sexta-feira, novembro 30, 2018

Pavimento

Desde que sou criança me assombram os crepúsculos. Já tentei olhar sem piscar nenhuma vez o anoitecer prá perceber em qual momento o dia efetivamente se converte em noite, mas nunca consegui vencer o lusco-fusco.
Quando cresci, aprendi a amar e temer, na mesma medida, o amanhecer. A promessa do novo dia, que eu não consegui esperar dormindo, sempre me pareceu mais confortável que as acusações do dia que vai embora denunciando as promessas mais uma vez não cumpridas.
Nas estações quentes do ano dessa cidade, o amanhecer tem o cheiro de flor de mangueira, cigarro de palha e cocada sendo queimada na hora pelos pipoqueiros polivalentes (se você quiser eles também vendem amendoim confeitado com açúcar e balas genéricas).
Hoje, porém, estamos na derradeira semana de novembro e o amanhecer foi frio. Sentada no banco de trás de um carro, as janelas fechadas confinaram seu cheiro perto demais de mim, um cheiro forjado no calor e no movimento, com o gosto do toque da sua pele colorida.

(No que é que você tá pensando?)

Olhando o azul pálido do céu, entrecortado pelos postes de luz da avenida que leva da sua casa prá minha, tento entender o que te faz amanhecer comigo na rua, copo atrás de copo, música atrás de música, a sua mão entrelaçada na minha embaixo das mesas vermelhas de plástico. Quando você olha para mim - as pupilas pretas dilatadas deixando ver só um contorno de cor, mais claro do que eu me lembrava - eu espero ver no reflexo dos seus olhos uma outra pessoa que mereça receber essa mirada.

(Não vou mentir prá você e dizer que eu não gosto mais dela.)

Todas as vezes em que me levanto para ir ao banheiro, e a cada vez é um banheiro menor, menos limpo, mais inusitado, eu me olho no espelho e tento adivinhar até quando você vai suportar minhas longas e constantes estadias em bares pouco convencionais, até quando você vai gostar de olhar nos meus olhos estranhos, beijar meus dentes tortos, passar a mão pelo meu cabelo embaraçado, brindar pela terceira vez com uma outra bebida às 3 da manhã. Você me empresta sua blusa quando o último vento da noite anuncia o começo do dia e eu tremo, menos de frio e mais de medo de deixar restar nela um cheiro não tão bom quanto o seu.

(Eu gosto de você e quero que você saiba que.)

Já se vão muitos amanheceres na rua desde a última vez em que eu quis que o tempo parasse para que eu pudesse apenas observar alguém reagir ao menor dos estímulos, entender as ondas que crescem no topo de uma cabeça e me absurdar diante da combinação harmônica dos tons da pele de um corpo. É impossível amanhecer em paz com essas vontades, acordar e pôr prá dormir a angústia de ser melhor para você, sossegar o peito prá não te acordar sem querer enquanto você dorme encostado no meu ombro.

(Me conta uma coisa sobre você que eu não saiba?)

Estar com você é morar nos crepúsculos, adiar as transformações da noite em dia, implorar prá que o dia não vire noite e esperar que, no lusco-fusco, sua mirada seja míope o suficiente prá não perceber que eu e você pertencemos às horas mais distintas do relógio.

(De repente a gente fica junto, mesmo.)

quarta-feira, março 14, 2018

Divina Comédia Humana

Eu vi a luz bronzeando o canto do móvel branco da TV e me lembrei de uma frase do Belchior: "...quando você entrou em mim como um Sol no quintal", e enquanto fervia a água pro café (um ano depois, ainda café) pensei em escutar a música por inteiro, para ouvir a frase sair da boca dele.
Eu fui atropelada por um daqueles momentos cada vez mais raros em que a música (mas podem ser as palavras, as imagens, as lembranças) chama a gente de volta prá realidade. Porque a realidade não é o passar dos dias de uma semana, a resolução dos compromissos, as preocupações com dinheiro, as vontades. Isso é o que nos distrai da realidade.

A realidade é a perenidade das coisas, o inevitável fim de tudo, dividido entre términos próximos e términos adiados por tanto quanto possível. 

Só que meu espírito estava preparado para uma música sobre amor, sobre o arrebatamento do amor, a maior das distrações, e eu ganhei uma enxurrada de realidade na cara quando percebi que o Belchior tava me ensinando que, depois de um certo ponto, não é possível mais viver completamente distraído, ainda que se esteja plenamente apaixonado, gozando no céu e no inferno do outro também, deixando a profundidade de lado. 

Então lembrei da única razão que nos leva a escrever: o prenúncio do fim. Imaginei o Belchior morto de amor, sentado num banco, o peito pesado, a voz do amigo berrando em sua orelha, "não vou ser feliz direito", ele pensa, o rosto e o peito corados do sol que lhe invadiu há alguns dias, o cansaço e a inexplicável coragem de fazer tudo de novo, a inexplicável coragem diante da certeza de todos os fins, ele pega o violão prá calar a boca da certeza, prá dizer a ela que ele sabe sim da perenidade da vida, ele já foi muito arrebatado pela realidade, mas ele não desaprendeu a dizer não, ele esmerila o violão, rasga as palavras no papel, essa todo mundo que já foi salvo da angústia da realidade por um sol no quintal, essa quem tem mais de 30 e salvou o fôlego de ser comido pelas traças que se alimentam do guardado, dessa todo mundo vai gostar. 

segunda-feira, maio 15, 2017

No que é que você pensa enquanto a água quente passa por entre o pó e cai lá embaixo preta, exalando o aroma da promessa das melhoras? Eu penso no próximo cigarro da tarde, o nono do dia, na fumaça morna que trago com o malabarismo correto que faz as pontadas nos braços e nas pernas sutilmente se acalmarem, eu olho para trás e vejo o olhar inquisidor do gato, a me perguntar e a me pedir algo que nunca alcançarei e penso o que esse gato quer, esse gato em sua servidão e quietude quer um mínimo de coisas que eu nunca conseguirei oferecer completamente, penso em tragar um pouco mais forte pois as agulhas do dorso da mão e da ponta dos pés subiram agora prá dentro do peito e se juntaram numa grande lâmina fria que aos poucos cava buracos ali dentro, tento arrancá-la com a fumaça mas ela tem a forma de um anzol e só sairá dali quando sua haste for cortada pela tesoura de uma satisfação inexistente.

Eu penso nas páginas que tenho a devassar em livros e nas páginas que preciso possuir de novo, em todas as páginas que é necessário comer prá gestar e parir novas páginas que provavelmente morrerão virgens. Penso se eles ainda me amam, até onde se estica o laço do amor, quanto falta prás suas últimas fibras se romperem e me deixarem do outro lado das coisas, presa pela cintura a uma corda roída pelo tempo que não dá para lugar nenhum. Eu passo a mão pela capa dos livros.

Desfaço a rosca da tampa da garrafa e me sirvo mais um pouco de café, engulo na esperança de que ele esquente o anzol frio do peito, refoleio as páginas e passo meus dedos pelas entranhas do livro, as letras mortas pulam nos meus olhos mas não me seduzem, eu preferia ter com elas uma leve conversa a ter que degluti-las de novo, olho para trás e vejo o olhar semi-cerrado do gato, ele já não quer mais nada e por isso mesmo sei que estava certa, as coisas que tenho para oferecer, delas ele não precisa mais, desligo a máquina de lavar e aprumo os ouvidos, ouço o berro das sirenes na rua e não escuto o canto das sereias nos livros, é preciso força e concentração para levar essa relação comensal adiante, eu penso agora na minha sanidade mental, vigio meu pensamento e tento entender por quais frestas escapam as coisas que penso, olho para as pontas dos dedos e elas estão todas cerradas à exceção dos pequenos vincos circulares existentes na ponta de todos os dedos e sei que é dali que as palavras escapam, depois de forjadas em algum oco dentro de mim que não enxergo e não consigo tocar.

Apalpo o topo ensebado dos meus cabelos e penso que é melhor as palavras voltarem logo para dentro da minha cabeça eu preciso ter toda a razão agora eu preciso andar com calma eu preciso continuar, eu preciso achar o fio condutor eu não aguento mais outra garrafa de tinta preta e amarga outros cinco minutos de administrar fumaça, eu preciso forjar um amor aqui mesmo, em cima dessa mesa, eu preciso, eu preciso, eu preciso, eu devo tanto.

quinta-feira, abril 07, 2016

Existe um ponto muito bem demarcado na minha vida, e ele faz um esforço constante em me sugar prá sua órbita. Às vezes eu me deixo ir, como quando a gente se deita em cima da água cansada de tanto nadar. Sempre tem algo, mesmo quando a água tampa os ouvidos e os olhos não conseguem ver ao redor, apenas em cima, sempre tem algo que nos acorda prá realidade antes de uma fatalidade desconhecida, e nos faz voltar à posição vertical e nadar até encontrar terra debaixo dos pés.

Depois que esse ponto se cravou em mim, eu já visitei os seus limites algumas vezes, sempre me convencendo de que aquela ali não era a borda verdadeira: sempre teria de haver um limite além, eu sempre devia estar mais distante que próxima de cruzar o limiar. Hoje eu percebi que talvez não haja uma fronteira prá adiante das marcações que avisto: a soleira é o próprio ponto, não existe mais o que cruzar.

Agora revisito uma casa inóspita, e preciso me esquivar dos olhos escuros e pedintes dos anfitriões.

quarta-feira, dezembro 16, 2015

Verde-musgo

Sempre que mencionavam a solidão do homem moderno eu desenhava mentalmente a imagem de um sujeito magro, morando em um apartamento minúsculo e antigo (tanto quanto podem ser pequenos os apartamentos antigos, já que as kitnets contemporâneas comprovaram que é possível morar em qualquer lugar onde caiba um ser humano na horizontal), vestindo roupas limpas com a dignidade de quem tem uma muda para cada dia da semana, esparramado em uma poltrona encardida, passando levemente os dedos sobre as espumas que escapam da engenharia das molas que um dia fizeram daquele assento um descanso aprazível.
Imaginava as famílias sorrindo pela luz esverdada da tv ferindo o escuro da sala acarpetada em marrom, os miasmas das risadas dos outros interrompidas pelas garfadas no almoço posto impecavelmente à mesa batendo na fronte do sujeito que contempla a novela sem mover os olhos. É imprescindível que as janelas estejam fechadas há alguns dias, e que um cheiro de sopa misturado com cozido de carne tenha se agarrado nos armários de madeira da cozinha. Tudo nessa casa deve estar mais ou menos limpo, à exceção das desorganizações recentes, a pia abriga 3 dos 4 pratos de cor âmbar que compõem o jogo de jantar.
O riso das crianças, o sino da igreja, as buzinas dos carros, o barulho que as chaves fazem antes do ranger das portas vizinhas, todos estes entram pelas frestas e, ultrapassando o limiar das portas, janelas e ralos do banheiro e da pia, impregnam a cada dia mais os azulejos e as infiltrações do teto com o lodo verde da obrigação. 

Eu durmo e acordo com as cortinas do quarto abertas, assim como as janelas, que são de vidro e correm em ambas as direções pelo trilho prateado que se afixa numa parede branca, assim como todas as paredes do meu apartamento. Quando pude escolher, comprei guarda-roupas, cômoda, prateleiras, mesa e pisos de revestimento brancos. Acendo todas as luzes da casa às 6 da tarde no horário normal e às 7 da noite no horário de verão, e respiro longamente quando, em dezembro, os dias duram até pouco antes do jornal nacional. Tenho mais peças de roupas do que preciso e algumas das vezes a pia fica lotada de vasilhas, porque eu só cozinho quando tenho companhia. Troco a ração do gato duas vezes por dia, mas não me demoro muito observando-o dormir. Já são 3 anos desde que acompanhei a última novela das 9, e de lá prá cá tenho assistido seriados que falam sobre as crises que perpassam as pessoas antes e durante os 30 anos. É tudo muito cotidiano e real, os personagens escutam as mesmas bandas que eu, se decepcionam às vezes com o que tomavam como garantido, falam sobre feminismo e, no fim, viajam tentando encontrar a si próprios. Limpo a casa toda semana, e faço uma faxina mais pesada todo mês. Esfrego com uma buchinha e um pouco de cloro todo o lodo verde que gruda no rejunte dos azulejos do banheiro e, com uma vassoura de cabo comprido, limpo o musgo das infiltrações do teto. 

Ontem, enquanto trabalhava em um texto, ouvi o sino da igreja que me avisa às 6 da tarde que é hora de acender as luzes. O sino ontem me pareceu um pouco mais insistente que o normal, acredito que tenha se estendido por mais alguns minutos que os 2 habituais. Esperei que as badaladas terminassem prá que eu me levantasse e fosse cumprir meu pequeno ritual. Junto com o soar, entraram pelas janelas escancaradas balançando as cortinas também abertas os gritos das crianças do prédio vizinho, os anúncios musicados gritados pelos alto-falantes que os carros carregavam pela rua, o tilintar das 90 chaves de cada um dos moradores do condomínio e o ranger subsequente das portas sem graxa nas dobradiças, os latidos dos cachorros o piado dos pardais o arrulho dos pombos a britadeira que come o chão do apartamento superior a água jorrando do borrifador dos jardins o filme pornô que o vizinho ao lado assiste em todas as madrugadas no máximo volume sem fone de ouvido interfones avisando chegadas telefones agudos insistindo em serem atendidos todo o som do bairro entrou pelas grandes frestas do meu apartamento junto com as badaladas lamacentas do sino da igreja, manchou todo o meu branco de um marrom viscoso, subiu até o teto, fez penderem as cortinas em cima das janelas, transformou todo o porcelanato na pior das carpetarias de cor bege. 

Então hoje, quando acordei, a lama tinha ido embora e deixado em seu lugar o musgo esverdeado por todos os cantos da casa. 


quinta-feira, julho 09, 2015

Cartografia de Decênio

Agora eu já quase não saio de casa. Fico andando pelos poucos metros quadrados, pisando o chão simples de cerâmica fria com umas meias de pé trocado, se houver uma branca ela sempre vai estar encardida, mais ou menos da cor das paredes. O sofá fica cheio de farelos de pão e carocinhos de pipoca, e em cima da mesa eu deixo uns pacotes de papel pardo com a caixa de algum lanche que eu comi há dois dias. Nunca tem garrafas, eu tenho bebido pouco porque não tem adiantado muito, o efeito demora a aparecer, a espera me deixa entediada e, quando eu finalmente fico bêbada, a euforia já foi embora no último táxi. O cinzeiro sempre tem bitucas do cigarro de outras pessoas, eu acho que elas aparecem prá nos sentirmos sozinhas em par, eu não tenho mais gostado de fumar, acho que a fumaça na casa vazia traz um ar dramático e artificial prá coisas que já estão saturadas desse espírito.

De madrugada, quando todas as luzes do bloco em frente ao meu estão apagadas, eu entro em sites que vendem passagens aéreas e fico pesquisando vôos com partida do aeroporto da Pampulha para qualquer cidade que eu sorteie no dia (existe um método: abrir um livro, descobrir o número que identifica a página, somar seus algarismos, caso seja um dos grandes, e, na barrinha de rolagem do destino, achar a cidade cuja ordenação corresponde à do sorteio), e imaginando uma viagem que tome contornos de vida em outro lugar. Ir voando parece ser a melhor escolha pois evita o problema das pegadas no chão, e assim, sem rastros, nada poderia me perseguir ou me acompanhar no meu recomeço. Crio cartografias sonhadas prá mim mesma, adivinho lugares que eu não vou estragar sedimentando esperança entre as paredes, ou fazendo as lembranças de rejunte dos azulejos.

Quando eu saio de casa, de tarde ou de noite, gosto de ficar observando as pessoas sentadas com a cabeça encostada nas janelas dos ônibus, e imaginar qual a rota que elas vão percorrer dali em diante, tentando traçar uma cartografia agora das pessoas que não conheço, prevendo até qual ponto os caminhos dos passageiros coincidem entre si, e com que força eles se dispersam em pontos específicos. Todas as estradas me parecem muito mais interessantes que a minha própria, que eu já conheço muito mais do que eu mesma gostaria. Quando me vejo no reflexo do vidro da janela em movimento, às vezes me pergunto: será que alguém imagina os meus caminhos e, num golpe de azar, chega até a invejá-los?

Outro dia, correndo rápido, copo após copo atrás da euforia, eu percebi que não quero ser aquela pessoa que fica, dentre todas as outras que vão embora. Essas pessoas tem no fundo do olho a história de quem resistiu ao fracasso dos planos iniciais, como quem diz aos que partem: vocês todos traíram o nosso tratado, mas eu fiquei, eu, guardião da dignidade das promessas. Tive medo de viver com esse brilho amargo no olho, quis ser uma entre todas as outras pessoas que quebram o combinado, aquelas que dizem: mas a nossa promessa envelheceu muito, ficou feia e pesada demais prá que nós aguentássemos carregá-la até o fim. Mas parece que, de tanto ir e voltar pelas mesmas vias, o peso do meu corpo esculpiu valas fundas no calçamento das ruas, e eu, sem perceber, fui me afundando dentro desses buracos, confundindo as minhas histórias com as histórias sedimentadas nesses subssolos, eu e os fósseis que existem por debaixo da cidade, agora eu acho que nós somos feitos da mesma matéria, talvez nós sejamos a mesma coisa, e talvez agora a vala já seja funda demais prá eu conseguir escalá-la de volta ao topo.

segunda-feira, março 16, 2015

Vigília

Vamos conversar na minha noite de insônia, como se a gente ainda se falasse. Tá tudo bem, eu não tô triste, eu só quero saber o que você anda ouvindo, o que você acabou de ouvir? Você vai pesquisar em algum lugar da sua memória uma música que diga algo que caiba entre a sutileza de um recado e de um descaso. Eu gosto dessa banda, mas essa música eu nunca ouvi, vou te dizer. A música provavelmente será qualquer coisa, mas antes mesmo de dar o play vou procurar a letra no google, e inventar prá ela um segredo que mora entre um recado e um descaso.

Você na verdade nunca prestou atenção no que é que eles cantavam, mas gosta da distorção que rola na guitarra antes do refrão, você achou que eu pudesse gostar também, talvez eu dançasse um pouco sozinha no meu quarto, se não estivesse deitada na mesma posição há quatro horas esperando entrar a primeira fresta de luz pela cortina prá que, aos poucos, meu coração recobre seu ritmo, minha cabeça desacelere e eu consiga dormir.

Ontem a gente comprou umas garrafas e foi prá uma festa estranha, no fim da noite eu me deitei no chão e você se deitou também, a gente ficou tonto o suficiente prá esvaziar a cabeça e passar alguns minutos que pareceram horas observando um ponto na parede enquanto uma música parecida com essa flutuava em volta da gente. Acho que semana passada gastamos o dinheiro que não tínhamos numa festa horrível mas no set do dj tinha uma música e o timbre do vocalista soava idêntico à voz da mulher que tá cantando agora, eu tirei meus sapatos e dancei bastante, derrubei a minha gin-tônica na sua blusa, você sorriu de olhos fechados, as luzes verdes cortavam sua camisa branca na vertical ou na horizontal. Depois a gente desceu as escadas e topou com a brisa de quando o dia tá amanhecendo e o céu ainda tá branco, quase se confundindo com o cinza do alto dos prédios, o último segundo da fresca da madrugada. A gente andou até uma praça e deitou num quadrado de grama, eu pus a cabeça no seu ombro e pensei que tudo bem dormir ali, se só por alguns segundos.

Acordei alguns anos depois.

Se eu dormir, amanhã vou acordar cantarolando o refrão da música que ouvi na insônia passada. Parece que foi ontem, eu sinto as costas molhadas e coçando da mistura de orvalho e grama, eu acho que foi ontem, a minha cabeça dói um pouco, eu não sei se é culpa do gin-tônica dos anos passados ou se é só a luz forte do computador dentro dum quarto escuro, meus pés também estão cansados, houve dias em que eu dancei, mas eu não sei mais se em sonho ou em bebedeira, é que a insônia você sabe como é, é como se você estivesse sempre consciente de que está dormindo, quando na verdade está acordado, não existe um limite visível entre o sonho e a vigília, porque talvez seja apenas a eterna vigília que aos poucos dá seus sinais de delírio, é que com ela é assim, com a privação do sono.



Dormi e sonhei que dormia.

quarta-feira, janeiro 28, 2015

quiromancia dos bêbados

Ontem, na quiromancia dos bêbados, me disseram que vou ser rica, viver muito e ter dois filhos. Mas na mão dos outros dava prá ler isso tudo e umas coisas sobre relacionamentos, casamentos, namoros, e eu achei estranho a minha predição não ir até essa parte.

É que na sua palma, Lara, as linhas tão todas bonitas, claras e bem explicadinhas, mas tem uma coisa estranha: você não tem a linha do amor na mão.

Não que o leitor de mãos fosse um respeitável místico das previsões,  e nem que eu não seja cética, não que a gente acredite em destino, ou no poder não científico que os riscos da nossa mão teriam de ditar o que seríamos, não que a gente acredite que esses talhos possam ter poder superior às nossas relações sociais e ao conjunto de causas e consequências que fazem as coisas darem certo ou errado, não que a gente se fie na sorte do acaso, mas também não é como se a gente só acreditasse naquilo que pode provar, não é como se nunca tivéssemos desconfiados das coincidências, não é como se passássemos de peito aberto debaixo das escadas da rua e viajássemos tranquilos quando só sobra a poltrona 13, não é como se nunca tivéssemos atribuído àqueles acontecimentos importantes uma aura de magia, prá ver se, ao menos às vezes, as coisas extrapolam o despropósito do cotidiano e pareçam, ainda que de longe, a sombra das nossas ficções preferidas, quero dizer, não é como se a gente não se afetasse nunca.

Por coincidência ou não, ontem, depois da quiromancia dos bêbados, nós tomamos 30 garrafas de cerveja, e talvez lá pela décima nona eu tenha pensado: se em alguns anos continuar não dando certo eu vou comprar um canivete e abrir eu mesma a linha do amor mais bonita de todas na palma da minha mão direita que é prá não dar ousadia pro destino.

segunda-feira, julho 21, 2014

Sujeito de sorte

Ontem, quando entrei no meu quarto prá dormir e tive que afastar com o pé uma mala duas sacolas de roupas aleatórias uma saia amarela de filó três garrafinhas de água pela metade uma pasta de textos alguns livros e sei lá mais o que do caminho de dois passos que leva da porta até a cama, eu suspirei e falei que queria tanto melhorar. Será que um dia a gente vai conseguir, você me perguntou. Eu falei que sim porque ano passado eu morri mas esse ano eu não morro.
Ano passado é sempre o dia anterior, calcado nas promessas de melhora assim que eu desperto e sinto que uma lança atravessou a minha cabeça pela altura do olho - o corpo tremendo um pouco, às vezes, a boca meio seca, os lábios se rasgando um pouco prá rir do absurdo e do excesso, se abrindo como as comportas que de vez em quando se abrem prá gente não ser inundado pela nossa reserva de frustrações.
Ontem eu morri mas hoje eu não morro, é tudo o que penso quando driblo as expectativas e levanto da cama, a parede ainda levemente móvel - sou grande mas não sou duas, gasta um pouco prá metabolizar toda essa confusão - vou até a segunda gaveta do armário da cozinha e quase que no automático tomo dois remédios com água e muita esperança de que esse não será um dia perdido, é o que penso quando entro no chuveiro e encaro a água fria, as ensaboadas meio desesperadas, quando ponho a roupa mais limpa do guarda roupa e tento recompor a integridade física, quando lembro de algum flash que tinha ficado escondido num canto da minha memória e coro de vergonha - mas só de leve -, lembro que até ando com minhas contas em dia, que não faltei a nenhum compromisso profissional, que não feri ninguém, que só quebrei objetos materiais e dei um roxo no meu cotovelo, não é tão grave assim, eu tenho sangrado demais, tenho chorado prá cachorro, tenho saúde e os exames de sangue tão em dia, é só diversão, prá quê se culpar tanto, o ano tem 365 dias prá eu morrer e acordar no dia seguinte com a certeza de que dessa vez eu não morro, até esmorecer e fraquejar no próximo convite, porque sempre é hora de adiar a limpeza do quarto, o enfrentamento dos próprios problemas, a habilidade de andar com as próprias pernas com a cara limpa.
Mas ainda restam as manhãs em que eu só acordo ao invés de ressuscitar, e vejo nas manchas da parede do meu quarto um futuro alguma coisa próspero, no qual se desenha meu ano de sobrevivência: a rédea da vida nas mãos, o relógio despertando às 7 e 30, um café da manhã equilibrado e saudável, a pontualidade nos compromissos, as olheiras suavizadas, a cabeça boa, as roupas passadas, limpas, brancas e alvejadas, eu como aquele sujeito de sorte da música, são e salvo e forte - a minha maior alucinação sóbria.

domingo, maio 11, 2014

Todo fudido tem direito a um clichê.

Em uma sequência pequena o suficiente prá não configurar tradição, mas grande o suficiente prá ser mais que coincidência, eu tenho danado meu coração nos anos pares. Talvez porque nos anos ímpares reste um, e aí eu tenha alguém prá me escolher por último na queimada e falar: foda-se a queimada, você é legal, vamos sair daqui e ir brincar de, sei lá, tapão.

Em outra sequência, essa já mais explícita, parece que todo término de namoro da nossa geração gira em torno de uma cena, dois personagens de um filme e uma música metade pop, metade triste prá caralho: a cena em que Joel e Clementine vão jantar num restaurante e já não tem mais assunto, mas por pura coação social trocam duas frases: 'How is the chicken?' 'It's good.' (ou algo aproximado); Summer e Tom, de 500 days of Summer; I Know it's Over, dos Smiths. Parece que em todo facebook, em todo quarto vazio, em todos os fazer uma mala com os restos da pessoa porque um dia ela vai aparecer prá buscar, em toda fossa de relacionamento dos jovens adultos, lá estão esses mesmos clichês. Porque eles são universais o suficiente prá abarcar o geral dos relacionamentos que viemos tendo, e dos problemas que viemos enfrentando nesse processo falido de tentar acertar na vida.

Fora dessas sequências, e usando o clichê prá desmontá-lo, acho que o que vai ser mais difícil daqui prá frente vai ser lidar com o efeito Brilho-Eterno reverso que a gente nunca percebeu que rolou com a gente. Lembra quando a gente ficava escalando todos os eventos belorizontinos em que a gente havia estado junto antes de se conhecer? Talvez a gente tenha apenas se apagado um do outro há muito tempo atrás, quando percebemos que o nosso negócio não daria certo, e por isso ficamos tanto tempo nos esbarrando sem saber em cada show e mostra de filme gratuita dessa cidade. Um dia a gente se esbarrou de verdade, falou aquele -ok- do fim do filme um pro outro, tocou everybody gotta learn sometimes em alguma caixa de som de algum lugar do mundo, e lá tava a gente de novo, se enganando.

O problema é que agora nós já mapeamos a cidade (de novo) juntos, e quando nós nos encontrarmos naquelas mesmas filas de shows e mesas de bares (talvez por um tempo não haja mais dispô prá fingir interesse em mostras de filmes independentes suecos) não teremos mais o privilégio de sermos os desconhecidos de antigamente.