolher, comprei guarda-roupas, cômoda, prateleiras, mesa e pisos de revestimento brancos. Acendo todas as luzes da casa às 6 da tarde no horário normal e às 7 da noite no horário de verão, e respiro longamente quando, em dezembro, os dias duram até pouco antes do jornal nacional. Tenho mais peças de roupas do que preciso e algumas das vezes a pia fica lotada de vasilhas, porque eu só cozinho quando tenho companhia. Troco a ração do gato duas vezes por dia, mas não me demoro muito observando-o dormir. Já são 3 anos desde que acompanhei a última novela das 9, e de lá prá cá tenho assistido seriados que falam sobre as crises que perpassam as pessoas antes e durante os 30 anos. É tudo muito cotidiano e real, os personagens escutam as mesmas bandas que eu, se decepcionam às vezes com o que tomavam como garantido, falam sobre feminismo e, no fim, viajam tentando encontrar a si próprios. Limpo a casa toda semana, e faço uma faxina mais pesada todo mês. Esfrego com uma buchinha e um pouco de cloro todo o lodo verde que gruda no rejunte dos azulejos do banheiro e, com uma vassoura de cabo comprido, limpo o musgo das infiltrações do teto. 

Ontem, enquanto trabalhava em um texto, ouvi o sino da igreja que me avisa às 6 da tarde que é hora de acender as luzes. O sino ontem me pareceu um pouco mais insistente que o normal, acredito que tenha se estendido por mais alguns minutos que os 2 habituais. Esperei que as badaladas terminassem prá que eu me levantasse e fosse cumprir meu pequeno ritual. Junto com o soar, entraram pelas janelas escancaradas balançando as cortinas também abertas os gritos das crianças do prédio vizinho, os anúncios musicados gritados pelos alto-falantes que os carros carregavam pela rua, o tilintar das 90 chaves de cada um dos moradores do condomínio e o ranger subsequente das portas sem graxa nas dobradiças, os latidos dos cachorros o piado dos pardais o arrulho dos pombos a britadeira que come o chão do apartamento superior a água jorrando do borrifador dos jardins o filme pornô que o vizinho ao lado assiste em todas as madrugadas no máximo volume sem fone de ouvido interfones avisando chegadas telefones agudos insistindo em serem atendidos todo o som do bairro entrou pelas grandes frestas do meu apartamento junto com as badaladas lamacentas do sino da igreja, manchou todo o meu branco de um marrom viscoso, subiu até o teto, fez penderem as cortinas em cima das janelas, transformou todo o porcelanato na pior das carpetarias de cor bege. 

Então hoje, quando acordei, a lama tinha ido embora e deixado em seu lugar o musgo esverdeado por todos os cantos da casa. 


quinta-feira, julho 09, 2015

Cartografia de Decênio

Agora eu já quase não saio de casa. Fico andando pelos poucos metros quadrados, pisando o chão simples de cerâmica fria com umas meias de pé trocado, se houver uma branca ela sempre vai estar encardida, mais ou menos da cor das paredes. O sofá fica cheio de farelos de pão e carocinhos de pipoca, e em cima da mesa eu deixo uns pacotes de papel pardo com a caixa de algum lanche que eu comi há dois dias. Nunca tem garrafas, eu tenho bebido pouco porque não tem adiantado muito, o efeito demora a aparecer, a espera me deixa entediada e, quando eu finalmente fico bêbada, a euforia já foi embora no último táxi. O cinzeiro sempre tem bitucas do cigarro de outras pessoas, eu acho que elas aparecem prá nos sentirmos sozinhas em par, eu não tenho mais gostado de fumar, acho que a fumaça na casa vazia traz um ar dramático e artificial prá coisas que já estão saturadas desse espírito.

De madrugada, quando todas as luzes do bloco em frente ao meu estão apagadas, eu entro em sites que vendem passagens aéreas e fico pesquisando vôos com partida do aeroporto da Pampulha para qualquer cidade que eu sorteie no dia (existe um método: abrir um livro, descobrir o número que identifica a página, somar seus algarismos, caso seja um dos grandes, e, na barrinha de rolagem do destino, achar a cidade cuja ordenação corresponde à do sorteio), e imaginando uma viagem que tome contornos de vida em outro lugar. Ir voando parece ser a melhor escolha pois evita o problema das pegadas no chão, e assim, sem rastros, nada poderia me perseguir ou me acompanhar no meu recomeço. Crio cartografias sonhadas prá mim mesma, adivinho lugares que eu não vou estragar sedimentando esperança entre as paredes, ou fazendo as lembranças de rejunte dos azulejos.

Quando eu saio de casa, de tarde ou de noite, gosto de ficar observando as pessoas sentadas com a cabeça encostada nas janelas dos ônibus, e imaginar qual a rota que elas vão percorrer dali em diante, tentando traçar uma cartografia agora das pessoas que não conheço, prevendo até qual ponto os caminhos dos passageiros coincidem entre si, e com que força eles se dispersam em pontos específicos. Todas as estradas me parecem muito mais interessantes que a minha própria, que eu já conheço muito mais do que eu mesma gostaria. Quando me vejo no reflexo do vidro da janela em movimento, às vezes me pergunto: será que alguém imagina os meus caminhos e, num golpe de azar, chega até a invejá-los?

Outro dia, correndo rápido, copo após copo atrás da euforia, eu percebi que não quero ser aquela pessoa que fica, dentre todas as outras que vão embora. Essas pessoas tem no fundo do olho a história de quem resistiu ao fracasso dos planos iniciais, como quem diz aos que partem: vocês todos traíram o nosso tratado, mas eu fiquei, eu, guardião da dignidade das promessas. Tive medo de viver com esse brilho amargo no olho, quis ser uma entre todas as outras pessoas que quebram o combinado, aquelas que dizem: mas a nossa promessa envelheceu muito, ficou feia e pesada demais prá que nós aguentássemos carregá-la até o fim. Mas parece que, de tanto ir e voltar pelas mesmas vias, o peso do meu corpo esculpiu valas fundas no calçamento das ruas, e eu, sem perceber, fui me afundando dentro desses buracos, confundindo as minhas histórias com as histórias sedimentadas nesses subssolos, eu e os fósseis que existem por debaixo da cidade, agora eu acho que nós somos feitos da mesma matéria, talvez nós sejamos a mesma coisa, e talvez agora a vala já seja funda demais prá eu conseguir escalá-la de volta ao topo.

segunda-feira, março 16, 2015

Vigília

Vamos conversar na minha noite de insônia, como se a gente ainda se falasse. Tá tudo bem, eu não tô triste, eu só quero saber o que você anda ouvindo, o que você acabou de ouvir? Você vai pesquisar em algum lugar da sua memória uma música que diga algo que caiba entre a sutileza de um recado e de um descaso. Eu gosto dessa banda, mas essa música eu nunca ouvi, vou te dizer. A música provavelmente será qualquer coisa, mas antes mesmo de dar o play vou procurar a letra no google, e inventar prá ela um segredo que mora entre um recado e um descaso.

Você na verdade nunca prestou atenção no que é que eles cantavam, mas gosta da distorção que rola na guitarra antes do refrão, você achou que eu pudesse gostar também, talvez eu dançasse um pouco sozinha no meu quarto, se não estivesse deitada na mesma posição há quatro horas esperando entrar a primeira fresta de luz pela cortina prá que, aos poucos, meu coração recobre seu ritmo, minha cabeça desacelere e eu consiga dormir.

Ontem a gente comprou umas garrafas e foi prá uma festa estranha, no fim da noite eu me deitei no chão e você se deitou também, a gente ficou tonto o suficiente prá esvaziar a cabeça e passar alguns minutos que pareceram horas observando um ponto na parede enquanto uma música parecida com essa flutuava em volta da gente. Acho que semana passada gastamos o dinheiro que não tínhamos numa festa horrível mas no set do dj tinha uma música e o timbre do vocalista soava idêntico à voz da mulher que tá cantando agora, eu tirei meus sapatos e dancei bastante, derrubei a minha gin-tônica na sua blusa, você sorriu de olhos fechados, as luzes verdes cortavam sua camisa branca na vertical ou na horizontal. Depois a gente desceu as escadas e topou com a brisa de quando o dia tá amanhecendo e o céu ainda tá branco, quase se confundindo com o cinza do alto dos prédios, o último segundo da fresca da madrugada. A gente andou até uma praça e deitou num quadrado de grama, eu pus a cabeça no seu ombro e pensei que tudo bem dormir ali, se só por alguns segundos.

Acordei alguns anos depois.

Se eu dormir, amanhã vou acordar cantarolando o refrão da música que ouvi na insônia passada. Parece que foi ontem, eu sinto as costas molhadas e coçando da mistura de orvalho e grama, eu acho que foi ontem, a minha cabeça dói um pouco, eu não sei se é culpa do gin-tônica dos anos passados ou se é só a luz forte do computador dentro dum quarto escuro, meus pés também estão cansados, houve dias em que eu dancei, mas eu não sei mais se em sonho ou em bebedeira, é que a insônia você sabe como é, é como se você estivesse sempre consciente de que está dormindo, quando na verdade está acordado, não existe um limite visível entre o sonho e a vigília, porque talvez seja apenas a eterna vigília que aos poucos dá seus sinais de delírio, é que com ela é assim, com a privação do sono.



Dormi e sonhei que dormia.

quarta-feira, janeiro 28, 2015

quiromancia dos bêbados

Ontem, na quiromancia dos bêbados, me disseram que vou ser rica, viver muito e ter dois filhos. Mas na mão dos outros dava prá ler isso tudo e umas coisas sobre relacionamentos, casamentos, namoros, e eu achei estranho a minha predição não ir até essa parte.

É que na sua palma, Lara, as linhas tão todas bonitas, claras e bem explicadinhas, mas tem uma coisa estranha: você não tem a linha do amor na mão.

Não que o leitor de mãos fosse um respeitável místico das previsões,  e nem que eu não seja cética, não que a gente acredite em destino, ou no poder não científico que os riscos da nossa mão teriam de ditar o que seríamos, não que a gente acredite que esses talhos possam ter poder superior às nossas relações sociais e ao conjunto de causas e consequências que fazem as coisas darem certo ou errado, não que a gente se fie na sorte do acaso, mas também não é como se a gente só acreditasse naquilo que pode provar, não é como se nunca tivéssemos desconfiados das coincidências, não é como se passássemos de peito aberto debaixo das escadas da rua e viajássemos tranquilos quando só sobra a poltrona 13, não é como se nunca tivéssemos atribuído àqueles acontecimentos importantes uma aura de magia, prá ver se, ao menos às vezes, as coisas extrapolam o despropósito do cotidiano e pareçam, ainda que de longe, a sombra das nossas ficções preferidas, quero dizer, não é como se a gente não se afetasse nunca.

Por coincidência ou não, ontem, depois da quiromancia dos bêbados, nós tomamos 30 garrafas de cerveja, e talvez lá pela décima nona eu tenha pensado: se em alguns anos continuar não dando certo eu vou comprar um canivete e abrir eu mesma a linha do amor mais bonita de todas na palma da minha mão direita que é prá não dar ousadia pro destino.

segunda-feira, julho 21, 2014

Sujeito de sorte

Ontem, quando entrei no meu quarto prá dormir e tive que afastar com o pé uma mala duas sacolas de roupas aleatórias uma saia amarela de filó três garrafinhas de água pela metade uma pasta de textos alguns livros e sei lá mais o que do caminho de dois passos que leva da porta até a cama, eu suspirei e falei que queria tanto melhorar. Será que um dia a gente vai conseguir, você me perguntou. Eu falei que sim porque ano passado eu morri mas esse ano eu não morro.
Ano passado é sempre o dia anterior, calcado nas promessas de melhora assim que eu desperto e sinto que uma lança atravessou a minha cabeça pela altura do olho - o corpo tremendo um pouco, às vezes, a boca meio seca, os lábios se rasgando um pouco prá rir do absurdo e do excesso, se abrindo como as comportas que de vez em quando se abrem prá gente não ser inundado pela nossa reserva de frustrações.
Ontem eu morri mas hoje eu não morro, é tudo o que penso quando driblo as expectativas e levanto da cama, a parede ainda levemente móvel - sou grande mas não sou duas, gasta um pouco prá metabolizar toda essa confusão - vou até a segunda gaveta do armário da cozinha e quase que no automático tomo dois remédios com água e muita esperança de que esse não será um dia perdido, é o que penso quando entro no chuveiro e encaro a água fria, as ensaboadas meio desesperadas, quando ponho a roupa mais limpa do guarda roupa e tento recompor a integridade física, quando lembro de algum flash que tinha ficado escondido num canto da minha memória e coro de vergonha - mas só de leve -, lembro que até ando com minhas contas em dia, que não faltei a nenhum compromisso profissional, que não feri ninguém, que só quebrei objetos materiais e dei um roxo no meu cotovelo, não é tão grave assim, eu tenho sangrado demais, tenho chorado prá cachorro, tenho saúde e os exames de sangue tão em dia, é só diversão, prá quê se culpar tanto, o ano tem 365 dias prá eu morrer e acordar no dia seguinte com a certeza de que dessa vez eu não morro, até esmorecer e fraquejar no próximo convite, porque sempre é hora de adiar a limpeza do quarto, o enfrentamento dos próprios problemas, a habilidade de andar com as próprias pernas com a cara limpa.
Mas ainda restam as manhãs em que eu só acordo ao invés de ressuscitar, e vejo nas manchas da parede do meu quarto um futuro alguma coisa próspero, no qual se desenha meu ano de sobrevivência: a rédea da vida nas mãos, o relógio despertando às 7 e 30, um café da manhã equilibrado e saudável, a pontualidade nos compromissos, as olheiras suavizadas, a cabeça boa, as roupas passadas, limpas, brancas e alvejadas, eu como aquele sujeito de sorte da música, são e salvo e forte - a minha maior alucinação sóbria.

domingo, maio 11, 2014

Todo fudido tem direito a um clichê.

Em uma sequência pequena o suficiente prá não configurar tradição, mas grande o suficiente prá ser mais que coincidência, eu tenho danado meu coração nos anos pares. Talvez porque nos anos ímpares reste um, e aí eu tenha alguém prá me escolher por último na queimada e falar: foda-se a queimada, você é legal, vamos sair daqui e ir brincar de, sei lá, tapão.

Em outra sequência, essa já mais explícita, parece que todo término de namoro da nossa geração gira em torno de uma cena, dois personagens de um filme e uma música metade pop, metade triste prá caralho: a cena em que Joel e Clementine vão jantar num restaurante e já não tem mais assunto, mas por pura coação social trocam duas frases: 'How is the chicken?' 'It's good.' (ou algo aproximado); Summer e Tom, de 500 days of Summer; I Know it's Over, dos Smiths. Parece que em todo facebook, em todo quarto vazio, em todos os fazer uma mala com os restos da pessoa porque um dia ela vai aparecer prá buscar, em toda fossa de relacionamento dos jovens adultos, lá estão esses mesmos clichês. Porque eles são universais o suficiente prá abarcar o geral dos relacionamentos que viemos tendo, e dos problemas que viemos enfrentando nesse processo falido de tentar acertar na vida.

Fora dessas sequências, e usando o clichê prá desmontá-lo, acho que o que vai ser mais difícil daqui prá frente vai ser lidar com o efeito Brilho-Eterno reverso que a gente nunca percebeu que rolou com a gente. Lembra quando a gente ficava escalando todos os eventos belorizontinos em que a gente havia estado junto antes de se conhecer? Talvez a gente tenha apenas se apagado um do outro há muito tempo atrás, quando percebemos que o nosso negócio não daria certo, e por isso ficamos tanto tempo nos esbarrando sem saber em cada show e mostra de filme gratuita dessa cidade. Um dia a gente se esbarrou de verdade, falou aquele -ok- do fim do filme um pro outro, tocou everybody gotta learn sometimes em alguma caixa de som de algum lugar do mundo, e lá tava a gente de novo, se enganando.

O problema é que agora nós já mapeamos a cidade (de novo) juntos, e quando nós nos encontrarmos naquelas mesmas filas de shows e mesas de bares (talvez por um tempo não haja mais dispô prá fingir interesse em mostras de filmes independentes suecos) não teremos mais o privilégio de sermos os desconhecidos de antigamente.

terça-feira, novembro 19, 2013

Fazendo as pazes

Há 9 anos atrás eu conheceria minha melhor amiga não humana, não mãe, não felina. Tem gente que precisa ir prá longe prá se deslumbrar, prá ver como é bom ser atingido pelos tapas de luva do mundo e aprender a responder, mas eu andei só alguns quilômetros na pior estrada do Brasil, e topei com você. Foi o que bastou prá eu nunca mais querer voltar.
Você não é especialmente linda, nem de dia nem de noite, não tem nenhum ângulo incrível que eu morra prá mostrar pros meus amigos a quem te apresento, mas talvez o seu charme apareça mesmo em te conhecer, pegar na sua mão, entrar em lugares estranhos, subir escadas ou rampas, pedir uma cerveja e espreitar do alto de uma sacada seus pedacinhos de beleza - você finge modéstia mas tem muitos deles.
Eu sei que brigamos por um tempo, você me bateu de um jeito escroto e me deu um olho roxo que até ontem tava amarelado. Mas eu te perdôo, mesmo sabendo que você é o tipo de amiga que não aceita desculpas, porque eu sou sempre a boba da história, e me peguei num aperto agora pensando que, na verdade, eu não quero nem nunca quis sair fora de você. Meu humor geminiano combina com as suas contradições climáticas, meu coração besta é tão vasto quanto você, a gente abriga em nós as melhores pessoas desse mundo.

Olhei no espelho agora, e meu roxo no olho sarou, beagá. Dá aqui um abraço, nós somos melhores amigas de novo.



sábado, outubro 19, 2013

Condomínio Estrada Real

Das muitas mazelas de se morar em apartamentos, talvez o pior seja o medo de compartilhar com o vizinho nossos momentos de descuido. Sempre tem a cortina prá se fechar, mas ela é teimosa e, quando o vento bate naquela persiana desgarrada que se prende num pedaço da cômoda, faz a moldura prá gente ver o lado de fora.
Ninguém fala nada, quase nunca. Ninguém canta músicas desafinadas, treina o violão, discute ao telefone. Esse prédio se quer mudo a cada vez que o interfone toca e o porteiro diz que as pessoas precisam dormir. (Eu também preciso, penso, mas o silêncio de vocês me deixa medrosa.)
Em alguma janela um vizinho se descuida e deixa escapar o som de um garfo batendo na borda do prato, talvez um dos sons mais angustiantes do mundo: o som de quem come sozinho, enquanto vê algum programa na televisão (o volume baixíssimo, os apresentadores quase ventríloquos). Ele engole as garfadas de lasanha congelada, a porção para dois separada em uma parte para ele e outra para a frustração - bons solitários comem todos os gramas e choram depois.

De algum outro lugar vêm os gemidos que uma vizinha não conseguiu conter.

O outro vizinho agora lava os pratos sujos de molho branco artificial e farinhento com muita raiva, porque não é obrigado a participar da vida particular de ninguém, porque as pessoas deviam respeitar umas às outras e saber conviver em sociedade, e também não devem ter muito o que fazer na vida prá estarem fazendo esse tipo de coisa a essa hora da tarde, ou será que ninguém mais trabalha, porque também ele nem consegue se lembrar qual foi a última vez que ouviu um desses ao pé do ouvido, talvez tenha sido naquela época em que ele ainda era vegetariano e cozinhava comida de verdade prá dois, e ligava também um som alto prá que ninguém escutasse a alegria que escapava quando eles jantavam juntos e conversavam sobre qualquer assunto aleatório porque qualquer coisa no mundo é assunto prá duas pessoas que se gostam, mas nem nessa época, nem nessa época quando o interfone tocava todos os dias e o porteiro reclamava com sua gagueira e voz chiada que as pessoas precisam dormir e já é a terceira vez só nessa semana, na quarta será advertência, nem nessa época ele se lembrava de ficar exibindo de propósito aos outros a sua felicidade, porque uma coisa que a gente tem que aprender na vida é respeitar o luto dos solitários, que a gente nunca sabe onde vai parar, numa tarde meio quente, almoçando na frente da tv, ouvindo triste o tilintar dos garfos que sobraram daquele faqueiro batendo nos pratos que faziam parte do jogo que foi presente de casamento.

quinta-feira, junho 06, 2013

um relógio humano.

Todos os dias em que vou pro trabalho eu encontro um cara no meu caminho.
Ele é magro e comprido, muito bem vestido prás 8 da manhã, e tá sempre carregando um livro de Game of Thrones na mão. Todos os dias a gente se olha com o mesmo olhar de reconhecimento - de quem revê uma constância, apenas, e não um amigo ou um interesse.
Quando o vejo no fim rua sei que estou a tempo. Se nos cruzamos em cima do viaduto sei que vou me atrasar (porque as pessoas normais tem coincidências que eu deveria almejar).
Esse cara é meu relógio humano. Penso que se um dia conversarmos nos sujeitaremos às punições reservadas àqueles que tentam modificar ou adivinhar o próprio destino. Gosto de achar que ele também sabe disso.
Apesar do temor imenso, me agrada essa chance de bulir com o meu tempo.
Talvez um dia eu dê bom dia, prá dar um peteleco no curso das coisas, prá ver se vira a minha sorte.

quinta-feira, abril 11, 2013

Internet, I love you but you're bringing me down.

Em algum canto obscuro da internet nós fomos codificados em sequências binárias e agora isso é tudo o que nós fomos. Num passado resumido a uma setinha que varre a caixa de e-mails em retrocesso a totalidade se partiu em 0 e 1, em sim e não, em presença e ausência, em somos e não somos.
O tempo que nos definia passou agora a ser um arquivo no qual vez ou outra um subject mais ameno bóia em meio à enxurrada de promoções de sushi, depilações a laser e backups de artigos acadêmicos, e é só isso.

Penso que a nossa modernidade ainda é muito desajustada; por sua síndrome de Funes ela quer guardar tudo, mas não sabe reter com o respeito devido os nossos amores passados, as nossas velhas histórias. Em sua arrogância, ela não permite que pintemos o passado com as mágoas e as glórias que nos convém; o que retorna prá nós a cada vez que afundamos no hábito doente de nos vasculharmos são arrobas desajustadas e textos escancarados (ali até os erros de digitação, até a pressa no tom).

Na promessa infalível e certeira dos códigos binários ou se é ou não se é. E a isso eu prefiro a minha memória casmurra, que inquere, manipula, tapeia, finge, e se frustra, no fim, ciente de sua empreitada falha: não vamos nunca recompor o que foi nem o que fui.

terça-feira, fevereiro 19, 2013

me mate que eu sou muito vivo.

Tenho defendido a tese de que você pode ser o que quiser nessa vida, desde que seja vivo. Se for rir, ria com todos os seus dentes cariados, tortos e cheios tártaro. Não ponha a mão na frente da boca quando gargalhar, fale de boca cheia de vez em quando porque timing é uma coisa importante na vida, levante a voz, sim, deixe o sangue subir a cabeça, fale atravessado, sente na calçada suja, depois é só bater na bunda na hora que levantar que a poeira sai. De vez em quando fique bêbado, dance achando que é a pessoa mais desenvolta do mundo e depois morra de desgosto vendo como você saiu feio nas fotos. Abrace apertado mesmo que esteja meio suado, as pessoas merecem saber que você gosta delas estando limpo ou sujo. Pegue o garfo que caiu no chão e coma com ele de volta, compartilhe sua colherzinha de sorvete com o mendigo, você é uma porra de um ser humano e não vai morrer por conta de meia dúzia de bactérias, e se passar mal é porque cê já tá meio morto e nem anticorpos tem direito, vai te fazer bem  dar umas idas ao banheiro, vai te tornar resistente. Fale o que você pensa mesmo que sua opinião seja ridícula, mesmo que você não tenha certeza, mas não sente na mesa de bar com um meio sorriso na cara que assim até o saleiro tá sendo mais importante que você. Faça valer a dor das entranhas da sua mãe nem que seja de vez em quando, saia da sombra e ponha o dedo na cara dos outros, depois você pode pedir desculpas porque uma parte de você tá sempre errada, mesmo. Gaste os bicos dos sapatos em topadas na calçada, xingue quando bater o dedinho na quina do fogão, mande à merda os carros que jogam água na sua calça nova em dia de chuva, tropece, caia no chão às vezes, dê risada do seu ridículo e chore amargamente suas pequenas derrotas diárias. Faça um brinde a qualquer coisa no bar, não tenha medo de parecer estúpido - porque uma grande parte de você é e sempre será estúpida - defenda seus pensamentos como se fosse uma gata recém-parida, mude de lado quando estiver errado, faça valer a dor das entranhas da sua mãe, de novo, faça valer anos e anos de evolução que culminam na sua forma atual, faça valer a chance de estar vivo e entender o que é isso, pelo amor de deus, seja um pau no cu, seja um imbecil, seja qualquer coisa, mas não seja uma planta nessa vida.

sexta-feira, fevereiro 01, 2013

Fevereiro.

Em janeiro cada decepção que me voa na cara é uma batida de tambor que eu ensaio prá tocar em fevereiro. Eu, que não tenho ritmo e nunca bati a mão com força no couro de verdade, espero o carnaval com tanta força que vejo as portas do meu armário às vezes se estufarem e se fecharem de volta num compasso marcado, até derrubar daquela prateleira lá de cima - a prateleira que todo guarda-roupas tem, onde se guarda os restinhos puídos de felicidade - as perucas, as máscaras, os poucos confetes que resistiram ao ano passado.

Fevereiro é o mês de se esperar um messias profano, de barba comprida e batom mal passado, rindo da graça irônica que mora no alívio de se ser outra pessoa por algumas horas. É o mês de se render a todo o interdito, de desafiar a saúde e a sanidade, de achar a felicidade numa fantasia mal justificada, num bloquinho desafinando na rua.

Por 4 ou 5 dias, então, não importa, o jogo é o brinquedo de suspender o tempo, enfiando os relógios nos copos d'água e torcendo prá que eles não sejam à prova de nada. A alegria adiada de um ano inteiro vai ter que caber na sexta-sábado-domingo-segunda-terça, tornando a ser varrida pros cantos junto com os cacos de todos os outros 360 dias de cinzas.

Fevereiro já chegou. Agora só falta mesmo chegar o profeta bêbado, repetindo prá gente durante cinco dias aquela previsão linda das ciganas falsas: está tudo certo e você vai ser feliz.

quarta-feira, dezembro 12, 2012

um lance de dados

Um dia eu pedi prá ver suas mãos, porque depois de anos de falta de prática eu já tinha dividido a cama com você tantas noites, mas nunca tinha pegado nas suas mãos enquanto caminhávamos no meio da rua. Fiquei assustada com o tamanho normal dos dedos e a espessura qualquer da pele. No escuro a sua mão sempre deu voltas inteiras no meu pescoço, seus dedos me apertavam como se eu ou você fôssemos morrer nos instantes seguintes, e eu imaginava que você teria as maiores e mais quentes mãos do mundo.
Apesar disso eu nunca consegui te olhar diretamente nos olhos. Sempre soube, pelo desespero da sua respiração, que o segundo seguinte era o segundo derradeiro, e era só então que eu conseguia te encarar, por saber que, naquele instante, você provavelmente não se dava conta nem de mim, nem do calor de inferno que se debatia entre as paredes do quarto, e talvez nem de você mesmo. Eu olhava nos olhos daqueles 3 ou 4 únicos milésimos de satisfação que todo mundo tem na vida, em que tudo faz tanto sentido que a gente se esquece até mesmo de respirar.
Um dia, num daqueles inexplicáveis 'sonhar-que-tô-caindo', acordei com um pulo e me assustei mais ainda com seus olhos nos meus, satisfeitos, pacíficos, bobos.

Então eu vou embora, daqui a pouco. Talvez amanhã, talvez mês que vem, talvez em setembro, talvez um pouco depois de te ver sair pela porta, eu sou gêmeos com câncer e nunca consegui decidir a hora certa de fazer as coisas na vida, mas eu sei que uma hora eu vou embora.
Eu vou embora porque eu prefiro a falácia da sorte à falácia do amor, e já lancei de novo os dados que me guiarão de encontro ao acaso. Eu vou embora porque eu acho que a gente já não joga o mesmo jogo.


segunda-feira, novembro 12, 2012

CGJK

Conseguia sentir o peso dos olhares alheios percorrendo todas as minhas imperfeições - as pessoas podem ser muito ruins, eu pensei depois, enquanto esperava meu ônibus - mas talvez isso fosse apenas o cenário apocalíptico que a cabeça dos paranóicos cria. Porque o paranóico é antes de tudo um egocêntrico incorrigível, que acha que num mundo com tanta gente e tantas desgraças possíveis, todos os infortúnios serão destinados a ele, dono de um faro especializado prá merdas em potencial. Esse tipo específico de egocêntrico também costuma ter como companhia um punhado certo de cigarros; não tantos que esbarrem no vício, mas o suficiente pra salvar os momentos de não ter onde por a mão.
Fechei os olhos por dois segundos que na minha cabeça duraram umas três horas, e quando abri de novo o constrangimento ainda tava ali, quase físico de tão grande. A essa altura eu não sabia mais onde pôr as mãos, pés, olhos e era tomada por uma leve vontade de desaparecer, que cresceu até me por de pé. Levantada, futuquei a bolsa, e lá estavam uns cinco ou seis lucky strikes, mas por hora eu precisava só de um.
O fumante na janela é sempre um ser humano de altas. As conversas à sua volta se tornam facultativas assim que a chama do isqueiro queima os primeiros raminhos do fumo. E nós, que durante a faculdade vimos aquele tanto de filme francês preto e branco - já reparou como, de uma hora prá outra, as pessoas começam a falar de nouvelle vague como se fosse Spielberg? - entendemos que esse é o cenário perfeito prá se divagar entre o limite do poético e do patético.
Observando a vista, eu investia contra a cidade a cada baforada, reconhecendo as ruas em que já estive, construindo uma névoa por sobre elas em cada fim de suspiro. Os telhados e as calçadas ficavam, por algum tempo, embaçados, porque há sempre os dias e os lugares do passado que de tão impossíveis no presente a gente quer apagar.
Quando encarei a cidade de frente, porém, eu fui vencida. O relógio do Itaú estava lá, imponente e meio feio, coroando aquela caixa marrom comprida, caiada com várias janelas, todas iguais. Anos depois e ele ainda certamente derramava hora e clima dentro de algum apartamento do bloco dois, aquele retangular e maior, porém menos alto.
A felicidade agressiva e desesperada de anos atrás parecia agora tão monstruosa, tão perto e tão longe como o próprio Conjunto Governador Juscelino Kubitschek, ambos erguidos sob os pilares de promessas nunca cumpridas - todo mundo sabe que o JK cresceu sob a intenção de ser algo de sucesso inovador, e passar em sua frente hoje em dia é como que testemunhar não só seu fracasso como sua maleabilidade. A gente é o que pode ser naquela hora.
Não sei precisar a quantas passadas eu estava da minha antiga felicidade, era uma unidade de medida volúvel: ao alcance de uma mirada e a não sei quantos muitos quarteirões de distância. Acendi outro cigarro e destinei todo o refugo das tragadas a encobrir o prédio e tornar as lembranças mais distantes, menos cruéis, mas acho que dessa vez nem se eu tivesse um maço. Esse prédio de frustrações é grande demais.

quinta-feira, novembro 01, 2012

Paulo mentiu prá mim

Descendo a rua de calçadas traiçoeiras no inferno do fim de Outubro. Uma saia rodada que deixa o calor do asfalto subir todo pelos meus pés, canelas, joelhos, coxas. Sinto tudo me queimar com um fogo invisível que transita entre meus pés e o topo da cabeça, penso que estou no limite de sucumbir e cair no chão dizendo que desisto quando me ultrapassam corpos estranhos que só fazem aumentar o suor. Os termômetros verteriam mercúrio se medissem hoje a minha tensão.

Avisto a sombra deixada pela marquise e pela primeira vez no dia consigo raciocinar: melhor ir prá outra beira e querer como Caetano, só querer o amor e mais nada porque o amor é paciente, é benigno; o amor não é invejoso, não trata com leviandade, não se ensoberbece, não se porta com indecência, mas que mentira que Paulo me pregou. Paulo forjou até o nome e mentiu prá mim, assim como mentiram Saulos, Matheus, Pedros, Tiagos, e vocês sabem o nome do resto dos apóstolos. Só não mentiu prá mim Judas porque em Judas ninguém acredita depois de dois mil e tantos anos de traição.

Chego na faixa de pedestres e antes de partir pro outro lado me lembro dos lados rudes do amor, de quando ele se enciúma, indifere, machuca e volta a ser amor de novo depois de tantos capotes. Estou no meio do trajeto e um caminhoneiro parado no sinal buzina prá mim seu mau gosto estético: "ê lá em casa!". O calor certamente opera nele ainda mais violências que em mim.

Com o pé na outra calçada eu suo como se fosse adiantar, minha respiração tá meio acelerada e eu sinto o coração reverberar no meu peito esquerdo, fecho os olhos pedindo prá que finalmente termine o suplício, tem que haver a hora do alívio em algum momento, o sol parece estar a dois palmos da minha cara, isso ou vai dar muito certo ou vai dar muito errado, as palavras se emaranham na minha cabeça e uma imagem estranha e aleatória se fixa, agora tudo parece muito certo, eu antecipo o que vai acontecer em milésimos, a imagem some as palavras voam prá longe, e eu estou estatelada e vulnerável no chão, após um só respiro divino que pára meu diafragma por alguns instantes.

Morri um pouquinho mas já voltei à vida: por hoje eu não preciso mais do amor.

sábado, outubro 20, 2012

É sempre sobre o tempo.

Eu tenho um apreço especial pelas pessoas que me fazem rir. Não exatamente no contexto de uma conversa, aquela frase bem encaixada ou a expressão que melhor casa com o momento; não é isso. Eu amo as pessoas que me fazem rir no dia após.
Sentadinha no banco do ônibus, caçando a música que melhor ilustre o meu estado de espírito, eu muitas vezes desvejo a cidade e vejo aquela situação constrangedora da qual escapamos por pouco, e que nos deixou de frente com nossa única salvação de sempre: rir na frente do perigo. Eu lembro de quando a piada foi tão boa que eu cuspi cerveja em quem tava perto e mesmo assim não consegui parar de gargalhar prá pedir desculpas.
Reconstruo na minha frente aquele dia que nunca acabou e que acabou conosco no dia seguinte. Sorrio sozinha quando lembro de acordar com a cabeça pesando uma tonelada de confusões e dizer "Eu tô tentando lembrar...", prá ouvir sincronizadamente um "E eu tô tentando esquecer".
Eu acho que a minha felicidade reside nesses momentos nos quais, distantes do mundo, eu gargalho por dentro e rio de canto de boca enquanto driblo a calçada de uma rua qualquer. Os momentos em que o passado arromba meu presente monótono com um riso antes não percebido, mas que sempre ameaça invadir meu futuro assim que possível. Um relampejo, uma imagem fugaz de alegria que quebra o curso do meu cotidiano mais ou menos, me mostrando que tem sempre mais a acontecer.
Parece, olhando aqui de longe, que felicidade é esse passado em aberto, que se despede de mim com um até breve não cronológico, sem o gosto formal do nunca mais. A lembrança que eu consigo observar pela fresta apertada do futuro, e nunca a ferida violenta do passado interdito, do eu não quero mais.

O tempo que precisa passar prá gente entender que não é inimigo do passado; a gente só não quer a nostalgia que acena lá de longe com os sorrisos que nunca mais poderão ser dados.

quinta-feira, outubro 11, 2012

prá dar um FF.

Quero amanhã quando meu anseio por amanhã já tiver passado. Quando minhas bochechas não estiverem mais quentes e meus pés não estiverem mais tapeando o solo freneticamente querendo que a noite não termine assim, dentro do meu quarto, um maço vazio e duas garrafas de água prá encher.
Quero amanhã quando minha sessão de orientação já tiver passado, e quero que amanhã a orientadora me diga que está tudo bem, que temos tempo o suficiente e que eu entendi direitinho aquele autor que se emaranha na minha cabeça e me aponta a serventia da casa: sai dessa, menina, ainda é tempo de caçar seu rumo real.
Quero o amanhã depois de vários amanhãs, um acordar na praia com as frestas do sol entrando pelo vitral, eu sem poder me virar pro lado na cama porque alguém me impede, porque meus ombros estão todos queimados de tanto pegar praia e tomar caldo no mar, assim como um ontem que fora feliz, o ciclo repetitivo da vida, no qual se posta nossa esperança.
Quero amanhã mas sem ter que me deitar na cama e aceitar o dia de hoje, todas as minhas pequenas derrotas e vitórias, a mediocridade que nos assiste marcando vistos discretos no formulário que concerne ao enfadonho campeonato das pessoas vivas do mundo, esse mesmo campeonato que ninguém nunca ganhou mas que a gente jura que vai um dia premiar um dos nossos amigos: esse cara é legal demais.
Quero amanhã quando já for noite e eu já puder ser feliz de novo, descumprindo todas as minhas promessas - na boa, gente, eu não vou mais beber - quando eu já estiver rendida aos meus virtuosos vícios novamente, quando eu puder escorregar de um lado pro outro da cidade, amando cada bairro como se ele me recebesse com o frescor de uma criança que abre os braços, lutando contra as folhinhas do calendário estampado com santas que eu não conheço, odiando cada amanhecer que me põe de novo deitada na cama, tampando a cara com as mãos e franzindo os olhos, eu que sempre me recuso a ver a passagem dos dias.