Das muitas mazelas de se morar em apartamentos, talvez o pior seja o medo de compartilhar com o vizinho nossos momentos de descuido. Sempre tem a cortina prá se fechar, mas ela é teimosa e, quando o vento bate naquela persiana desgarrada que se prende num pedaço da cômoda, faz a moldura prá gente ver o lado de fora.
Ninguém fala nada, quase nunca. Ninguém canta músicas desafinadas, treina o violão, discute ao telefone. Esse prédio se quer mudo a cada vez que o interfone toca e o porteiro diz que as pessoas precisam dormir. (Eu também preciso, penso, mas o silêncio de vocês me deixa medrosa.)
Em alguma janela um vizinho se descuida e deixa escapar o som de um garfo batendo na borda do prato, talvez um dos sons mais angustiantes do mundo: o som de quem come sozinho, enquanto vê algum programa na televisão (o volume baixíssimo, os apresentadores quase ventríloquos). Ele engole as garfadas de lasanha congelada, a porção para dois separada em uma parte para ele e outra para a frustração - bons solitários comem todos os gramas e choram depois.
De algum outro lugar vêm os gemidos que uma vizinha não conseguiu conter.
O outro vizinho agora lava os pratos sujos de molho branco artificial e farinhento com muita raiva, porque não é obrigado a participar da vida particular de ninguém, porque as pessoas deviam respeitar umas às outras e saber conviver em sociedade, e também não devem ter muito o que fazer na vida prá estarem fazendo esse tipo de coisa a essa hora da tarde, ou será que ninguém mais trabalha, porque também ele nem consegue se lembrar qual foi a última vez que ouviu um desses ao pé do ouvido, talvez tenha sido naquela época em que ele ainda era vegetariano e cozinhava comida de verdade prá dois, e ligava também um som alto prá que ninguém escutasse a alegria que escapava quando eles jantavam juntos e conversavam sobre qualquer assunto aleatório porque qualquer coisa no mundo é assunto prá duas pessoas que se gostam, mas nem nessa época, nem nessa época quando o interfone tocava todos os dias e o porteiro reclamava com sua gagueira e voz chiada que as pessoas precisam dormir e já é a terceira vez só nessa semana, na quarta será advertência, nem nessa época ele se lembrava de ficar exibindo de propósito aos outros a sua felicidade, porque uma coisa que a gente tem que aprender na vida é respeitar o luto dos solitários, que a gente nunca sabe onde vai parar, numa tarde meio quente, almoçando na frente da tv, ouvindo triste o tilintar dos garfos que sobraram daquele faqueiro batendo nos pratos que faziam parte do jogo que foi presente de casamento.
sábado, outubro 19, 2013
quinta-feira, junho 06, 2013
um relógio humano.
Todos os dias em que vou pro trabalho eu encontro um cara no meu caminho.
Ele é magro e comprido, muito bem vestido prás 8 da manhã, e tá sempre carregando um livro de Game of Thrones na mão. Todos os dias a gente se olha com o mesmo olhar de reconhecimento - de quem revê uma constância, apenas, e não um amigo ou um interesse.
Quando o vejo no fim rua sei que estou a tempo. Se nos cruzamos em cima do viaduto sei que vou me atrasar (porque as pessoas normais tem coincidências que eu deveria almejar).
Esse cara é meu relógio humano. Penso que se um dia conversarmos nos sujeitaremos às punições reservadas àqueles que tentam modificar ou adivinhar o próprio destino. Gosto de achar que ele também sabe disso.
Apesar do temor imenso, me agrada essa chance de bulir com o meu tempo.
Talvez um dia eu dê bom dia, prá dar um peteleco no curso das coisas, prá ver se vira a minha sorte.
Ele é magro e comprido, muito bem vestido prás 8 da manhã, e tá sempre carregando um livro de Game of Thrones na mão. Todos os dias a gente se olha com o mesmo olhar de reconhecimento - de quem revê uma constância, apenas, e não um amigo ou um interesse.
Quando o vejo no fim rua sei que estou a tempo. Se nos cruzamos em cima do viaduto sei que vou me atrasar (porque as pessoas normais tem coincidências que eu deveria almejar).
Esse cara é meu relógio humano. Penso que se um dia conversarmos nos sujeitaremos às punições reservadas àqueles que tentam modificar ou adivinhar o próprio destino. Gosto de achar que ele também sabe disso.
Apesar do temor imenso, me agrada essa chance de bulir com o meu tempo.
Talvez um dia eu dê bom dia, prá dar um peteleco no curso das coisas, prá ver se vira a minha sorte.
quinta-feira, abril 11, 2013
Internet, I love you but you're bringing me down.
Em algum canto obscuro da internet nós fomos codificados em sequências binárias e agora isso é tudo o que nós fomos. Num passado resumido a uma setinha que varre a caixa de e-mails em retrocesso a totalidade se partiu em 0 e 1, em sim e não, em presença e ausência, em somos e não somos.
O tempo que nos definia passou agora a ser um arquivo no qual vez ou outra um subject mais ameno bóia em meio à enxurrada de promoções de sushi, depilações a laser e backups de artigos acadêmicos, e é só isso.
Penso que a nossa modernidade ainda é muito desajustada; por sua síndrome de Funes ela quer guardar tudo, mas não sabe reter com o respeito devido os nossos amores passados, as nossas velhas histórias. Em sua arrogância, ela não permite que pintemos o passado com as mágoas e as glórias que nos convém; o que retorna prá nós a cada vez que afundamos no hábito doente de nos vasculharmos são arrobas desajustadas e textos escancarados (ali até os erros de digitação, até a pressa no tom).
Na promessa infalível e certeira dos códigos binários ou se é ou não se é. E a isso eu prefiro a minha memória casmurra, que inquere, manipula, tapeia, finge, e se frustra, no fim, ciente de sua empreitada falha: não vamos nunca recompor o que foi nem o que fui.
O tempo que nos definia passou agora a ser um arquivo no qual vez ou outra um subject mais ameno bóia em meio à enxurrada de promoções de sushi, depilações a laser e backups de artigos acadêmicos, e é só isso.
Penso que a nossa modernidade ainda é muito desajustada; por sua síndrome de Funes ela quer guardar tudo, mas não sabe reter com o respeito devido os nossos amores passados, as nossas velhas histórias. Em sua arrogância, ela não permite que pintemos o passado com as mágoas e as glórias que nos convém; o que retorna prá nós a cada vez que afundamos no hábito doente de nos vasculharmos são arrobas desajustadas e textos escancarados (ali até os erros de digitação, até a pressa no tom).
Na promessa infalível e certeira dos códigos binários ou se é ou não se é. E a isso eu prefiro a minha memória casmurra, que inquere, manipula, tapeia, finge, e se frustra, no fim, ciente de sua empreitada falha: não vamos nunca recompor o que foi nem o que fui.
terça-feira, fevereiro 19, 2013
me mate que eu sou muito vivo.
Tenho defendido a tese de que você pode ser o que quiser nessa vida, desde que seja vivo. Se for rir, ria com todos os seus dentes cariados, tortos e cheios tártaro. Não ponha a mão na frente da boca quando gargalhar, fale de boca cheia de vez em quando porque timing é uma coisa importante na vida, levante a voz, sim, deixe o sangue subir a cabeça, fale atravessado, sente na calçada suja, depois é só bater na bunda na hora que levantar que a poeira sai. De vez em quando fique bêbado, dance achando que é a pessoa mais desenvolta do mundo e depois morra de desgosto vendo como você saiu feio nas fotos. Abrace apertado mesmo que esteja meio suado, as pessoas merecem saber que você gosta delas estando limpo ou sujo. Pegue o garfo que caiu no chão e coma com ele de volta, compartilhe sua colherzinha de sorvete com o mendigo, você é uma porra de um ser humano e não vai morrer por conta de meia dúzia de bactérias, e se passar mal é porque cê já tá meio morto e nem anticorpos tem direito, vai te fazer bem dar umas idas ao banheiro, vai te tornar resistente. Fale o que você pensa mesmo que sua opinião seja ridícula, mesmo que você não tenha certeza, mas não sente na mesa de bar com um meio sorriso na cara que assim até o saleiro tá sendo mais importante que você. Faça valer a dor das entranhas da sua mãe nem que seja de vez em quando, saia da sombra e ponha o dedo na cara dos outros, depois você pode pedir desculpas porque uma parte de você tá sempre errada, mesmo. Gaste os bicos dos sapatos em topadas na calçada, xingue quando bater o dedinho na quina do fogão, mande à merda os carros que jogam água na sua calça nova em dia de chuva, tropece, caia no chão às vezes, dê risada do seu ridículo e chore amargamente suas pequenas derrotas diárias. Faça um brinde a qualquer coisa no bar, não tenha medo de parecer estúpido - porque uma grande parte de você é e sempre será estúpida - defenda seus pensamentos como se fosse uma gata recém-parida, mude de lado quando estiver errado, faça valer a dor das entranhas da sua mãe, de novo, faça valer anos e anos de evolução que culminam na sua forma atual, faça valer a chance de estar vivo e entender o que é isso, pelo amor de deus, seja um pau no cu, seja um imbecil, seja qualquer coisa, mas não seja uma planta nessa vida.
sexta-feira, fevereiro 01, 2013
Fevereiro.
Em janeiro cada decepção que me voa na cara é uma batida de tambor que eu ensaio prá tocar em fevereiro. Eu, que não tenho ritmo e nunca bati a mão com força no couro de verdade, espero o carnaval com tanta força que vejo as portas do meu armário às vezes se estufarem e se fecharem de volta num compasso marcado, até derrubar daquela prateleira lá de cima - a prateleira que todo guarda-roupas tem, onde se guarda os restinhos puídos de felicidade - as perucas, as máscaras, os poucos confetes que resistiram ao ano passado.
Fevereiro é o mês de se esperar um messias profano, de barba comprida e batom mal passado, rindo da graça irônica que mora no alívio de se ser outra pessoa por algumas horas. É o mês de se render a todo o interdito, de desafiar a saúde e a sanidade, de achar a felicidade numa fantasia mal justificada, num bloquinho desafinando na rua.
Por 4 ou 5 dias, então, não importa, o jogo é o brinquedo de suspender o tempo, enfiando os relógios nos copos d'água e torcendo prá que eles não sejam à prova de nada. A alegria adiada de um ano inteiro vai ter que caber na sexta-sábado-domingo-segunda-terça, tornando a ser varrida pros cantos junto com os cacos de todos os outros 360 dias de cinzas.
Fevereiro já chegou. Agora só falta mesmo chegar o profeta bêbado, repetindo prá gente durante cinco dias aquela previsão linda das ciganas falsas: está tudo certo e você vai ser feliz.
Fevereiro é o mês de se esperar um messias profano, de barba comprida e batom mal passado, rindo da graça irônica que mora no alívio de se ser outra pessoa por algumas horas. É o mês de se render a todo o interdito, de desafiar a saúde e a sanidade, de achar a felicidade numa fantasia mal justificada, num bloquinho desafinando na rua.
Por 4 ou 5 dias, então, não importa, o jogo é o brinquedo de suspender o tempo, enfiando os relógios nos copos d'água e torcendo prá que eles não sejam à prova de nada. A alegria adiada de um ano inteiro vai ter que caber na sexta-sábado-domingo-segunda-terça, tornando a ser varrida pros cantos junto com os cacos de todos os outros 360 dias de cinzas.
Fevereiro já chegou. Agora só falta mesmo chegar o profeta bêbado, repetindo prá gente durante cinco dias aquela previsão linda das ciganas falsas: está tudo certo e você vai ser feliz.
quarta-feira, dezembro 12, 2012
um lance de dados
Um dia eu pedi prá ver suas mãos, porque depois de anos de falta de prática eu já tinha dividido a cama com você tantas noites, mas nunca tinha pegado nas suas mãos enquanto caminhávamos no meio da rua. Fiquei assustada com o tamanho normal dos dedos e a espessura qualquer da pele. No escuro a sua mão sempre deu voltas inteiras no meu pescoço, seus dedos me apertavam como se eu ou você fôssemos morrer nos instantes seguintes, e eu imaginava que você teria as maiores e mais quentes mãos do mundo.
Então eu vou embora, daqui a pouco. Talvez amanhã, talvez mês que vem, talvez em setembro, talvez um pouco depois de te ver sair pela porta, eu sou gêmeos com câncer e nunca consegui decidir a hora certa de fazer as coisas na vida, mas eu sei que uma hora eu vou embora.
Eu vou embora porque eu prefiro a falácia da sorte à falácia do amor, e já lancei de novo os dados que me guiarão de encontro ao acaso. Eu vou embora porque eu acho que a gente já não joga o mesmo jogo.
Apesar disso eu nunca consegui te olhar diretamente nos olhos. Sempre soube, pelo desespero da sua respiração, que o segundo seguinte era o segundo derradeiro, e era só então que eu conseguia te encarar, por saber que, naquele instante, você provavelmente não se dava conta nem de mim, nem do calor de inferno que se debatia entre as paredes do quarto, e talvez nem de você mesmo. Eu olhava nos olhos daqueles 3 ou 4 únicos milésimos de satisfação que todo mundo tem na vida, em que tudo faz tanto sentido que a gente se esquece até mesmo de respirar.
Um dia, num daqueles inexplicáveis 'sonhar-que-tô-caindo', acordei com um pulo e me assustei mais ainda com seus olhos nos meus, satisfeitos, pacíficos, bobos.Então eu vou embora, daqui a pouco. Talvez amanhã, talvez mês que vem, talvez em setembro, talvez um pouco depois de te ver sair pela porta, eu sou gêmeos com câncer e nunca consegui decidir a hora certa de fazer as coisas na vida, mas eu sei que uma hora eu vou embora.
Eu vou embora porque eu prefiro a falácia da sorte à falácia do amor, e já lancei de novo os dados que me guiarão de encontro ao acaso. Eu vou embora porque eu acho que a gente já não joga o mesmo jogo.
segunda-feira, novembro 12, 2012
CGJK
Conseguia sentir o peso dos olhares alheios percorrendo todas as minhas imperfeições - as pessoas podem ser muito ruins, eu pensei depois, enquanto esperava meu ônibus - mas talvez isso fosse apenas o cenário apocalíptico que a cabeça dos paranóicos cria. Porque o paranóico é antes de tudo um egocêntrico incorrigível, que acha que num mundo com tanta gente e tantas desgraças possíveis, todos os infortúnios serão destinados a ele, dono de um faro especializado prá merdas em potencial. Esse tipo específico de egocêntrico também costuma ter como companhia um punhado certo de cigarros; não tantos que esbarrem no vício, mas o suficiente pra salvar os momentos de não ter onde por a mão.
Fechei os olhos por dois segundos que na minha cabeça duraram umas três horas, e quando abri de novo o constrangimento ainda tava ali, quase físico de tão grande. A essa altura eu não sabia mais onde pôr as mãos, pés, olhos e era tomada por uma leve vontade de desaparecer, que cresceu até me por de pé. Levantada, futuquei a bolsa, e lá estavam uns cinco ou seis lucky strikes, mas por hora eu precisava só de um.
O fumante na janela é sempre um ser humano de altas. As conversas à sua volta se tornam facultativas assim que a chama do isqueiro queima os primeiros raminhos do fumo. E nós, que durante a faculdade vimos aquele tanto de filme francês preto e branco - já reparou como, de uma hora prá outra, as pessoas começam a falar de nouvelle vague como se fosse Spielberg? - entendemos que esse é o cenário perfeito prá se divagar entre o limite do poético e do patético.
Observando a vista, eu investia contra a cidade a cada baforada, reconhecendo as ruas em que já estive, construindo uma névoa por sobre elas em cada fim de suspiro. Os telhados e as calçadas ficavam, por algum tempo, embaçados, porque há sempre os dias e os lugares do passado que de tão impossíveis no presente a gente quer apagar.
Quando encarei a cidade de frente, porém, eu fui vencida. O relógio do Itaú estava lá, imponente e meio feio, coroando aquela caixa marrom comprida, caiada com várias janelas, todas iguais. Anos depois e ele ainda certamente derramava hora e clima dentro de algum apartamento do bloco dois, aquele retangular e maior, porém menos alto.
A felicidade agressiva e desesperada de anos atrás parecia agora tão monstruosa, tão perto e tão longe como o próprio Conjunto Governador Juscelino Kubitschek, ambos erguidos sob os pilares de promessas nunca cumpridas - todo mundo sabe que o JK cresceu sob a intenção de ser algo de sucesso inovador, e passar em sua frente hoje em dia é como que testemunhar não só seu fracasso como sua maleabilidade. A gente é o que pode ser naquela hora.
Não sei precisar a quantas passadas eu estava da minha antiga felicidade, era uma unidade de medida volúvel: ao alcance de uma mirada e a não sei quantos muitos quarteirões de distância. Acendi outro cigarro e destinei todo o refugo das tragadas a encobrir o prédio e tornar as lembranças mais distantes, menos cruéis, mas acho que dessa vez nem se eu tivesse um maço. Esse prédio de frustrações é grande demais.
Fechei os olhos por dois segundos que na minha cabeça duraram umas três horas, e quando abri de novo o constrangimento ainda tava ali, quase físico de tão grande. A essa altura eu não sabia mais onde pôr as mãos, pés, olhos e era tomada por uma leve vontade de desaparecer, que cresceu até me por de pé. Levantada, futuquei a bolsa, e lá estavam uns cinco ou seis lucky strikes, mas por hora eu precisava só de um.
O fumante na janela é sempre um ser humano de altas. As conversas à sua volta se tornam facultativas assim que a chama do isqueiro queima os primeiros raminhos do fumo. E nós, que durante a faculdade vimos aquele tanto de filme francês preto e branco - já reparou como, de uma hora prá outra, as pessoas começam a falar de nouvelle vague como se fosse Spielberg? - entendemos que esse é o cenário perfeito prá se divagar entre o limite do poético e do patético.
Observando a vista, eu investia contra a cidade a cada baforada, reconhecendo as ruas em que já estive, construindo uma névoa por sobre elas em cada fim de suspiro. Os telhados e as calçadas ficavam, por algum tempo, embaçados, porque há sempre os dias e os lugares do passado que de tão impossíveis no presente a gente quer apagar.
Quando encarei a cidade de frente, porém, eu fui vencida. O relógio do Itaú estava lá, imponente e meio feio, coroando aquela caixa marrom comprida, caiada com várias janelas, todas iguais. Anos depois e ele ainda certamente derramava hora e clima dentro de algum apartamento do bloco dois, aquele retangular e maior, porém menos alto.
A felicidade agressiva e desesperada de anos atrás parecia agora tão monstruosa, tão perto e tão longe como o próprio Conjunto Governador Juscelino Kubitschek, ambos erguidos sob os pilares de promessas nunca cumpridas - todo mundo sabe que o JK cresceu sob a intenção de ser algo de sucesso inovador, e passar em sua frente hoje em dia é como que testemunhar não só seu fracasso como sua maleabilidade. A gente é o que pode ser naquela hora.
Não sei precisar a quantas passadas eu estava da minha antiga felicidade, era uma unidade de medida volúvel: ao alcance de uma mirada e a não sei quantos muitos quarteirões de distância. Acendi outro cigarro e destinei todo o refugo das tragadas a encobrir o prédio e tornar as lembranças mais distantes, menos cruéis, mas acho que dessa vez nem se eu tivesse um maço. Esse prédio de frustrações é grande demais.
quinta-feira, novembro 01, 2012
Paulo mentiu prá mim
Descendo a rua de calçadas traiçoeiras no inferno do fim de Outubro. Uma saia rodada que deixa o calor do asfalto subir todo pelos meus pés, canelas, joelhos, coxas. Sinto tudo me queimar com um fogo invisível que transita entre meus pés e o topo da cabeça, penso que estou no limite de sucumbir e cair no chão dizendo que desisto quando me ultrapassam corpos estranhos que só fazem aumentar o suor. Os termômetros verteriam mercúrio se medissem hoje a minha tensão.
Avisto a sombra deixada pela marquise e pela primeira vez no dia consigo raciocinar: melhor ir prá outra beira e querer como Caetano, só querer o amor e mais nada porque o amor é paciente, é benigno; o amor não é invejoso, não trata com leviandade, não se ensoberbece, não se porta com indecência, mas que mentira que Paulo me pregou. Paulo forjou até o nome e mentiu prá mim, assim como mentiram Saulos, Matheus, Pedros, Tiagos, e vocês sabem o nome do resto dos apóstolos. Só não mentiu prá mim Judas porque em Judas ninguém acredita depois de dois mil e tantos anos de traição.
Chego na faixa de pedestres e antes de partir pro outro lado me lembro dos lados rudes do amor, de quando ele se enciúma, indifere, machuca e volta a ser amor de novo depois de tantos capotes. Estou no meio do trajeto e um caminhoneiro parado no sinal buzina prá mim seu mau gosto estético: "ê lá em casa!". O calor certamente opera nele ainda mais violências que em mim.
Com o pé na outra calçada eu suo como se fosse adiantar, minha respiração tá meio acelerada e eu sinto o coração reverberar no meu peito esquerdo, fecho os olhos pedindo prá que finalmente termine o suplício, tem que haver a hora do alívio em algum momento, o sol parece estar a dois palmos da minha cara, isso ou vai dar muito certo ou vai dar muito errado, as palavras se emaranham na minha cabeça e uma imagem estranha e aleatória se fixa, agora tudo parece muito certo, eu antecipo o que vai acontecer em milésimos, a imagem some as palavras voam prá longe, e eu estou estatelada e vulnerável no chão, após um só respiro divino que pára meu diafragma por alguns instantes.
Morri um pouquinho mas já voltei à vida: por hoje eu não preciso mais do amor.
Avisto a sombra deixada pela marquise e pela primeira vez no dia consigo raciocinar: melhor ir prá outra beira e querer como Caetano, só querer o amor e mais nada porque o amor é paciente, é benigno; o amor não é invejoso, não trata com leviandade, não se ensoberbece, não se porta com indecência, mas que mentira que Paulo me pregou. Paulo forjou até o nome e mentiu prá mim, assim como mentiram Saulos, Matheus, Pedros, Tiagos, e vocês sabem o nome do resto dos apóstolos. Só não mentiu prá mim Judas porque em Judas ninguém acredita depois de dois mil e tantos anos de traição.
Chego na faixa de pedestres e antes de partir pro outro lado me lembro dos lados rudes do amor, de quando ele se enciúma, indifere, machuca e volta a ser amor de novo depois de tantos capotes. Estou no meio do trajeto e um caminhoneiro parado no sinal buzina prá mim seu mau gosto estético: "ê lá em casa!". O calor certamente opera nele ainda mais violências que em mim.
Com o pé na outra calçada eu suo como se fosse adiantar, minha respiração tá meio acelerada e eu sinto o coração reverberar no meu peito esquerdo, fecho os olhos pedindo prá que finalmente termine o suplício, tem que haver a hora do alívio em algum momento, o sol parece estar a dois palmos da minha cara, isso ou vai dar muito certo ou vai dar muito errado, as palavras se emaranham na minha cabeça e uma imagem estranha e aleatória se fixa, agora tudo parece muito certo, eu antecipo o que vai acontecer em milésimos, a imagem some as palavras voam prá longe, e eu estou estatelada e vulnerável no chão, após um só respiro divino que pára meu diafragma por alguns instantes.
Morri um pouquinho mas já voltei à vida: por hoje eu não preciso mais do amor.
sábado, outubro 20, 2012
É sempre sobre o tempo.
Eu tenho um apreço especial pelas pessoas que me fazem rir. Não exatamente no contexto de uma conversa, aquela frase bem encaixada ou a expressão que melhor casa com o momento; não é isso. Eu amo as pessoas que me fazem rir no dia após.
Sentadinha no banco do ônibus, caçando a música que melhor ilustre o meu estado de espírito, eu muitas vezes desvejo a cidade e vejo aquela situação constrangedora da qual escapamos por pouco, e que nos deixou de frente com nossa única salvação de sempre: rir na frente do perigo. Eu lembro de quando a piada foi tão boa que eu cuspi cerveja em quem tava perto e mesmo assim não consegui parar de gargalhar prá pedir desculpas.
Reconstruo na minha frente aquele dia que nunca acabou e que acabou conosco no dia seguinte. Sorrio sozinha quando lembro de acordar com a cabeça pesando uma tonelada de confusões e dizer "Eu tô tentando lembrar...", prá ouvir sincronizadamente um "E eu tô tentando esquecer".
Eu acho que a minha felicidade reside nesses momentos nos quais, distantes do mundo, eu gargalho por dentro e rio de canto de boca enquanto driblo a calçada de uma rua qualquer. Os momentos em que o passado arromba meu presente monótono com um riso antes não percebido, mas que sempre ameaça invadir meu futuro assim que possível. Um relampejo, uma imagem fugaz de alegria que quebra o curso do meu cotidiano mais ou menos, me mostrando que tem sempre mais a acontecer.
Parece, olhando aqui de longe, que felicidade é esse passado em aberto, que se despede de mim com um até breve não cronológico, sem o gosto formal do nunca mais. A lembrança que eu consigo observar pela fresta apertada do futuro, e nunca a ferida violenta do passado interdito, do eu não quero mais.
O tempo que precisa passar prá gente entender que não é inimigo do passado; a gente só não quer a nostalgia que acena lá de longe com os sorrisos que nunca mais poderão ser dados.
Sentadinha no banco do ônibus, caçando a música que melhor ilustre o meu estado de espírito, eu muitas vezes desvejo a cidade e vejo aquela situação constrangedora da qual escapamos por pouco, e que nos deixou de frente com nossa única salvação de sempre: rir na frente do perigo. Eu lembro de quando a piada foi tão boa que eu cuspi cerveja em quem tava perto e mesmo assim não consegui parar de gargalhar prá pedir desculpas.
Reconstruo na minha frente aquele dia que nunca acabou e que acabou conosco no dia seguinte. Sorrio sozinha quando lembro de acordar com a cabeça pesando uma tonelada de confusões e dizer "Eu tô tentando lembrar...", prá ouvir sincronizadamente um "E eu tô tentando esquecer".
Eu acho que a minha felicidade reside nesses momentos nos quais, distantes do mundo, eu gargalho por dentro e rio de canto de boca enquanto driblo a calçada de uma rua qualquer. Os momentos em que o passado arromba meu presente monótono com um riso antes não percebido, mas que sempre ameaça invadir meu futuro assim que possível. Um relampejo, uma imagem fugaz de alegria que quebra o curso do meu cotidiano mais ou menos, me mostrando que tem sempre mais a acontecer.
Parece, olhando aqui de longe, que felicidade é esse passado em aberto, que se despede de mim com um até breve não cronológico, sem o gosto formal do nunca mais. A lembrança que eu consigo observar pela fresta apertada do futuro, e nunca a ferida violenta do passado interdito, do eu não quero mais.
O tempo que precisa passar prá gente entender que não é inimigo do passado; a gente só não quer a nostalgia que acena lá de longe com os sorrisos que nunca mais poderão ser dados.
quinta-feira, outubro 11, 2012
prá dar um FF.
Quero amanhã quando meu anseio por amanhã já tiver passado. Quando minhas bochechas não estiverem mais quentes e meus pés não estiverem mais tapeando o solo freneticamente querendo que a noite não termine assim, dentro do meu quarto, um maço vazio e duas garrafas de água prá encher.
Quero amanhã quando minha sessão de orientação já tiver passado, e quero que amanhã a orientadora me diga que está tudo bem, que temos tempo o suficiente e que eu entendi direitinho aquele autor que se emaranha na minha cabeça e me aponta a serventia da casa: sai dessa, menina, ainda é tempo de caçar seu rumo real.
Quero o amanhã depois de vários amanhãs, um acordar na praia com as frestas do sol entrando pelo vitral, eu sem poder me virar pro lado na cama porque alguém me impede, porque meus ombros estão todos queimados de tanto pegar praia e tomar caldo no mar, assim como um ontem que fora feliz, o ciclo repetitivo da vida, no qual se posta nossa esperança.
Quero amanhã mas sem ter que me deitar na cama e aceitar o dia de hoje, todas as minhas pequenas derrotas e vitórias, a mediocridade que nos assiste marcando vistos discretos no formulário que concerne ao enfadonho campeonato das pessoas vivas do mundo, esse mesmo campeonato que ninguém nunca ganhou mas que a gente jura que vai um dia premiar um dos nossos amigos: esse cara é legal demais.
Quero amanhã quando já for noite e eu já puder ser feliz de novo, descumprindo todas as minhas promessas - na boa, gente, eu não vou mais beber - quando eu já estiver rendida aos meus virtuosos vícios novamente, quando eu puder escorregar de um lado pro outro da cidade, amando cada bairro como se ele me recebesse com o frescor de uma criança que abre os braços, lutando contra as folhinhas do calendário estampado com santas que eu não conheço, odiando cada amanhecer que me põe de novo deitada na cama, tampando a cara com as mãos e franzindo os olhos, eu que sempre me recuso a ver a passagem dos dias.
Quero amanhã quando minha sessão de orientação já tiver passado, e quero que amanhã a orientadora me diga que está tudo bem, que temos tempo o suficiente e que eu entendi direitinho aquele autor que se emaranha na minha cabeça e me aponta a serventia da casa: sai dessa, menina, ainda é tempo de caçar seu rumo real.
Quero o amanhã depois de vários amanhãs, um acordar na praia com as frestas do sol entrando pelo vitral, eu sem poder me virar pro lado na cama porque alguém me impede, porque meus ombros estão todos queimados de tanto pegar praia e tomar caldo no mar, assim como um ontem que fora feliz, o ciclo repetitivo da vida, no qual se posta nossa esperança.
Quero amanhã mas sem ter que me deitar na cama e aceitar o dia de hoje, todas as minhas pequenas derrotas e vitórias, a mediocridade que nos assiste marcando vistos discretos no formulário que concerne ao enfadonho campeonato das pessoas vivas do mundo, esse mesmo campeonato que ninguém nunca ganhou mas que a gente jura que vai um dia premiar um dos nossos amigos: esse cara é legal demais.
Quero amanhã quando já for noite e eu já puder ser feliz de novo, descumprindo todas as minhas promessas - na boa, gente, eu não vou mais beber - quando eu já estiver rendida aos meus virtuosos vícios novamente, quando eu puder escorregar de um lado pro outro da cidade, amando cada bairro como se ele me recebesse com o frescor de uma criança que abre os braços, lutando contra as folhinhas do calendário estampado com santas que eu não conheço, odiando cada amanhecer que me põe de novo deitada na cama, tampando a cara com as mãos e franzindo os olhos, eu que sempre me recuso a ver a passagem dos dias.
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